Sábado, 24 de Outubro de 2009
publicado por JN em 24/10/09

Sou um homem de sorte: todas as semanas recebo emails de leitores, uns furiosos e outros exultantes com aquilo que escrevi. Os furiosos costumam ser em maior número, mas penso que isso é normal: nós somos quase sempre mais enfáticos quando estamos contra – e há que reconhecer que, para alguém se dar ao trabalho de ligar um computador e articular um texto em defesa de determinada posição, ainda por cima sabendo que em princípio ele só será lido por uma pessoa, é precisa uma dose de perplexidade que não é fácil provocar através de uma simples crónica. De forma que raramente faço mais do que agradecer penhorado o esforço, a atenção e (de alguma forma) o carinho dos leitores. Basicamente, já tive a minha oportunidade, de resto em espaço nobre – agora devo sujeitar-me ao contraditório, seja ele qual for. Pain in the ass que se preze tem de saber aguentar-se à bronca.


Há duas semanas, porém, que sou inundado de emails, de comentários no meu site, de textos na blogosfera e de piscadelas de olho nas redes sociais sobre um mesmo tema – e desta vez vou abrir uma excepção para comentar o frenesi. Não tanto pelos números (e estou a falar de muitas centenas de intervenções), mas por causa de um aspecto em particular no tom delas. O tema é o vegetarianismo, a propósito do qual publiquei aqui, há quinze dias, uma prosa cuja inflamação pouca gente esperava. E o tom de que falo, naturalmente, não tem nada a ver com as obscenidades ou mesmo as ameaças físicas incluídas em tantos emails (tenho muitos anos disto, já nem ligo). O tom de que falo, na verdade, é ainda mais sintomático do que esse nível epidérmico da indignação – e sintetiza-se bem, penso eu, em frases como esta de Mateus Mendes, fundador do Centro Vegetariano: “Inaceitável é que tente o autor atingir os vegetarianos, que tipicamente são pessoas com preocupações ecológicas e éticas acima da média.”

É verdade: houve, ao longo destas semanas, outros momentos interessantes. Por exemplo: ninguém, apesar da tão óbvia piadinha à taróloga Maya, parece ter percebido a ironia sobre o suposto facto de 40% dos portugueses serem vegetarianos. Mais: o número de pessoas que começaram o respectivo email pelo seu CV, sublinhando tanto a carreira académica como a profissão (“eu sou engenheiro”, “eu sou médico”, “eu sou arquitecto”), é pouco menos do que impressionante. Mais ainda: recebi dezenas de emails de Inglaterra e do Brasil, onde os vegetarianos portugueses têm muitos amigos, alguns deles com conta no Orkut e tudo. Num chamaram-me “canibalzinho devorador de cadáveres”, piropo que achei amoroso; noutros diziam-me que eu escrevo mal, pois “à muita gente” (sic) que escreve melhor do que eu – e noutros ainda lembraram-me que o australopithecus e o pithecanthropus eram sobretudo recolectores, desafiando a Humanidade a “evoluir” (sic também) em direcção aos hábitos alimentares deles.

O tom, esse, foi quase sempre o mesmo: os vegetarianos são “superiores”. Ética e filosoficamente superiores, mesmo que obcecados com análises clínicas – e, agora que um canibal ignorante os havia insultado a todos, tocara a reunir para a batalha. Pois fico satisfeito por ter-lhes dado a oportunidade de partirem finalmente em campanha militar, dando uso às armas que já ameaçavam enferrujar. Por outro lado, torno a lamentar que tenhamos assassinado Deus, acabando reféns de mais religiões ainda (e oportunistas, todas elas, quanto a esta nossa urgência primária de espiritualidade). Mas, em vez de voltar a acusar os cavaleiros das boas intenções de serem às vezes piores do que os das más, decidi deixar-me persuadir um bocadinho – e, até, juntar-me à causa. Não prometo tornar-me lactovegetariano, pois gosto muito de ovos. Também não prometo tornar-me ovovegetariano, porque quem me tira o galão de máquina tira-me tudo – e, aliás, não vou comprometer-me a ser ovolactovegetariano também, porque de repente ainda me dá saudades de um half rack com molho agridoce. Mas, se me aceitarem, estou disposto a virar, vá lá, ovolactoentrecostovegetariano.

