Terça-feira, 1 de Dezembro de 2009
publicado por JN em 1/12/09

Não sei se foi das anedotas. Talvez não tenha sido: talvez, e pelo contrário, tenham sido as anedotas a perceber que a guerra dos sexos continua a ser o palco de quase tudo o que interessa na história desta espécie – e, portanto, a transpor elas próprias essa guerra para os domínios do humor, do ajuste de contes e da amena cavaqueira. Facto: mulheres e golfe, diz a tradição, são duas coisas que não combinam. Quando um golfista ávido sai de casa para uma ronda de 18 buracos, tudo o que deseja é que o telefone não toque nunca – e, se em algum momento se lembra de uma mulher, é porque o jogo está a correr mal.


No buraco 12, e quando os shanks e os duplos bogeys já indiciam um mau resultado, ocorre-lhe o nostálgico desejo de ver sair dos arbustos uma bela loira disposta a entretê-lo pelo resto da manhã. No buraco 16, e quando os tops, os triplos-putts e os quádruplos bogeys já provaram em definitivo que o resultado não será apenas mau, mas verdadeiramente desastroso, assalta-o a súbita necessidade de encontrar dali a pouco a sua própria mulher em casa, com um sorriso cândido e uma chávena de café quente. Em qualquer caso, trata-se de uma compensação. O que ele queria, mesmo, era estar a jogar bem – e sobretudo (pelo amor de Deus) que o telefone não tocasse nunca.

Hugh Grant, o simpático actor de filmes como “Quatro Casamentos e Um Funeral”, “Notting Hill” ou o novo “Ouviste Falar dos Morgans?”, só veio reforçá-lo, dizendo numa entrevista que está tão obcecado, tão obcecado, tão obcecado com o golfe que nem sequer consegue manter um relacionamento romântico. Faz sentido: se nós podemos desculpar-nos por não jogarmos nada em resultado dos telefonemas, das ordens, dos pedidos e das reivindicações das nossas mulheres, pois suponho que ele também possa desculpar a sua incompetência com as mulheres com o facto de estar a treinar o driving, o pitching e o putting.

Por outro lado, um olhar mais atento à sua carreira é susceptível de explicação diferente. Hugh Grant joga há uma porrada de anos e nunca passou de handicap 7. Pelo contrário, fugiu de Elizabeth Hurley, apavorou-se com Sandra Bullock, não quis tentar nada com Andie McDowell, respondeu “Deus me livre!” a quem sequer lhe falou no nome de Julia Roberts – e, pelo meio, apenas parece ter encontrado conforto quando, no banco da frente de um automóvel estacionado em Sunset Boulevard, se deixou, digamos, mimar por Divine Brown, uma prostituta grandalhona que, se nos dissessem que era o Oceano disfarçado, nós acreditávamos na mesma.

Pois é precisamente essa longa tradição que, nas últimas semanas, me fez admirar Tiger Woods ainda mais. Sim, é verdade: o escândalo sexual em que o número 1 do mundo está envolvido é uma vergonha para o próprio, para a sua família e até para o golfe. Sim, é verdade: ao deixar-se envolver neste escândalo, Tiger Woods enfrenta o maior desafio alguma vez colocado à sua declarada promessa de superar todos os recordes alguma vez estabelecidos na história desta modalidade linda e sacana. Sim, é ainda verdade: nada disto passa, no fundo, de voyeurismo nosso, de cinismo jornalístico e de puritanismo americano, uma combinação que, de resto, nunca trouxe nem trará nada de bom a este mundo.

Acontece que Tiger Woods não era apenas casado: tinha uma amante também. Perdão: duas. Perdão: três. Peço desculpa (as informações vão chegando a cada momento, o meu velho Mac já fumega por todos os poros): Tiger Woods tinha sete amantes. E, apesar de ter sete amantes e mais uma esposa (peço desculpa, acaba de cair nova informação no meu terminal: Tiger tinha, sim, dez amantes e mais uma esposa), continuou a jogar golfe como ninguém alguma vez jogou. O que, naturalmente, nos diz duas coisas. A primeira é que não são as mulheres a estragar o nosso jogo: somos nós quem, infelizmente, não sabe jogar mesmo. A segunda é que Hugh Grant é, de facto, o xoninhas que sempre pensámos que ele era.


Por mim, não vou deixar de jogar as minhas duas ou três rondas semanais. Mas aprendi a dar outra atenção ao sexo oposto – e, a partir de então, passei a manter o telefone ligado, deixando instruções em casa para me telefonarem à vontade. Se entretanto sair uma bela loira dos arbustos do buraco 12, logo se verá. Talvez me apeteça arrumar os tacos pelo resto do dia, mas o mais provável é que ainda tenha esperança de salvar o resultado com uma improvável série de birdies – e acabe por jogar a ronda até ao fim. Afinal, até que ponto é que mortais como nós querem verdadeiramente ser como Tiger Woods?


CRÓNICA DE GOLFE ("Tee Time"). Jornal do Golfe, Dezembro de 2009

Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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