Sábado, 5 de Setembro de 2009
publicado por JN em 5/9/09

Na verdade, achei comovente o artigo de Miguel Sousa Tavares sobre o Facebook, publicado aqui há dias no Expresso. Para um articulista tão viciado na marcação da agenda mediática, atacar as redes sociais não mostra outra coisa senão falta de assunto. É uma fragilidade a que sou sensível. Especialmente em Agosto, em que não raras vezes a malta vai toda para a praia e um tipo fica fechado em casa, com a cabeça enfiada no motor, como que obrigado a representar o papel do último homem espirituoso à face da Terra.


Eu estou no Facebook, onde tenho mais de 500 amigos. Na verdade, não são meus amigos: é o computador que lhes chama assim. Ao todo, suponho, não conheço mais de uma centena deles. De qualquer forma, há de tudo. Daqueles interessantes, com um comentário assertivo sobre o que quer que apareça e sabedoria suficiente para calar a boca quando é hora de calar a boca; e também daqueles absolutamente tontos, povoados por nada, nada, nada – e que, no momento de calar a boca, sempre descobrem um tema sobre que têm desesperadamente de desabafar.

Ao contrário de Miguel Sousa Tavares, prefiro estes. Quer dizer: converso melhor com os outros. Com a Ana Celeste, que me tem ajudado a reconciliar-me com uma das palavrinhas que mais me complicam com os nervos (“socióloga”). Com a Raquel, com quem tento fugir a conversas sobre música, para evitar humilhações. Com o Nuno, um dos melhores colegas que apanhei nos jornais; com o Francisco, o meu único amigo no poder; com o António, que nunca encontrei ao vivo mas cujos programas de rádio me acompanhavam na adolescência.

E, no entanto, são os tontos quem verdadeiramente me fascina. Nunca falamos. Nunca trocamos mensagens. Nunca trocamos ideias. Mas eles gostam de estar ali – e eu, voyeur, vou às vezes às páginas deles. A maior parte dos posts são sobre nada: notícias de ovelhas tresmalhadas na quinta do Farmville, respostas a quizzes com nomes como “Que Fotografia da Taróloga Maya Seminua Mais Condiz Com a Tua Personalidade?” ou subscrições de causas intituladas “Salvem a Baleia Willy, que o Capitão Ahab Já a Tem Cercada Com o Seu Batmobile!” Se publicam uma foto, e embora seja sempre do filho recém-nascido ou da praia recém-visitada, já é um privilégio. Mas eu ali fico, scroll para baixo e scroll para cima, a magicar na pergunta a que às vezes, grosseirão, resumo o dilema de uma relação a dois: “O que é que eu oferecia a uma pessoa destas no aniversário?”

É que nada as inquieta. Nada as entusiasma. Nada as interessa. De todas as impressões com que se pode ficar de uma coisa, de uma pessoa, de uma situação, têm apenas duas possíveis: ou gostam ou não gostam. Nem sequer sabem bem porquê: é assim e pronto. A certa altura, um tipo publica um quadro de Rothko – e comentam: “Oh, isto também fazia eu… Detesto!” No dia seguinte, publica uma peça de Barber – e desatam aos gritinhos: “Olha, a banda sonora do Platoon… Adoro!” E eu, parecendo agora azedo, deliro. Deliro com as vidas santas delas. Mas deliro, principalmente, com o desafio que representam para mim.

“Que presente é que eu lhes daria no aniversário?”, pergunto-me. “E como poderia eu escrever um texto sobre uma coisa importante sem perder a atenção destas pessoas, cuja capacidade de concentração se assemelha à de uma barata?” Chamem-me nomes, se quiserem – ou saiam do meu Facebook, se de repente se sentirem na dúvida e decidirem não ma perdoar. A verdade é que, quando um homem decide fazer de uma determinada coisa a sua vida toda, ou se empenha em alargar os limites dessa coisa ou essa coisa é apenas a lama que o engolirá. Ora, eu decidi trabalhar na comunicação – e, se não fosse minha obsessão encontrar uma possibilidade de comunicação onde nenhuma comunicação haja sido estabelecida antes, mais vale (sei lá) ir para famoso, que sempre mata menos a cabeça.