Assim como assim, não quero ser inimigo de ninguém – e, de resto, não acredito que, para ser vegetariano, eu tenha de rever-me nas “preocupações éticas acima da média” daquele senhor cujo nome não posso dizer aqui, se não o meu email entope de vez (mas que, enfim, acreditava no contributo do vegetarianismo para a “regeração espiritual” da Europa e veio, entretanto, a provocar uma guerra mundial). Só tenho pena, claro, que esse seja apenas mais um exemplo de como não basta ser vegetariano para ganhar um lugar no céu.


CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 24 de Outubro de 2009

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5 comentários:
De Maria a 25 de Outubro de 2009 às 09:30
entao,uma no cravo e outra na ferradura.mudo,nao mudo.deixa por um pouco de agua nesta fervura.valeu a tentativa?conseguiu conciliar-se com os retornos externos e talvez internos?...já é um primeiro passo.siga os passos.os restantes passos.se realmente depois dos tais milhares de e-mails,vindos das mais longinquas distancias,com mensagens elucidativas e de informacao gratuita,ainda continua focado,nas analises clinicas e no homenzinho que nao diz o nome.entao meu caro amigo a questao é mais grave e nao está no vegetarianismo.isso já é um problema muito mais profundo.porque essas,sao realmente duas coisas que a nós vegetarianos,nao nos causam problemas de sono.olhando para o futuro,actuando no presente,e de qualquer parte do mundo.se realmente o assustam as analises,talvez esteja mesmo a precisar de mudar a sua alimentacao.aconselhe-se.vá ao médico.afinal diz o povo deste rectangulo de tontos(e a piada dos cadaveres saiu mesmo daqui),diz o povo dizia eu, que somos o que comemos.ora para um homem nascido em 74,olhando para a foto e sem ver a barriga porque nao se apresenta só com uma folha de couve,realmente voce joel ,parece mais velho. se lhe apetecer mude. e nao tem que ser aceite por ninguem.nem tem que anunciar a ninguem.só tem que optar quando vai ao supermercado.e digo-lhe outracoisa...talvez tambem tenha que ter cuidado com os molhinhos que anda a comer.esses de certeza que nao sao convenientes.nao se sabe bem o que está lá dentro.quanto ao famoso.centenas de nomes que saltam á ideia e que até foram postados por si, e voce continua obcessivo.com um unico.um só famoso.porque será?entretanto vou-lhe lembrar o que já sabe.só se está a enganar a si mesmo.se nao tiver cafe no tal galao,nao consegue beber o leite.é nogento.enjoativo.foi fabricado para vitelos.tem que se por chocolate para os putos e cafe para os adultos.para disfarcar o cheiro da teta da vaca.(vá.percebo a sua vulnerabilidade,mas nao vou agora dizer que as vacas tem seios,ou peitinho nao?.mama e teta sao palavras estritamente aceites nos organismos decisivos),e os quimicos que a vaca comeu para dar muuuito leite para os mamoes dos seres humanos.voce nao mamou na sua mae quando era bébé?