Sexta-feira, 16 de Outubro de 2009
publicado por JN em 16/10/09

Isto está tudo trocado. Quem percorre os jornais, as televisões e as rádios, lendo e ouvindo as declarações épicas de José Eduardo Bettencourt e dos seus próximos, fica com a sensação de que o presidente do Sporting conseguiu uma vitória enorme ao fazer aprovar, finalmente, o seu (seu e não só) plano para a reestruturação financeira do clube. Peço desculpa: não foi isso que aconteceu. O que José Eduardo Bettencourt recebeu não foi uma vitória: foi um ultimato – e é tão importante que ele saiba o que recebeu como que os sócios do Sporting saibam a verdadeira natureza daquilo que lhe deram.


O dito plano de reestruturação financeira, já se sabia, era tão importante para os sportinguistas como o novo Tratado Europeu para os irlandeses. Basicamente, ninguém queria saber da coisa concreta – apenas queria usá-la como statement para outra coisa qualquer. Ora, os sócios do Sporting (que, tal como eu, conhecem muito pouco sobre “Valores Mobiliários Obrigatoriamente Convertíveis”) tinham esta ferramenta presente. Enquanto o plano não fosse aprovado, a dinastia que há quinze anos nos dirige não tinha ainda disposto de todos os meios que exigia – e, portanto, não só ainda dispunha ela própria de margem de manobra, como dispunham os sportinguistas de uma escapatória mental para não se sentirem tão mal na sua própria pele.

Naturalmente, a dinastia não resistiu: tal como o Governo irlandês fez com o tratado, decidiu propor o plano tantas vezes quantas os sócios levassem a aprová-lo. A aprovação maciça na assembleia geral de terça-feira (embora não tão maciça como na eleição de Bettencourt, é preciso não esquecer) vem de encontro a essa pretensão. Por outro lado, cria um constrangimento suplementar. “Um” constrangimento, não: “o” constrangimento. “O derradeiro” constrangimento, no fundo. Porque, a partir daqui, Bettencourt simplesmente já não se pode queixar de nada. E, se não conseguir fazer do Sporting campeão com todos os meios que exigia, então não devia sequer ter-se candidatado – muito menos fazer aos consócios as promessas que fez durante a campanha eleitoral.

Pois estão aí os mui desejados 34 milhões de euros de encaixe. Tirando uma eventual passagem do estádio para a SAD (está-se mesmo a ver que será a exigência seguinte, não está?) são provavelmente os últimos 34 milhões que conseguiremos em sede de engenharia financeira. Por isso, quando eu releio aquela declaração do presidente a “O Jogo”, dizendo que, depois disto tudo, apenas será possível aumentar “um cheirinho” o investimento no futebol, desvio os olhos e faço de conta que me distraí com a televisão. Era simpático, ao menos, que houvesse um certo decoro depois deste nosso último gesto de boa vontade.


CRÓNICA DE FUTEBOL ("Futebol: Mesmo"). Jornal de Notícias, 16 de Outubro de 2009

2 comentários:
De Jota a 21 de Outubro de 2009 às 10:34
Nada a acrescentar.
De jorge espinha a 21 de Outubro de 2009 às 23:05
Meu Deus. O que será do Sporting nas mãos desse tipo?
Proponho a candidatura de Bettencourt à águia de ouro. Ele merece, que grande benfiquista.

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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