Domingo, 22 de Novembro de 2009
publicado por JN em 22/11/09

Alguém disse que foi o melhor golfista a jogar em Portugal desde Henry Cotton, nos anos 1960 – e o mais provável é que haja alguma verdade nisso. Duplo campeão do US Open, Retief Goosen já ganhou em todos os continentes – e raro é o ano, desde que se tornou profissional (1990), que não ganha pelo menos um ou dois torneios. Aos 40 anos, o sul-africano passou por Portugal para jogar o seu primeiro Portugal Masters, cuja vitória disputou até ao fim. Pelo meio, sentou-se à mesa com a J para uma conversa em que defendeu o papel de John Daly na popularização do golfe, disse esperar envelhecer como Kenny Pery para poder disputar os Jogos Olímpicos de 2016 – e, sobretudo, explicou como o swing de golfe passa por drásticas mudanças desde há uns anos a esta parte.


Ganhou este ano o Transitions Championship, o seu primeiro torneio do PGA Tour em mais de quatro anos. Como foi voltar a sentir essa sensação?

Foi maravilhoso. E ainda tive outras oportunidade de ganhar.

No Canadian Open, por exemplo.

Sim. E no AT&T, e no The Tour Championship. Foi um bom ano para mim. Joguei de forma consistente. Nos últimos anos, era uma boa ronda na quinta e uma má ronda na sexta, uma boa ronda no sábado e outra má ronda no domingo...

O que se passava?

Andei a trabalhar em algumas mudanças no meu swing. Por outro lado, estava a jogar mal o putter. Melhorei bastante este ano. No fim, isso é sempre o mais importante. Basicamente, toda a gente bate bem na bola a partir do fairway.

Porque se sente na necessidade de mudar o swing? Não falta quem defenda que é o mais bonito do PGA Tour…

Tenho andado a trabalhar um bocadinho no backswing…

A encurtá-lo?

A verticalizá-lo um bocadinho mais, talvez.

Têm sido tempos complicados para os jogadores sul-africanos. Ernie Els anda com problemas de regularidade, Trevor Immelman desapareceu depois de ganhar o The Masters, Tim Clark nunca mais ganhou após o Australian Open…

Bom, o Charl Schwartzel tem estado razoável. E o Richard Sterne está menos bem este ano, mas em 2008 não esteve mal. Mas talvez tenha razão, sim: talvez, de facto, não estejamos, por esta altura, ao nosso melhor nível. A não ser talvez o James Kingston, ninguém está a jogar o golfe que pode.

O que se passa?

Bom, temos outros jovens jogadores prontos a explodir. Simplesmente é difícil arranjar um bom patrocinador – e andar no tour é caríssimo…

Certo. Mas é só coincidência ou, apesar da aparente perfeição, o swing sul-africano, de tão clássico, está a ficar um pouco desactualizado?

Bom, acho que nem sempre sentimos que o nosso swing é perfeito… (risos)

Claro. Mas olhemos para Lucas Glover, que venceu este ano o US Open. Para Ricky Barnes, que quase o ganhava. Para Jim Furyk, que teve um excelente ano. Para uma série de jogadores americanos actualmente em grande nível, aliás: não são a prova viva de que o swing clássico está um bocadinho datado?

Penso que sim. O swing de golfe tornou-se muito mais rígido e firme. O Lucas Glover é, efectivamente, um bom exemplo disso: swing compacto, pouca estética, grandes distâncias, boa precisão. Quer dizer: não tem nada a ver com o Ben Hogan, o Sam Sneed ou tantos outros jogadores do passado, cujo swing era na verdade bem mais “preguiçoso”. Penso que eu ou o Ernie estamos muito mais próximos destes, em termos de estilo. Hoje em dia, é preciso ser mais forte, mais duro, mais competitivo – no fundo, mais agressivo. Há, de facto, aspectos técnicos importantes a actualizar no nosso jogo. E penso que talvez estejamos a sofrer da falta disso, eu e outros jogadores sul-africanos.

Mas porque é que o swing mudou tanto?

Por causa da tecnologia. Antigamente as varetas eram menos rígidas, pelo que o timing era absolutamente decisivo. Hoje, as varetas são mais duras, as bolas voam mais alto – e um swing mais knock-down, mais batido, pode produzir melhores resultados. Porque, no fundo, tira melhor partido da tecnologia – e, a este nível, uma diferença subtil pode ser a diferença toda.

E o que se faz para conseguir actualizar um swing?

Cada caso há-de ser um caso, suponho. Eu tenho tendência para relaxar um bocadinho o backswing. É nisso que estou a trabalhar agora.

Divide-se actualmente entre o PGA Tour e o European Tour. Em qual prefere jogar?

Eu gosto do PGA Tour, mas prefiro jogar no European Tour. É muito mais amigável.

“Amigável”?