(nao vá agora ofender-se com a pegunta.eu mamei e dei de mamar),digo isto porque uma vez que se refere a Deus com o mesmo á vontade que se refere ao Ricardo,acha entao o joel que Deus nao concebeu todos os seres em exauta perfeicao?será este,outro desafio para si? já que duvido do vegetarianismo vou por em duvida a palavra e accao divina.de Deus.ousado.acredita entao que Deus nos fez eternamente vacolacto-dependentes,para usar o seu tipo de piadas??eheh,joel :)voce acaba por ser engracado.pelo menos para quem ve e le um pouco mais.só um pouco.mas mais. luz.
De belinha a 25 de Outubro de 2009 às 10:33
"obscenidades ou mesmo as ameaças físicas incluídas em tantos emails"Inacreditável, Joel!!Acho que não é preciso ir por aí para discordar,eu discordo de muita coisa e não costumo ameaçar ninguém nem chamar nomes-também já discordei de si,eehehhe,é natural ter opinião distinta.Mas acabou de me dar uma ideia,acho que vou escrever também sobre os verdinhos a ver se aumento o tráfico!Isto já parece mesmo uma nova religião, ou clube de futebol ou partido político,únicos campos em que se observam discussões inflamadas por estes dias!A maior parte das pessoas come em excesso e isso é que é o grande problema.A quantidade de nutrientes e calorias necessárias para um organismo viver são mínimas,isso é que as pessoas deviam perceber.Eu como de tudo e não sou gorda apesar de quase não praticar actividade física,o que vai dar cabo de mim, mais tarde ou mais cedo.Há alimentos saturados que não devem ser abusados.Mas não precisamos de os eliminar.É só dosear.Minha modesta opinião.A problemática do leite de vaca é tremenda,já me tentaram uma vez abrir os olhos, e,de facto,eu mudaria para leite de soja, mas é muito mais caro.De facto somos o único mamífero que continua a beber leite depois de crescer.Mas o que me preocupa são os adititivos e eles estão em tudo,já não conseguimos escapar a não ser que tenhamos a nossa quinta.Eu também sou como o Joel,sou do clube do galão de máquina, e pela manhã se não há café com leite e pão,não sei começar o dia.Sou anti-cereais,por vezes provei alguns e nem acreditava que autênticos doces estivessem a ser consumidos diariamente pelo miudos-crescem habituados ao açucar.Bom senso é que é preciso,mais nada, e cada um deve escolher o que achar melhor para si.
De Susana Gaspar Gardete a 25 de Outubro de 2009 às 18:22
Se calhar foi precisamente o facto de ALGUNS vegetarianos (está bem MUITOS vegetarianos) se julgarem eticamente acima da média, aquilo que me afastou da causa. É que nunca gostei disso...
Assim como acho que devem ser deixados em paz com o seu tofuzinho se não estão a chatear ninguém.
Entre os vegetarianos também há sempre muitas polémicas. Confessem lá.
-Tu comes peixe por isso não és eticamenteacimadamédia.
-Eu sou mais eticamenteacimadamedia do que tu porque eu já deixei os ovos.
-Atenção que ainda não largaste o leite por isso ainda não és um verdadeiro eticamenteacimadamédia.
- Mas quem és tu para falar de eticamenteacimadamédia com essas botinhas de pele de vaca!??

