Sábado, 31 de Outubro de 2009
publicado por JN em 31/10/09

O que é trágico não é propriamente o debate gerado em torno de Caim. O que é trágico é que, desde 1991-92, período ao longo do qual José Saramago publicou O Evangelho Segundo Jesus Cristo e Sousa Lara, tonto, o vetou como candidato nacional ao Prémio Literário Europeu, a literatura portuguesa não tenha produzido mais um só debate digno desse nome – e que quando, sem outra coisa que dizer, Saramago experimenta repetir que “Deus não é de fiar” ou “a Bíblia é um manual de maus costumes”, desate toda a gente aos berros, como se nunca o tivesse ouvido antes.


Já o ouviu. Bem vistas as coisas, José Saramago não diz nem escreve nada, hoje, que não tenha já escrito em 1991: que Deus é a própria origem do Mal. E, se reagimos com tal energia à simples reapresentação, quase vinte anos depois, dessa mesma ideia, é porque andámos demasiado tempo a discutir se Margarida Rebelo Pinto tem direito a gastar o nosso oxigénio comum ou se Vasco Pulido Valente deve, na idade em que está, persistir em sujeitar-se anualmente ao bungee jumping emocional que é, para ele, ler um livro de Miguel Sousa Tavares.

José Saramago é, provavelmente (não, não os li a todos), o maior narrador português dos últimos 50 anos. Ofereceu-nos páginas sublimes em Memorial do Convento, em O Ano da Morte de Ricardo Reis, em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, em Ensaio Sobre a Cegueira – e, se um dia tivesse sido posto a referendo que escritor da sua geração deveríamos canonizar primeiro, eu próprio teria votado nele. Por outro lado, e como qualquer outro criador que se preze, tem uma série de obras precoces em que está sobretudo à procura de uma voz e outras tantas serôdias em que mergulha na procura de uma nova, porque entretanto a antiga se esgotou.

Na verdade, todos os seus romances desde Todos Os Nomes (a estes, sim, li-os todos) são um pouco isto: a procura de algum tipo de nova perspectiva sobre a condição humana e o mundo que essa condição impõe (e, nesse aspecto, um fracasso). Por outro lado, são também a constituição de um extenso e diversificado catálogo de soluções narrativas, à maneira de Ravel, em torno da escravidão do homem pela mais brilhante das suas criações: o próprio Deus (e, nesse sentido, um êxito). Talvez se possa dizer que merecíamos um Nobel melhor, não sei. Mas uma coisa que se pode dizer de certeza é que o Nobel português merecia melhores portugueses.

Entretanto, faz o que pode com aquilo que tem. E o que fez, nas entrevistas dadas a propósito deste Caim, foi mostrar que ainda nos conhece como ninguém – que ainda sabe onde estão os nossos interruptores consumistas e o que é preciso fazer para accioná-los. Tenho pena que, quanto a mais um livro, não se tenha ainda dedicado à exegese, por exemplo, do Corão, neste momento um livro com um potencial fratricida muito superior ao do Velho Testamento. Mas aceito que esteja refém da sua fé: essa imensa fé dos cristãos ateus – não dos cristãos agnósticos, que não acreditam (nem deixam de acreditar) em nada, mas dos cristãos ateus mesmo: aqueles que acreditam com todas as suas forças na inexistência de um Deus único, castigador e bondoso, egoísta e magnânime.

Por outro lado, há uma coisa que ficamos a dever-lhe: ter-nos ajudado a recordar, numa altura em que a Sociedade Bíblia de Portugal se empenha na divulgação da nova Bíblia Para Todos, que a Bíblia Sagrada não é apenas a saga de um povo, mas também o que séculos e séculos de exegeses oficiais (incluindo as várias cristãs e, até, as das restantes religiões monoteístas) fizeram dela. Impotente perante a miríade de conjugações entre o que deve ser lido literalmente e o que deve ser entendido de forma simbólica, a Bíblia permaneceu sobretudo aquilo que diz a sua letra, entretanto quase sempre usada para proibir e castigar, muito mais do que para permitir e premiar – e Caim é um importante contraponto a este novo exercício, ao mesmo tempo lírico e historicista, de transformá-la num romance de aventuras.

