Domingo, 18 de Outubro de 2009
publicado por JN em 18/10/09

“É a quinta vez que jogo. Nos momentos livres, o golfe ajuda muito”, disse quarta-feira Nelson Évora, um dos campeões olímpicos convidados a assistir ao lançamento do Portugal Masters – e desde então essa frase anda a martelar-me na cabeça. Se ele tivesse tido o mínimo de má intenção, a pergunta que eu lhe colocaria era: “O que pensaria você, Nelson, se Filipe Lima lhe dissesse que já tinha saltado cinco vezes – e que, nos momentos livres, o triplo salto o ajudava muito?” Como sei que não teve, vou apenas tentar mostrar-lhe por é que, parecendo inofensiva, a sua frase é perigosa.


Nascido há mais de 250 anos, o golfe viveu dois séculos sob uma série de sucessivos anátemas. Começou por ser um jogo da plebe que a aristocracia pretendia proibir, de forma a impedir o desperdício da força de trabalho; passou a ser um jogo da aristocracia que muito agradaria a boa parte da plebe exterminar, de forma a vingar a sua subalternidade; e, entretanto, foi muito tempo também um jogo em que os gordos, os fumadores e até os preguiçosos podiam vencer. Hoje, não é bem assim. Ainda tem gordos, mas no basquetebol também os há muitos; ainda tem fumadores, mas no futebol também os há imensos – e, se tem preguiçosos, pois todas as modalidades os têm.

De resto, é um desporto a viver um dos melhores momentos de sempre, com cada vez menos espartilhos classistas. Por causa da sua meritocracia, mas também porque os grandes jogadores são cada vez mais verdadeiras máquinas, em resultado do treino físico e da exigência atlética a que são submetidos. E é (também) por isso que o golfe acaba de ser aceite de novo como modalidade olímpica: porque, para praticá-lo bem, já não basta chegar “mais alto” e ir “mais longe” – é preciso ser “mais forte” também. Ainda no outro dia Retief Goosen o dizia, explicando a actual inconstância dos jogadores sul-africanos: “O swing clássico já não chega. Temos de endurecê-lo. E é nisso que tenho vindo a trabalhar.” Já não basta ter técnica, pois: é precisa energia e é precisa tensão.

Ao dizer que “nos momentos livres, o golfe ajuda muito”, Nelson Évora vai de encontro àquilo que muitos amadores tiram do golfe: prazer e evasão. Mas está também, como faz tanta gente, a reduzi-lo a isso: a um passatempo saudável. E muito me agradaria se, treinando um pouquinho mais de cinco vezes ao longo dos próximos doze meses, ele pudesse juntar-se a nós no Pro-Press de 2010. Tenho a certeza de que perceberia, enfim, a extrema competitividade deste jogo maravilhoso.


ESPECIAL III PORTUGAL MASTERS. O Jogo, 18 de Outubro de 2009

Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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