Sábado, 17 de Outubro de 2009
publicado por JN em 17/10/09

Chamem-me bárbaro, se quiserem: também eu, para ser honesto, acho que a melhor coisa que aconteceu à fórmula 1, nos últimos anos, foram estes dois acidentes de Filipe Massa e Tim Glock. Furioso comigo (e com os que, antes de mim, já haviam celebrado ambos os despistes, embora igualmente contentes por não ter havido vítimas), o antigo campeão Nelson Piquet ironizou: “É sempre assim. O que este povo quer é acidentes.” Está certo e está errado. Certo porque, muito de vez em quando, nós precisamos efectivamente de ver um acidente. Errado porque não é do acidente propriamente dito que nós, meninos da mamã, precisamos: é de uma prova cabal de que a fórmula 1 ainda é um desporto arriscado.


O próprio nome o indica: “fórmula 1” é a primeira de todas as fórmulas, a maior de todas as categorias de corridas de automóveis. Deve ser arriscada, perigosa e aspiracional, se não não é a primeira coisa nenhuma. Sim, é verdade: a morte de Senna e Ratzenberger num mesmo fim-de-semana de 1994, e que tanto prejudicou a modalidade na relação com os patrocinadores, exigia a tomada de medidas de segurança. Mas não era preciso, depois disso, ter aproveitado cada acidente para assemelhar um pouco mais os carros a tanques do exército. Schumacher bateu em 1999 – e aí vieram mais uma série de protecções, de limites, de conselhos. Irvine e Burti bateram em 2001 – e de novo surgiram mais barreiras, amortecedores e isolantes.

Hoje em dia, há muito mais emoção numa só corrida de Daytona, disputada numa pista oval apenas com curvas à esquerda, do que numa época inteira de fórmula 1. Para se sentir a verdadeira emoção de uma corrida de fórmula 1, aliás, o melhor é ir à PlayStation. Na vida real, só há aquilo: carrinhos atrás uns dos outros durante duas horas, com um nadinha de vertigem na partida, um ligeiríssimo frisson nas boxes – e depois tudo ali em fila indiana de novo, sem ultrapassagens, sem despistes, sem abismo. Basicamente, ser piloto de fórmula 1, agora, é como ser funcionário público. Uma pessoa começa nos karts aos nove anos e, aos 20, já com as diuturnidades todas, está na fórmula 1. Basta haver, lá no país dela, uma gasolineira disposta a comprar o lugar.

Nem sequer sou eu que o digo: é Niki Lauda, que venceu três campeonatos do mundo nos bons tempos. “A fórmula 1, antigamente, era para homens. Nós saíamos do hotel e deixávamos instruções sobre quem deveria ir buscar as nossas coisas no caso de não voltarmos”, disse há uns meses, ao comentar um acidente provocado por Nelsinho Piquet a pedido do anti-Cristo Flavio Briatore. “Hoje em dia, os carros são demasiado seguros. Já ninguém se assusta quando bate na parede. Levanta-se, sacode-se e pronto.” Resultado: este longo bocejo em que se tornou o campeonato do mundo, de resto com metade das audiências de TV que tinha, por exemplo, nos anos 80. Que o português Álvaro Parente esteja a caminho da modalidade, portanto, é coisa que não atrasa nem adianta. Mais valia ir jogar à bola, onde ao menos há gente que parte pernas – onde há risco e há heróis, onde há glória e há lenda.

Quer dizer: Jenson Button? Sebastian Vettel? São esses os novos ícones do automóvel? Pelas almas: eu sou do tempo de Ayrton Senna e de Nigel Mansell. Sou do tempo em que os campeonatos se decidiam na primeira curva do último grande prémio, com o líder da classificação a atirar-se impune para cima do segundo classificado (como fizeram Senna ou Schumacher), colocando os dois fora da corrida. Alain Prost, que no meu tempo era um chato, hoje seria um maluco. Em vez dele, temos estes manguinhas de alpaca, com esposas na bancada e conta poupança reforma no banco. Já nem sequer há estrelas, com pretendentes espalhadas pelos quatro cantos da pista e paparazzi comprados para calar a boca. Que diabo: nem sequer com Lewis Hamilton, que é mestiço como Barack Obama e Tiger Woods, a fórmula 1 conseguiu criar uma verdadeira estrela.

Ainda bem que Filipe Massa e Tim Glock estão bem e não tardam em pista de novo. Eles são os heróis possíveis do tempo mais penoso daquele que já foi um desporto apaixonante. Já agora, no entanto, bem podíamos ter poupado a irradiação a Briatore, o mandante do tal crime de lesa-burocracia. Ele era Dick Dastardly, o patife que, com ou sem o seu infiel cão Mutley, ainda ia transformando a fórmula 1 num desporto minimamente imprevisível. Agora, e em vez das “Corridas Loucas”, temos uma série de “Noddys” ao volante dos seus táxis amarelos.


CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 17 de Outubro de 2009

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3 comentários:
De Manuel da Silva Carvalho a 21 de Outubro de 2009 às 00:37
A trapalhada do despiste "arranjado" do Piloto Nelson Piquet Jr. no Grande Prémio de Singapura do ano passado deu uma grande machadada na credibilidade da Fórmula 1.
O próprio Nelson Piquet denunciou todo o caso a troco de imunidade e comprometeu a sua carreira. A Renault foi punida com a desclassificação, com pena suspensa por 2 anos. O "patrão" da Renaut, Flávio Briatore foi irradiado (mas já recorreu declarando "ser um absurdo jurídico") pela FIA. O Director Técnico Executivo, Pat Symonds também foi suspenso por cinco anos de qualquer actividade ligada ao desporto automóvel promovido pela FIA e jura que foi o próprio Nélson Piquet que teve a ideia e lhe sugeriu a provocação deliberada do acidente.

Que grande molho de bróculos que só descredibiliza o desporto automóvel!!
De belinha a 25 de Outubro de 2009 às 10:41
Só hoje é que retribui o seu link.Estive a fazer arrumações na minha meia dúzia de blogs,at last...:))
Pois eu não sou do tempo do Senna, eu sou do tempo do Niki Lauda que foi o meu primeiro herói desportivo.Quando ele se retirou eu retirei-me também e deixei de ver Formula 1.De repente aquilo tornou-se chato e é verdade,está mais seguro, tem menos risco.Além disso é poluente,pouco ecológico, e se continuarmos a fumegar desta forma, um dia ainda acaba por ser um desporto banido!Eheheh!Ficção científica...
De implantes mamarios a 29 de Outubro de 2009 às 14:37
Um pouco sádico, mas é verdade!

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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