Domingo, 20 de Setembro de 2009
publicado por JN em 20/9/09

O futebol teve Pelé? O golfe teve Arnold Palmer. O cinema teve James Dean? O golfe teve Arnold Palmer. O música teve Elvis Presley? O golfe teve Arnold Palmer. A moda teve Coco Chanel, a literatura teve John Steinbeck, a conquista do espaço teve Neil Armstrong? O golfe teve Arnold Palmer, o golfe teve Arnold Palmer, o golfe teve Arnold Palmer. Teve e tem. “O Rei” faz este mês 80 anos – e o melhor jogo do mundo parou para homenagear o seu imenso legado


Dê por onde der, foi com Arnold Palmer que o golfe deixou de ser um jogo elitista ao alcance apenas de meia dúzia para tornar-se um desporto de multidões, com bancadas cheias e colecções de autógrafos. Foi com ele que o golfe saiu do espaço restrito de um country club e chegou às casas de milhões e milhões de pessoas no mundo inteiro, via televisão. E foi com ele que o golfe deixou de ser um entretém de velhos reformados para tornar-se num desporto cheio de estilo, cool e vocacionado para os mais novos.

Nascido em Latrobe, na Pensilvânia, Arnold Palmer aprendeu a jogar com o pai, profissional de driving range e green keeper do Latrobe Golf Club. Aos sete anos, e apesar de apenas ser autorizado a jogar de madrugada ou ao crepúsculo (os bons horários estavam reservados aos sócios), bateu pela primeira vez abaixo das 70 pancadas. Resultado: nunca mais parou de jogar. Ainda esteve na Universidade de Wake Forest, mas desistiu logo a seguir à morte de um colega (Bud Worsham), alistando-se na US Coastguard, onde tinha mais tempo para praticar.

Quando venceu o US Amateur Championship, em 1954, decidiu-se pela carreira profissional. Um ano depois, e ainda na temporada de estreia no PGA Tour, já estava a vencer torneios profissionais (o Canadian Open de 1955 foi o primeiro). E, então, foi preciso esperar 50 anos para que desse por concluído o percurso. Ao todo, ganhou 94 torneios (o Crestar Classic de 1988, do Champion’s Tour, foi o último), dos quais sete do Grand Slam. Pelo meio, jogou e venceu ainda sete Ryder Cups, cinco como jogador, uma como capitão-jogador (a última vez que aconteceu) e uma como capitão apenas.

Muitas das suas vitórias (como a do US Open 1960, em que chegou a domingo sete pancadas atrás e ultrapassou Ben Hogan e Jack Nicklaus) foram dramáticas. Muitas das suas derrotas (como a do British Open desse mesmo ano, em que perdeu por uma pancada para o australiano Kel Nagle) ainda mais. Entretanto, o seu legado ia-se disseminando. Quando, em 1960, assinou um contrato de agenciamento com o advogado Mark McCormack, tornando-se no seu primeiro cliente, Arnold simplesmente abriu-se à sua frente todo um mundo novo, contribuindo decisivamente para que se abrisse também um mundo novo para o golfe em geral.

Hoje, McCormack diz que Palmer tinha tudo a seu favor: o bom aspecto, o background socialmente modesto, uma enorme afabilidade pessoal, um estilo de jogo demolidor e uma enorme tendência para os finais dramáticos. O facto é que, bem agenciado, Palmer tornou-se instantaneamente na maior personalidade internacional do golfe – e, aliás, numa das maiores do desporto em geral. Beneficiou, naturalmente, do arranque, pouco antes, das transmissões televisivas de golfe. Mas deu-lhes ele próprio um elã que elas não encontrariam em mais ninguém antes de Tiger Woods. A elas, transmissões televisivas, e ao estrelato em geral: hoje, o império de McCormack vale milhões de dólares por ano, gerindo a carreira do golfista Tiger Woods, da manequim Kate Moss ou da actriz Liv Tyler, entre tantas outras figuras de proa.

