Sábado, 10 de Maio de 2008
publicado por JN em 10/5/08

O que é que transforma aquelas quatro raparigas do anúncio da Dove nas raparigas mais sensuais e apetecíveis de toda a publicidade que se espalha estes dias pelas nossas ruas, pelos nossos televisores, pelos nossos jornais? Naturalmente, os seus defeitos. “Bronzeado perfeito”, propõe o slogan. E, no entanto, nem o bronzeado. As raparigas, lindas, têm sorrisos um nadinha tortos, abdómenes um nadinha musculados de mais ou de menos, medidas um nadinha grandes ou um nadinha pequenas, bronzeados um nadinha intensos ou um nadinha pintalgados. E esse nadinha é tudo. O defeito é uma porta que uma mulher nos abre no coração. É o defeito que a transforma na vizinha do lado, na rapariga que cobiçámos no liceu, na mulher com quem casámos e que carregou o nosso filho no ventre. Nós nunca amaremos outra mulher como aquela que carregou o nosso filho no ventre. E, a não ser quando nos deixamos toldar por toda esta canseira, por toda esta mentira e por todo este imposto, nenhuma outra alguma vez será tão desejável como ela.

Tenho há uma eternidade, no cadernos de notas, uma lista com as minhas estrelas de cinema preferidas. Houve um tempo em que, nas redacções, fui conhecido por isso – por chegar ao trabalho com uma revista estrangeira na mão e gritar: “Descobri uma rapariga incrível, esta, sim, a mulher mais gira do mundo!” O que eu queria era folia: chegar à redacção e gritar “Natascha McElhone!” ou “Amy Brenneman!” ou “Kirsten Stewart!” – e depois ver a malta um bocado atarantada, do tipo “Mas quem é essa Amy Brenneman, agora?”, permitindo-me depois suspirar “Estás out, mano, estás out…” Brincadeira. As mulheres mais bonitas do cinema serão talvez Charlize Theron, Halle Berry, Kate Beckinsale, Keira Nightley, Aishwaria Rai. Mulheres? Não: bonecos apenas, ícones sem tangibilidade – meninas de calendário e mais nada. Se é de sensualidade que falamos, devíamos muito mais provavelmente referir Kate Winslet e os seus cinco quilos a mais, Marisa Tomei e a sua cara demasiado grande, Diane Lane e a sua testa enrugada, Kristin Scott Thomas e o seu ar levemente arrapazado, Tea Leoni e o seu rosto de sombras que chega a sugerir um nadinha de buço.

Um nadinha, insisto. Porque da leve sugestão de buço de Tea Leoni aos 80 quilos de Chloe Marshall, a jovem de Guildford que já conseguiu levar as suas dobras Michelin à vitória no concurso Miss Surrey e pretende agora repetir o êxito no concurso Miss Inglaterra, vai uma certa distância. Chloe também é sexy? Eventualmente. Acontece que ela não tem um defeito: ela é um camião deles. Não é uma mulher linda com uma deformidade a servir-nos de porta de entrada: é um portão que se abre sobre uma coisa diferente. Não é sequer um exercício sobre a beleza: é um manifesto sobre a liberdade. A liberdade de comer como se não houvesse amanhã, a liberdade de esfolar os joelhos a andar de trotinete com os rapazes na rua, a liberdade de abusar no pó-de-arroz à vontade e, apesar de tudo, calçar uns sapatos altos e posar para uma revista. Nada mais nobre: a liberdade é o que mais me importa desde sempre. Mas sensualidade é outra coisa. Os defeitos também podem ser absolutamente perfeitos. Chloe Marshall não é a vizinha do lado nem a rapariga por quem nos apaixonámos no liceu. É uma mulher de cartaz, uma menina de calendário. É plástico também, muito mais do que mulher.

Era disto que eu gostava de falar às funcionárias do Hospital de São João, no Porto. Desafiadas pelos anúncios da televisão tanto quanto pelos próprios médicos, determinados estes a não perder o dinheiro já destinado pela Segurança Social a uma série de operações, as funcionárias do Hospital de São João desataram a aproveitar as faltas de comparência de pacientes com cirurgias marcadas para tratarem as mamas, aumentando-as, arredondando-as, polindo-lhes os defeitos. Com isso, vão fechar a porta que haviam aberto no coração dos seus homens. Talvez julguem que as abrem nos corações de outros – mas o facto é que esses não as amarão nunca como àquelas que carregaram o seus filhos no ventre. Se não, vamos a ver: gostam do Cristiano Ronaldo? Também gostavam todas de tirar um pedaço ao rapaz? Pois saibam que, se Ronaldo não casar com Nereida Gallardo, a rapariga que a imprensa portuguesa tão pormenorizadamente nos apresentou ao longo da semana passada, é porque estava sobretudo apaixonado pelas suas mamas perfeitas. Se casar, é porque gostou sobretudo das suas coxas com celulite. Mal posso esperar pelas revistas da próxima semana.


CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 10 de Maio de 2008

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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