Sábado, 13 de Setembro de 2008
publicado por JN em 13/9/08

“Fazer.” Penso que é esse o verbo que me desliga em definitivo o cérebro sempre que me sento a uma mesa e dou por mim no meio de um colóquio sobre esse novo mecanismo de distinção social a que se chama “as viagens”. Diz um: “Ficámos uns dias em Porto de Galinhas, só para desestressar, e depois fizemos a costa toda até Salvador.” Diz outro: “Ah, mas o que eu gostava era de fazer o Sudeste Asiático: ir de Bali a Kuala Lumpur e depois dar um salto a Singapura para fazer as ruas de arranha-céus.” E volta o primeiro: “Já fiz. Agora estou a pensar fazer Vietname, Laos e Cambodja, onde as pessoas nunca viram um branco.” Resposta inevitável: “Nã… Eu gosto é de cidades. Desde que fiz Nova Iorque que nunca mais me interessei nem por florestas nem por praia.” Contra-ataque infalível: “Nova Iorque? Isso já eu fiz há muito tempo…”


É uma nova conotação para o verbo “fazer”: a de “visitar”, “percorrer”, ou mesmo “calcorrear”. E, no entanto, é ainda a sua conotação original também. Para muitos destes jovens urbanos amantes “das viagens”, na verdade, muitos lugares só existem depois da sua visita. Eles visitam um lugar e é verdadeiramente como se enfim o “fizessem”, o concretizassem – e isto independentemente dos séculos e dos milénios, das pessoas e das gerações, das tradições e das revoluções e das novas tradições que naquele lugar se sucederam ao longo da História. A ideia de que os locais “nunca viram um branco”, naturalmente, é uma espécie de cereja no topo do bolo. É por isso que os mais requintados preferem às vezes o verbo “explorar”, como se efectivamente fossem exploradores à maneira de Livingstone ou navegadores que, como Colombo ou Vasco da Gama, tivessem descoberto um Novo Mundo (ou, vá lá, o caminho aéreo para ele). Mesmo assim, não é comum: o mais normal é ouvir falar de “fazer”. E é sempre aí que eu desligo.

Neste pé anda a urbanidade e a sua ideia de evasão. Lemos uma revista de viagens e aqui vai disto: tenho de fazer a Patagónia – tirando este jornalista, nunca deve ter passado por ali um branco. Conheço uma rapariga que foi a Marraquexe, à Praia de Pipa e a Nova Iorque (sempre Nova Iorque) e que, quando me descreve uma tarde bem passada, acaba sempre com a frase: “E depois ficámos ali, a falar das minhas viagens...” Outra, que comprou um time-sharing rotativo e passa a vida de Bali para Cancún e de Cancún para Punta Cana a tirar ao marido fotografias em que raramente aparecem os pés deste mas nunca falham as paisagens e os pobrezinhos atrás, ouve-me protestar contra o excesso de trabalho e a depressão de Lisboa no Inverno e ataca de imediato: “Claro, tu não viajas…” Já pensei propor-lhe que comparássemos passaportes, mas o facto é que eu perdia: ela faz colecção de carimbos – e, aliás, faz colecção de passaportes também (vai renovar documentos e finge que perde os antigos só para poder guardá-los, cheios de carimbos, na gaveta da cómoda). Além do que ela tem razão: eu hoje em dia já não gosto de viajar – gosto de voltar aos lugares onde fui feliz (Mindelo, Parati, Saint Louis, Bergen, Prainha do Pico) e de ir-me embora prometendo voltar outra vez. Ou talvez goste de viajar – mas seguramente não de “fazer”.

Por isso me encantou, no outro dia, falar “de viagens” com a Cláudia. A Cláudia é directora financeira de uma empresa, portanto uma yuppie pura e dura – e normalmente, como se sabe, não há pior viajante do que um yuppie, insaciável e violento, libertando o stress num estertor de fúria até partir uma perna a fazer esqui numa pista preta, ser internado em Banguecoque com uma overdose de ópio ou voltar para casa numa caixa de alumínio após um acidente de alpinismo nos Himalaias. Mas a Cláudia é especial. Nasceu numa terra pequena, que nunca renegou – e, aliás, percebe que há mais muito mais mundo do aquele que alguma vez conseguirá sequer saber que existe. Nunca à minha frente, e em tratando-se “de viagens”, utilizou o verbo “fazer”. Diz ela que, sempre que visita um novo lugar, a sua maior preocupação é aprender uma receita local. O pai é cozinheiro de restaurante – e, quando Cláudia regressa a casa, esforça-se por reconstituir o prato escolhido, de forma a que o pai possa viajar com ela.

É isso: o que eu quero da minha próxima viagem é que o meu pai viaje comigo. Não dá para meter estilo durante um gin tónico em frente ao Tejo, mas ao menos não vou com a obrigação de “fazer” nada. Sinceramente: a última coisa que eu quero, em férias, é fazer o que quer que seja.


CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 13 de Setembro de 2008

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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