Eu não sei... Continuo a preferir deixar os outros em paz e esperar que façam o mesmo em relação a mim. Até porque não me preocupo que me vejam eticamenteabaixodamédia.

aquelabraço, Joel
De Manuel da Silva Carvalho a 25 de Outubro de 2009 às 23:37
Tocou-se, ao de leve e de uma maneira irónica e até sarcástica, no "Caim" do vegetalismo (actualmente, veganismo) e cai o Carmo e a Trindade empurrados pelos fundamentalistas defensores, a qualquer custo, da sua vaca sagrada.

Para compor o ramalhete só falta a sugestão de um qualquer Mário David verdinho para que o cronista renuncie ao seu açorianismo...
De Nuno Metello a 26 de Outubro de 2009 às 02:17
Olá Joel,
Considero realmente lamentável que tenha recebido mensagens com amaças físicas e obscenidades em consequência da crónica que escreveu. Da mesma forma lamento o conteúdo da dita crónica, em que, com tom provocatório ridicularizou o vegetarianismo, classificando essa prática de idiotice e tontice. Era um texto de teor humorístico, compreendo, mas ainda assim deveria ter investigado um pouco mais sobre o assunto; e penso que o humor não deve distorcer e deturpar tanto a realidade, especialmente quando o assunto é de tão grande importância. Estou certo de que terá pesquisado mais antes de escrever esta segunda crónica.
Há no entanto alguns pontos que devo referir:
Existem mais motivos para nos consideramos naturalmente vegetarianos do que para acreditarmos que o nosso corpo está preparado para uma alimentação que inclua carne (http://www.goveg.com/naturalhumandiet.asp; Milton Mills, M.D., The Comparative Anatomy of Eating). Seja como for, o facto é que a experiência tem provado, através do exemplo de milhares de vegetarianos que vivem com óptima saúde, geralmente ultrapassando os omnívoros em longevidade, que é perfeitamente possível e até preferível sustentarmo-nos num regime que não contenha carne, que é, devemos acrescentar, apropriado para todas as fases da vida e que ajuda a prevenir e tratar determinadas doenças (cancro, obesidade, diabetes, colesterol alto, etc.). Os vegetarianos sobrevivem sem suplementos, aliás inventados por omnívoros para omnívoros. Ironicamente, quase todos os alimentos omnívoros, desde o leite até à ração dos animais para consumo, não contêm apenas suplementos mas também drogas, antibióticos e hormonas. (É incrível como a publicidade convenceu a população de que os humanos necessitam de leite de um animal de outra espécie durante toda a vida para terem o cálcio suficiente! Alguma literatura interessante: Robert Cohen, Milk: The Deadly Poison; Dr. Frank A. Oski, Don't Drink Your Milk!: New Frightening Medical Facts About the World's Most Overrated Nutrient; Dr. T Colin Campbell, The China Study: The Most Comprehensive Study of Nutrition Ever Conducted).
Interrogo-me frequentemente porquê que os omnívoros são tão obcecados em citar Hitler (que comia salsichas, aves, caviar, fiambre, etc., e que oprimiu os vegetarianos do seu país quando chegou ao poder), esquecendo-se de tantos vegetarianos históricos como Pitágoras, Empédocles, Plutarco, Porfírio, Leonardo da Vinci, David Hartley, Percy Shelley, Bronson Alcott, Tolstoi, Reclus, Shaw, John Kellogg, Gandhi, Kafka, Nijinski, Isaac Bashevis Singer, etc.
O consumo de carne de Hitler e dos nazis está bem documentado (Rynn Berry, Hitler: Neither Vegetarian nor animal lover; Charles Patterson, Eternal Tremblika). Mas mesmo que Hitler tivesse sido vegetariano, isso em nada invalidaria o vegetarianismo, nem tornaria o consumo de carne mais ético, ecológico e saudável. Pessoas boas podem defender ideias erradas e o contrário também sucede. As ideias valem por si. A falácia Reductio ad Hitlerum nada veio a acrescentar ao debate.
Ninguém ganha um lugar no céu por ser vegetariano, é claro, mas temos que admitir que o vegetarianismo é extremamente benéfico para todos (http://www.goveg.com/theissues.asp). O consumo de carne causa desperdício de recursos; destruição da biodiversidade; poluição das águas e do ar; desflorestação, etc. A criação de gado contribui mais para o efeito de estufa do que todos os transportes do mundo combinados (H. Steinfeld et al., Livestock’s Long Shadow, 2006). Na verdade, em termos ecológicos é muito mais eficaz optar por uma dieta vegetariana do que comprar um carro mais amigo do ambiente (NewScientist.com, "It's Better to Green Your Diet Than Your Car," 17 Dec. 2005). A propósito aconselho a visualização do filme Meat the Truth, disponível no Youtube.
E se fossemos todos vegetarianos, os animais não se extinguiriam – há muitos outros que o Homem não come e que continuam a existir -, progressivamente voltariam ao seu número normal sem prejuízo para a humanidade.
Sei que é difícil abandonar hábitos herdados, por mais que esses hábitos sejam destrutivos para o planeta, e sempre considerei qualquer passo importante. Reduzir já é muito bom. Por isso fico feliz pela sua iniciativa.
Cumprimentos.

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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