Sábado, 19 de Setembro de 2009
publicado por JN em 19/9/09

Oito rapazes. Dezasseis canções. Zero peças de roupa. Se algum espectáculo permitiu, para já, que se proclamasse o regresso da rentrée, esse espectáculo foi Rapazes Nus a Cantar, musical em cena no Casino Estoril. E no entanto, désolée les filles, os cantantes desnudos são gays. Não talvez os actores (embora eu duvide de que haja muita gente disposta a pôr as mãos no fogo por eles), mas pelo menos as personagens.


Alguma surpresa? Claro que não. Se os ditos oito rapazes fossem heterossexuais, tudo não passava, bem vistas as coisas, de strip masculino (e, para strip masculino tout court, já basta a vida). Tratando-se de gays, pelo contrário, é arte. “Afastem de mim a nudez gratuita!”, parece, aliás, gritar o encenador Henrique Feist, batendo no peito. “A nudez, aqui, também é metafórica”, diz ele. “Simboliza o quão despidos nos sentimos quando falamos de assuntos como a perda e o amor.”

E eu, que costumo passar o mês de Setembro pelas ilhas, lá tenho de esperar pacientemente por tão transformadora experiência. Pois não demoro: mais uns dias e já estou em Lisboa – e, ao chegar, é atirar as malas para um canto, pegar no automóvel e rumar ao Estoril. Afinal, é Henrique Feist quem me garante: o valor artístico do espectáculo é de tal monta que é bem possível, a certa altura, um espectador dar mesmo por si esquecido de que aqueles rapazes estão nus.

Pois eu quero fazer esse teste: pôr-me ali a olhar para aqueles rapazes nus a cantar, tão-ba-la-lão, tão-ba-la-lão, e entretanto ir pensando no amor e na perda. Se não o conseguir, há sempre alguma coisa que se aprende, até porque se trata de “oito rapazes despidos de preconceitos”, reunidos “num espectáculo sem tabus” onde “ninguém tem nada a esconder”, como me recordaram, ao longo das últimas duas semanas, dezenas e dezenas de reportagens de jornais e revistas.

(“Leve um relógio, para ver quanto tempo os órgãos sexuais masculinos ficam na sua retina”, chegou a arriscar o repórter de um diário nacional, entusiasmado, mas eu prefiro deixar que sejam os médicos a decidir se o problema é mesmo da retina ou se não será, por exemplo, do relógio, alguma cebola a precisar de pilha).

Entretanto, porém, assalta-me a pergunta: mas ainda haverá procura para tanta oferta? Quer dizer: ainda haverá mercado para tanta iconografia gay? Garantem-me uns quantos que sim: que, se alguma coisa contribuiu para uma tão grande sobre-representação da homossexualidade na pintura, na literatura, nas artes de palco e na própria historiografia, foi a gulodice dos heterossexuais pelo tema.

Faz sentido. Na verdade, nunca houve tantos gays na vida real como na arte. Hoje em dia, gostamos muito de dizer que os gregos eram todos homossexuais – e, no entanto, apenas a elite da Pólis exercitava a homossexualidade, que as hordas tinham bem mais com o que se preocupar. O mesmo com os mestres renascentistas e os seus aprendizes, séculos e séculos mais tarde. E o mesmo, de alguma maneira, com os burgueses do bairro Castro, mais uma série de séculos para a frente.

E, todavia, a homossexualidade sempre colheu. Sempre colou. Sempre se fez representar, como se na verdade retratasse uma tendência mais do que minoritária – sempre vendeu a rodos, mesmo havendo apenas meia dúzia de homossexuais por centenas de habitantes.

Pois a minha questão é: continuará a vender? É que, entretanto, houve as paradas gay – e, portanto, hoje em dia já ninguém acredita, no verdadeiro sentido de acreditar, que ser gay efectivamente represente uma virtude. E, entretanto, houve Cristiano Ronaldo também – e, portanto, já toda a gente percebeu que a estética gay, incluindo os brincos de brilhantes e as malinhas a tiracolo e os saquinhos de pano da Calvin Klein e as havaianas brasileiras não são outra coisa senão pinderiquices bregas e deprimentes, vulgo “pimba”.

Por mim, estou pronto a contribuir para uma marcha de orgulho hetero, que aliás faz tanto sentido como qualquer outro orgulho a pretexto de uma simples preferência sexual. Até já tenho uma reivindicação: que haja mais espectáculos com gente nua a cantar – e que, de vez em quando, essa gente possa ser feita de pessoas, não de ícones. Tenho a certeza de que, algures lá pelo meio, alguns rapazes gostarão de raparigas e algumas raparigas retribuirão o amor dos rapazes. No fim, talvez até haja perda – e, então, é bem capaz de haver arte também, para grande surpresa de Henrique Feist.


CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 19 de Setembro de 2009

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6 comentários:
De Manuel da Silva Carvalho a 19 de Setembro de 2009 às 22:17
Desde 8 do corrente, oito rapazes nus estão a cantar, dançar e representar no Auditório do Casino Estoril num espectáculo que é livre de convenções e preconceitos. A partir de uma ideia original de Robert Schrock, "Rapazes Nus a Cantar" é uma comédia musical da Broadway de sucesso que celebra dez anos de existência e faz jus à nudez masculina.
Ainda em cena, "Naked Boys Singing" estreou em 1999 no The Actor's Playhouse, um teatro Off-Broadway, em Nova Iorque. Desde então, o conceito espalhou-se pelo mundo com produções em mais de 40 cidades espalhadas pelo mundo e traduzida em seis línguas.
A Direcção e adaptação do espectáculo em Portugal é de Henrique Feist. A Direcção musical é de Nuno Feist.São oito actores portugueses em nu integral.
Há partes de comédia e outros de drama, Os intérpretes cantam e mexem-se bastante bem e à terceira ou quarta música já quase ninguém se lembra que estão nus.

De Alexandre Monteiro a 20 de Setembro de 2009 às 15:04
Devem ser realmente gays: nenhum heterossexual tem tão pouca - e proeminiente - gordura abdominal.
De Alexandre Monteiro a 20 de Setembro de 2009 às 16:05
* "proeminente", queria eu escrever.
De Dakota a 24 de Setembro de 2009 às 17:37
Ninguém se lembra? Isso é para si que é um Manuel. Para mim que sou Maria ... De qualquer forma, não me importo nada que estejam nus. Sejam heterossexuais, sejam homossexuais.
De Manuel da Silva Carvalho a 24 de Setembro de 2009 às 23:36
Maria (Dakota), eu disse JÁ QUASE ninguém se lembra!
Entendo que para a Maria...mesmo que se importasse, eles continuariam nus e a deliciar a Maria que, pelos vistos e muito bem, é de muito boa boca e nada esquisita! E os tempos de crise que aí estão não são nada favoráveis a esquisitices...
De Dakota a 28 de Setembro de 2009 às 15:38
Manuel,
'Muito boa de boca e nada esquisita ...'. Engana-se! Sou boa de boca, mas infelizmente para muitos, muito esquisita.

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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