Foi Arnold, o fumador bonito e debonair, que ajudou a criar a moda de golfe. Foi ele que salvou o British Open, aceitando jogá-lo quando mais ninguém gostava de fazê-lo (por causa do fraco prize money e da dificuldade dos campos links) e convencendo dezenas de colegas americanos a juntarem-se-lhe. Foi ele quem pela primeira vez reuniu uma legião de fãs (que ganhou, de resto, a alcunha de “O Exército do Arnie”). Foi ele que criou o Golf Channel, associando-se em 1995 a Joseph E. Gibbs. Foram dele dezenas dos melhores livros de instrução de golfe dos anos 60 e 70. E são dele os desenhos de mais de 300 campos ao redor do mundo, do estado da Florida ao Cazaquistão.

Num tempo em que os prémios monetários estavam a milhas do que são hoje, Arnold Palmer foi o primeiro jogador a ganhar um milhão de dólares em prize money ao longo da carreira. Entretanto, e só no ano passado, facturou mais de 30 milhões em investimentos. Chamam-lhe “O Rei”. Porque haveriam de chamar-lhe outro nome?





ARNOLD PALMER


 


NOME: Arnold Daniel Palmer

NASCIMENTO: 10 de Setembro de 1929, em Latrobe, na Pensilvânia (EUA)

ALCUNHA: “O Rei”

PROFISSIONAL DESDE:
1954

CIRCUITO ACTUAL: Champions Tour

VITÓRIAS COMO PROFISSIONAL: 94 (62 no PGA Tour)

DESEMPENHO EM MAJORS: 7 vitórias (The Masters 1958, 1960, 1962 e 1964; US Open 1960; British Open 1961 e 1962) e 31 top tens

DESEMPENHO NA RYDER CUP:
6 participações como jogador (1961, 1963, 1965, 1967, 1971 e 1973) e 2 como capitão (1963 e 1975), todas elas vitoriosas

PRÉMIOS E DISTINÇÕES: jogador com mais prize money em 1958, 1960, 1962 e 1963; PGA Player of the Year em 1960 e 1962; vencedor do Vardon Trophy em 1961, 1962, 1964 e 1967; vencedor do Bob Jones Award em 1971; membro do World Golf Hall of Fame desde 1974; vencedor do Old Tom Morris Award em 1983; vencedor do PGA Tour Lifetime Achievement Award em 1998; vencedor do Payne Stewart Award em 2000


 


OBRIGADO, ARNIE!


“Se eu alguma vez me deparasse com um putt de dois metros e meio e tudo o que tenho dependesse dele, eu gostaria que fosse o Arnold Palmer a batê-lo por mim”

BOBBY JONES, o melhor golfista amador de todos os tempos


“O lugar do Arnold na história é aquele que pertence ao homem que transformou um jogo de meia dúzia num desporto de massas. Foi ele que catalisou esse acontecimento”

JACK NICKLAUS, recordista de vitórias em majors (18)


“Sem ele, o nosso jogo não teria tido o desenvolvimento que teve. Foi ele quem inventou a televisão de golfe. Sem ele, não estaríamos a jogar pelos prémios por que jogamos agora”

TIGER WOODS, actual líder do ranking mundial


“É impossível sobrestimar o que ele fez pelo nosso Open Championship. Ele decidiu vir jogar quando mais ninguém o queria fazer – e depois ainda convenceu os outros a virem com ele”

NICK FALDO, multi-campeão e comentador televisivo


“Ele caiu da cama com aquele carisma. Simplesmente caiu da ama com ele. Quando está com oo seu ‘Exército’, pode pedir a qualquer um que se atirar para o rio, que ele atira-se mesmo”

GARY PLAYER, “O Príncipe” do golfe


“Arnie não só torna um torneio de golfe tão perigoso como uma corrida da Indianápolis 500, como tem tantos acidentes quantas as vezes em que acaba em primeiro”

MARK MCCORMACK, maior agente de golfe da história


“Ele é o mais amado e respeitado golfista da história. É a personificação de tudo o que o golfe tem de bom. Nunca, por gestos ou palavras, violou a etiqueta deste jogo”

