Domingo, 18 de Outubro de 2009
publicado por JN em 18/10/09

E, pronto, está feita a festa. O golfe conseguiu fazer-se aprovar para o programa olímpico de 2016 e 2020 – e há uma semana que o vem celebrando um pouco por todo o lado, quer através dos dirigentes e atletas que se envolveram pessoalmente na persuasão do Comité Olímpico Internacional (COI), quer através daqueles que, não tendo dispendido um segundo numa causa que julgavam perdida, se apaixonaram por ela assim que a viram concretizada. Mesmo os opositores da ideia (como Darren Clarke, Trevor Immelman, Davis Love III, Ian Poulter ou Geoff Ogilvy) abriram alas, ao longo destes dias, para os festejos – é, no fundo, toda uma modalidade em lua de mel com a transversalidade que começa a conseguir sem, com isso, abdicar da dimensão que já antes atingira. Entretanto, porém, chegou a altura de perguntar: e agora? O que é preciso fazer até ao Rio’16?


É preciso tomar uma série de decisões: decisões que passam pela escolha do campo que receberá o torneio olímpico, do modelo de qualificação dos jogadores e do formato das diferentes competições previstas. Mas não só. A própria modalidade, reconhecem todos, precisa de preparar-se para uma participação condigna nos Jogo Olímpicos (tão consigna, aliás, que lhe permita “prolongar o contrato” na reavaliação marcada para 2017). E isso não passa só por uma aturada negociação com os patrocinadores da FedEx Cup, da Race To Dubai e da Ryder Cup, destinada à libertação de um fim-de-semana para o torneio olímpico ao longo do verão de 2016, ano já coberto por muitos dos contratos. Passa também pela aproximação do jogo ao ideal olímpico (ou vice-versa, as opiniões dividem-se).

Neste momento, e à medida que a poeira vai assentando, as posições dividem-se (e extremam-se) entre a daqueles que acham que o golfe (com a sua etiqueta e a sua ausência de doping) é “bom de mais para os Jogos Olímpicos”, onde, a pretexto de um certo idealismo e de uma certa gratuitidade, várias modalidades (como o atletismo, mas não só) vão abrir caminho para quatro anos de facturação em grande; e a daqueles que temem que, bem vistas as coisas, a primeira sinal de alarme entre os golfistas, durante o desfile de abertura da competição, será um desvio de John Daly até ao topo do estádio, no intuito de acender um cigarro Marlboro na chama olímpica.

“Eu acho que há muitas coisas a mudar. E uma delas é a imagem do jogo”, disse Tim Finchen, Comissário da PGA e um dos homens por detrás da candidatura da modalidade, chefiada por Ty Votaw. “Pois esse é que é o problema. O golfe é demasiado puro para os Jogos Olímpicos. Não o mudem. Que se lixe o COI”, responderam de imediato editorialistas e entusiastas de todo o mundo, por estar ou por outras palavras.

Na mente de muitos está um investimento agora ainda mais claro na divulgação (e abertura) da modalidade entre (e às) classes média e média-baixa dos países ocidentais, assim como entre (e a) todos os extractos sociais dos mais de 80 países onde ela não existe (ou praticamente não existe). Outros tantos, porém, temem que, não contentes com a abertura de novos mercados para o golfe, para o turismo de golfe e para o equipamento de golfe, as autoridades que superintendem o jogo ainda se empenhem em “liofilizá-lo”, por exemplo proibindo em definitivo o tabaco, punindo exemplarmente o mínimo excesso de comportamento ou mesmo fazendo agora marcha-atrás no reforço do código de indumentária do jogo (e passando a permitir, por exemplo, que se jogue de t-shirt ou calções, para citar apenas os dois exemplos menos radicais).

Entretanto, porém, há outros problemas a resolver. O formato da competição, embora não esteja ainda fechado, não deverá ser alvo de grande debate: tanto homens como mulheres deverão jogar um torneio de 72 buracos ao longo de quatro dias, provavelmente sem cut. Mas a dimensão do field e a forma de acesso a ele já não deverão ser tão consensuais. Segundo a intenção declarada pela Federação Internacional de Golfe junto do Comité Olímpico, deveriam estar presentes 60 jogadores em cada uma das competições (masculina e feminina), com uma qualificação incluindo os 15 primeiros de cada ranking mundial (independentemente das nacionalidades), mais os restantes primeiros 45 classificados que não violassem a regra do limite máximo de dois jogadores por país. E, de acordo com as contas feitas por uma série de publicações especializadas, esse formato deixaria de fora, caso os Jogos se realizassem hoje, jogadores como Anthony Kim, Sean O’Hair, Ian Poulter ou Rory McIlroy, para citar apenas alguns exemplos.

De resto, será preciso negociar datas. Não as datas das Olimpíadas, que obviamente será o COI a fixar, mas as datas de tudo o resto em (para já) 2016 e 2020: torneios regulares do PGA Tour e do European Tour (entre outros circuitos), três majors (todo o Grande Slam, menos o The Masters, é disputado no Verão), quatro playoffs da FedEx Cup e ainda a Ryder Cup (visto tratar-se de anos pares), para citar apenas as principais competições. Muitos dos actuais contratos de patrocínio e transmissões televisivas já entram por essas datas dentro, exigindo uma renegociação hábil com entidades bancárias, marcas de automóveis e estações de televisão, entre outras.