Eu, felizmente, não preciso dele. Mais: como Saramago, professo com paixão o ateísmo – no fundo, penso demasiadas vezes nestas coisas para me deixar entusiasmas por dois ou três aforismos heréticos a pretexto do lançamento de um novo livro. De forma que, esgotado o assunto, emprateleirei com gosto o Caim e o Abel – e regressei depressa ao Chandler, agora que as Edições Contraponto o vão resgatando a essa saudosa mas decrépita Colecção Vampiro. Eu queria mesmo era ser Philip Marlowe. Philip Marlowe não pretende salvar a Humanidade – e às vezes há um grande romantismo nisso.


CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 31 de Outubro de 2009

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3 comentários:
De Manuel da Silva Carvalho a 1 de Novembro de 2009 às 01:00
Todos os meios de de comunicação puxaram para as suas primeiras páginas a polémica relativa às afirmações de José Saramago, Nobel da literatura, por ocasião da apresentação do seu último livro, “Caim”. Ateado o fogo da discórdia, cada um foi deitando mais gasolina sobre as opiniões de Saramago relativas à Bíblia, Deus ou o próprio Papa. De muitos lados, alguns dos apressados críticos ou até políticos lançaram as suas farpas que roçaram um pouco o ridículo e evidenciaram o seu fundamentalismo.

Até parece que apenas se salvou a enorme publicidade a mais uma obra do nosso Nobel. De notar que estamos no campo de um mistério praticamente insolúvel que cada um tenta resolver à sua maneira e segundo a sua sensibilidade e cultura. Saramago, em "Caim" como já no "Evangelho segundo Jesus Cristo", faz uma reescrição de algumas cenas bíblicas, acabando por tocar num espaço teológico que enerva alguns estudiosos do assunto, acusando o autor de ser demasiado literalista, sem contextualizar as narrativas bíblicas. Mas se vermos bem a história do cristianismo também não tem sido uniforme na apresentação da imagem que tem sido colada a Cristo, Deus - Homem. Tem havido uma infinidade de leituras e vivências segundo a mentalidade de cada época histórica, desde a Idade Média, passando pela Renascença até aos nossos dias.

Temos mais uma obra do nosso Nobel repleta de um fino humor e grande imaginação, com uma narrativa fluente e ágil. Outra coisa distinta é o já bem conhecido feitio implacável e iconoclasta da pessoa de José Saramago, bem como a sua ideologia embebida no racionalismo positivista e no materialismo marxista, já um pouco fora de moda .

Já não é de hoje nem de ontem que Saramago anda de candeias às avessas com os católicos convictos e a Igreja em especial. Mas, ainda bem como diz Saramago, já não há fogueiras em S. Domingos, mas tem algum sofrimento quem ousar abalar os alicerces das hostes estabelecidas!
De JORGE ESPINHA a 3 de Novembro de 2009 às 20:07
caro joel

Para grande pena da minha mãe sou ateu e para grande pena dos meus amigos sou de direita. Se o Ateismo me aproxima de saramago já a minha alma liberal me afasta inexoravelmente da criatura. Mais uma vez o velho mestre dá um excelente golpe publicitário, e em vez dos católicos inteligentes o deixarem sozinho a dizer asneiras , caem amis uma vez na esparrela . Mais uma vez se fica com a ideia que grande parte dos portugueses não sabe o que é liberdade de expressão e o que é viver em democracia. Já o tinhamos visto no caso das caricaturas de Maomé (e por parte de Saramago também). Liberdade de expressão , é entre outros direitos o direito à blasfémia(conceito referido por Saramgo aquando da polémica Sousa Lara) e até o direito ao insulto. Este conceito de liberdade de expressão passa completamente acima das cabeças dos portugueses. Em Portugal o respeitinho é muito bonito. O que me chateia em Saramago , é que ele faz uso duma liberdade que considera burguesa e decadente , uma liberdade que negaria a grande parte dos portugueses , uma liberdade que desprezou durante o PREC. Saramago acaba por ser um ateu crédulo pois acredita no maior logro do século XX, e por isso também não lhe confiro autoridade moral para desmontar a fé na Biblía . É como se um cocaninomano fizesse pouco dos alcoólicos.
De Ricardo a 6 de Novembro de 2009 às 16:34
"O maior narrador português dos últimos 50 anos"? Então e o Mário de Carvalho e o José Cardoso Pires?

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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