Sim. Os jogadores são mais íntimos uns dos outros. Ficamos nos mesmos hotéis, jantamos nos mesmos restaurantes… Na América, é cada um para o seu lado. Nunca se vê ninguém depois de sair do campo.

É uma questão de competitividade?

Não sei. A Europa também é muito competitiva e disciplinada. Se alguma vantagem o PGA Tour tem, é só a profundidade do field: há mais jogadores capazes de ganhar em cada torneio.


E, portanto, mais jogadores que não se dão bem uns com os outros – é isso?

Não. Damo-nos todos bem. Mas na América há um sentido de família muito intenso. Os jogadores viajam muito com as famílias e, portanto, praticamente não se deixam ver depois dos jogos. Tenho pena, porque gosto do convívio.

Tem uma casa em Lake Nona, na Florida – e Ernie Els, Sergio Garcia, Ian Poulter, Nick Faldo, Henrik Stenson ou Annika Sorenstam são seus vizinhos. Costumam ver-se?

Bom, na verdade, o Ernie e o Sergio já venderam as casas deles. Mas vejo muito o resto da malta. Sobretudo nas semanas antes dos majors, em que nos cruzamos todos nas áreas de treino.

Acha que a Race To Dubai alguma vez conseguirá ultrapassar – ou mesmo igualar – a FedEx Cup?

Pode ser, nunca se sabe. Na verdade, este ano foi o primeiro em que a FedEx Cup foi um verdadeiro sucesso. A Race To Dubai está mesmo a começar e já está a ser bastante interessante, com tanta disputa no topo.

Mas, em termos de prize money, subsiste uma grande diferença...

É verdade. Mas quem sabe quanto tempo esse dinheiro vai durar na América também? Vivemos momentos complicados – e ainda ninguém sabe como é que se sai daqui, tanto quanto me parece.

O facto é que, até agora, foi precisamente a Race To Dubai a sofrer mais com esta crise, vendo-se inclusive obrigada a reduzir o os seus prize funds.

Sim, e por um lado foi uma decepção. Senti desde o início que o European Tour estava a exagerar um bocadinho – e o facto é que estava. Foi um tiro no pé.

Envolveu-se numa controvérsia no ano passado, ao fim do US Open, sugerindo que Tiger Woods estaria a fingir a lesão no joelho para engrandecer a sua própria vitória. O que o levou a isso?

Isso foi um bocadinho descontextualizado. Na verdade, eu não era o único a dizê-lo – apenas foi o único a ser citado dizendo-o. O facto é que ele só parecia queixar-se quando batia maus shots, nunca quando batia bons. Mas estávamos todos enganados. Ele estava de facto lesionado.

Falou com ele mais tarde?

Falei. Escrevi-lhe, expliquei a situação – e depois ainda falei com ele pessoalmente. Está tudo bem.


São amigos? Pode dizer isso?

Somos amigos. Se nos encontramos numa club house, paramos a conversar. A questão é que ele tem sempre dez guarda-costas à volta, pelo que é difícil aproximarmo-nos.

É reconhecido como uma pessoa calma e tranquila. As pessoas ficaram um tanto surpreendidas com a dureza das suas palavras.

Depende.

Depende do quê?

Toda a gente me vê como uma pessoa calma e tranquila, mas na verdade ninguém sabe como é que eu sou com a minha família, com as minhas crianças, com os meus amigos.

Mas alguns…

Quer dizer, vêem-me em campo a fazer um putt – o que é que esperavam? Um putt bate-se tranquilamente, não?

Mas há jogadores..

Acho que é uma imagem má, percebe? Não gosto mesmo nada que me considerem tranquilo. Não sou assim, pronto. Quando estou a trabalhar, sou uma coisa. Mas dentro de mim, sou outra completamente diferente.

Há um aforismo de golfe que diz que a melhor maneira de conhecer uma pessoa é jogar 18 buracos com ela. Não é exacto, o aforismo?

Acho que é um bocadinho diferente se se trata de golfe profissional (ou de alta competição em geral) ou de golfe mais social.

Tanto quanto pode (ou quer) dizer-me, quão diferente é Retief Goosen fora dos campos?

É pessoal. Mas não sou o mesmo.

Mas produz vinho, por exemplo. É ou não um teste à paciência, produzir vinho? Plantar, esperar pela colheita, confiar que a sorte vai impedir a intempérie, esperar ainda um pouco mais – é preciso ser uma pessoa calma para fazer isso, não?

Bom, não sou eu que faço o vinho. Eu só o bebo. E muito (risos). Mas, a sério, é verdade. Em 2006, por exemplo, tivemos de vender as uvas todas a uma empresa de vinho barato. É precisa paciência. E talvez eu tenha alguma, pronto. Mas não como as pessoas pensam.


 


ENTREVISTA. J, 22 de NOVEMBRO de 2009

Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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