Felizmente para as pretensões da Federação Internacional de Golfe, a esmagadora maioria dos jogadores aderiu. Phil Mickelson foi desde sempre um entusiasma da ideia. Lorena Ochoa também. Pádraig Harrington envolveu-se directamente no processo, tal como Michelle Wie ou o jovem italiano Matteo Manassero. Annika Sorenstam, que se retirou no ano passado, aos 39 anos, já permitiu que se começassem a alimentar especulações sobre um regresso à competição só a pensar no Rio’16. E Tiger Woods, silencioso de início, acabou por tornar-se num grande defensor do projecto. Alguém pode garantir que, sem ele (e a possibilidade de pô-lo na televisão), o COI não teria mandado o golfe passear?


 


 


NEM TUDO O QUE LUZ É OURO


Das doze medalhas distribuídas por golfistas entre 1900 e 1904, as duas únicas edições em que a modalidade fez parte do programa olímpico, nove foram conquistadas pelos EUA. Entretanto, o mundo mudou – e o golfe mudou com ele.


A última vez que o golfe tentara fazer parte dos Jogos Olímpicos fora em 1993, então a pensar em Atlanta 1996. Billy Payne, então CEO do Committee For The Olympic Games (e, aliás, o homem que teve a ideia de candidatar a cidade à organização das Olimpíadas de Verão), foi o grande defensor da ideia, mas não conseguiu convencer o Comité Olímpico. Jurista e politólogo, acabaria por dedicar-se em exclusivo ao golfe após a experiência olímpica, sendo hoje o presidente do Augusta National, casa do The Masters (e, antes disso, de Bobby Jones). Mas, se Payne falhou, não foi por falta de tradição. Na verdade, o golfe fez parte do programa olímpico em 1900 e 1904, respectivamente na segunda e terceira olimpíadas modernas. Os torneios, sempre para jogadores amadores, decorreram em Paris e Saint Louis – e os Estado Unidos ganharam quase tudo. Em 1900, juntaram-se na capital francesa 17 jogadores de quatro países diferentes (França, Inglaterra, Estados Unidos e Grécia). Os homens jogaram 36 buracos e as senhoras apenas 9 – e, no fim, os jogadores americanos ganharam quatro medalhas, todas as femininas e a primeira masculina (deixando apenas a prata e o bronze masculinos para os jogadores britânicos). Em 1904, no Missouri, foi diferente. Participaram 77 jogadores, todos homens, mas apenas três estrangeiros (canadianos), sendo todos os restantes 74 americanos. Havia classificação colectiva e individual. Curiosamente, o vencedor individual foi canadiano: George Lyon. Agora, mais de um século depois, o golfe está de volta. O mundo mudou muito, o jogo também. Os participantes já não serão amadores: serão apenas, grosso modo, os desportistas mais bem pagos da actualidade – e pelo menos uma centena de países cultivará, por esta altura, a ilusão de fazer-se representar.


 





OS PRIMEIROS TRÊS CAMPOS CANDIDATOS


Rio de Janeiro, São Paulo e Búzios: o torneio olímpico de golfe pode realizar-se numa destas três cidades. Mas os dois campos (com desenho de Nick Faldo a construir junto a um mega resort ainda em desenvolvimento em Petrópolis também podem ser uma solução. Não se sabe é nada sobre eles ainda, pois só serão inaugurados em 2013.


 


ITANHANGA GOLF CLUB

Localização: Rio de Janeiro

Fundação: 1933

Desenho: Stanley Thompson

Par: 72

Comprimento: 6035 m

Honras e distinções: recebeu o Rio de Janeiro 500 Years Open de 2000, a contar para o European Tour (e ganho por Roger Chapman); e o HSBC Brasil Cup de 2009, a contar para o LPGA Tour (e ganho por Catriona Matthew)

PRÓS: fica próximo da aldeia olímpica e do centro do Rio de Janeiro; tem um segundo percurso de nove buracos

CONTRAS: é curto e apertado; tem pouco espaço para espectadores; não oferece grande espectacularidade televisiva


 


SÃO PAULO GOLF CLUB

Localização: São Paulo

Fundação: 1901

Desenho: Stanley Thomson (renovado por Robert Trent Jones Jr. em 2007)

Par: 71

Comprimento:6011 m

Honras e distinções: recebeu o São Paulo 500 Years Open de 2000, a contar para o European Tour (e ganho por Pádraig Harrington); e o São Paulo Brazil Open de 2001, a contar igualmente para o European Tour (e ganho por Darren Fichardt)

PRÓS: fica próximo de um centro populacional gigantesco; foi renovado recentemente; tem imenso espaço para parqueamento e para a circulação dos espectadores

CONTRAS: fica a 450 quilómetros do Rio; não permite grande espectacularidade televisiva


 


BÚZIOS GOLF CLUB & RESORT

Localização: Búzios

Fundação: 1995

Desenho: Perry Dye

Par: 72

Comprimento: 6452 m

Honras e distinções: –

PRÓS: é comprido; é ventoso; fica junto ao mar; oferece grande espectacularidade televisiva

CONTRAS: fica a mais de 150 quilómetros do Rio, numa área isolada; a relva Bermuda teria de ser substituída por relva à altura de um torneio dimensão em causa


 


FEATURE. J, 18 de Outubro de 2009




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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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