DONALD STEEL, o mais clássico course dedigner da actualidade


“As lendas do golfe apareceram-nos em todas as formas e feitios. Mas nenhuma foi capaz de excitar tanta gente como Arnold Palmer. As suas derrotas eram tão dramáticas como as suas vitórias”

PETER ALLISS, mais respeitado comentador de golfe da actualidade





OS 'FUNDAMENTALS' DE ARNOLD PALMER


“O Rei” jogou toda a vida de acordo com 20 princípios, que depois explicou em múltiplos livros. Eis uma síntese:


1. CONCENTRE-SE

Se pestaneja, morre. O golfe não permite um instante de desconcentração no momento de um swing.


2. AJUSTE A MÃO ESQUERDA

É fácil ajustar o grip da mão direita sobre o da mão esquerda. Este é que é importante – e deve estar bem firme.


3. APERTE O MÉDIO, O ANELAR E O MÍNIMO ESQUERDOS

São os dedos mais importantes de um grip. Um bom exercício é apertá-los todos os dias no volante do carro.


4. COMANDE TUDO COM O BRAÇO ESQUERDO

E é o braço direito que dá energia ao swing, definindo a força. Mas é o esquerdo que comanda toda a acção, estabelecendo o ritmo.


5. NÃO ACCIONE OS PULSOS NO TAKEAWAY

Só a partir do meio da subida, no backswing, é que os pulsos entram em acção.


6. EVITE O SWAY

Se houver movimento lateral no backswing, vai ter de haver movimento lateral no downswing também. E na exacta proporção.


7. RODE BEM

Como se estivesse numa daqueles velhas cadeiras de barbeiro. Nem mais nem menos.


8. APONTE O OMBRO ESQUERDO À BOLA

No topo do backswing, isto é. Nessa altura, os ombro devem formar uma posição rigorosamente perpendicular à das ancas.


9. FAÇA UM SWING COMPACTO

Um swing longo e descontraído é má ideia. O ideal é reduzir o backswing.


10. MANTENHA A TENSÃO

Muitos jogadores apercebem-se de que, batendo com menos tensão, acertam melhor na bola. Mas é um hábito errado e difícil de vencer.


11. PROLONGUE A LINHA DE IMPACTO

Os hooks aparecem porque se fecha a cabeça do taco. Mantenha o movimento do taco em direcção ao alvo durante um instante mais.


12. ABRA O STANCE NOS FERROS CURTOS

Não é precisa força para estes ferros, apenas controlo. E abrir um pouco o stance é a melhor forma de consegui-lo.


13. PLANEIE OS PUTTS NO APPROACH

Não basta acertar no green. É importante deixar a bola num local de onde se possa fazer birdie.


14. NÃO MEXA O CORPO NO MOMENTO DO PUTTING

Só mexem as mãos e os braços. Tudo o resto fica absolutamente imóvel.


15. USE MNEMÓNICAS DE VISUALIZAÇÃO

Sobretudo no putting. Um exemplo: trilhos de comboio no green (a geada matinal pode ajudar a montar a mnemónica).


16. NÃO SEJA MEDROSO

Quando ultrapassam o buraco no primeiro putt, muitos jogadores ficam curtos no segundo. É uma cobardia.


17. ‘PUTTE’ EM VEZ DE ‘CHIPPAR’

Um mau putt continua a ser melhor do que um com chip. Basta ser possível executá-lo.


18. ‘VARRA’ O CHÃO NO CHIPPING

Um chip curto não envolve acção de pulsos. O essencial é “varrer” o chão, passando pela bola.


19. MUDE DE FERRO, NÃO DE PANCADA

‘Chippar’ sempre com o mesmo taco e diferentes intensidades é má política. O ideal é usar sempre a mesma intensidade, mas com tacos diferentes.


20. “SENTE-SE” NO BUNKER

Ou quase. A flexibilidade dos joelhos nos bunkers shots é absolutamente essencial.


 


FEATURE. J, 20 de Setembro de 2009

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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