O que eu estranho é que Miguel Sousa Tavares não tenha percebido isto. Sintetiza ele, grosseiro também, que o Facebook é para gente solitária, narcisista, mexeriqueira, fala-barato e fundamentalmente ignorante. Também o é, sim. Mas eu pergunto-me se ele faz ideia do tipo de pessoas que compram os seus livros às centenas de milhar. É que – sabe, Miguel? – é a “pobre gente” (como o Miguel lhe chama) que se apaixona pelos seus livros. É a pobre gente despovoada que, no fim, lhe paga os safaris. De resto, o Miguel devia sabê-lo: há já alguns anos que vem escrevendo sobre ela, embora insista em muni-la de trejeitos romanescos e em dar-lhes nomes inspirados na lista telefónica de Cascais.


CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 5 de Setembro de 2009

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17 comentários:
De Manuel da Silva Carvalho a 5 de Setembro de 2009 às 21:53
A liberdade é o mais relevante valor num presumível qualquer debate, inclusivé sobre redes sociais. A liberdade de estar ou não estar.De ignorar. De não gostar. De ter razões para estar ou não, precisar de ter razões e estar na mesma. Cada um é como cada qual. Cada pessoa é um mundo, cada mundo tem o seu código, a sua chave, o seu Pin, a sua razão de ser.

Talvez a grande diferença entre as pessoas que estão no Facebook e o Miguel é que a grande maioria delas não se importam que ele não esteja no Facebook. Porque se importa ele de outros estarem? Ele também tem a SUA justificação.




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De DC a 6 de Setembro de 2009 às 00:20
Obrigado Joel.
Este tipo que só critica e nada propõe, que andou a saltitar de cadeira em cadeira até se estabelecer na comentarisse da TVI, podia bem ir daqui para fora e falar mal de quem quisesse.
Este tipo de quem se fala tanto, achando-se um ser superior e com alguns comportamentos dignos de um palhaço, nada acrescenta a esta sociedade que precisa de homens bons e não de abutres que se limitam a criticar o que os outros fazem.
Como se não houvesse liberdade neste País, da mesma forma que ele tanto apregoa.
Gostava de o mandar para certa parte, mas não merece que eu me chateie.
Cumps. DC
Nota: Desnecessário isto do verificar ortografia. Mas prontus.
De navegante a 6 de Setembro de 2009 às 19:21
se o MST desdenha eu quero comprar. vou-me inscrever no Facebook agora mesmo!
De Allien a 6 de Setembro de 2009 às 19:56
Mas, também ele, o MST terá o direito de ter a opinião dele, certo? Também todos nós, todos os dias, julgamos tontos e mais uns quantos adjectivos maléficos, a um grande numero de outros quaisquer que julgamos idiotas, apenas porque não versam a nossa onda, certo? Porquê afectar tanto a opinião dele? Independentemente de gostar ou não da opinião dele...É a dele...É um facto que em todo o lado há idiotas, nas redes socias, na bliblioteca, na peixaria...E toda a gente expressa a opinião acerca da idiotice dos outros...certo? E só os idiotas lêm os livros dele? Hummmm então aqueles criticos todos que o comentam são igualmente idiotas? Hummmm..Que me desculpe a intromissão....
Não sou da opinião do MST em muita coisa...e sou das idiotas que tem um perfil numa rede social qualquer...e...rendi-me às modas tecnologicas...mas, será que não sou uma verdadeira idiota por isso?
De Belinha a 8 de Setembro de 2009 às 19:14
Gostei de ler.Cheguei aqui porque o Sapo colocou o seu blogue em destaque.Eu,desde que descobri que não sabia o que são estromatólitos, considero-me uma nódoa,uma ignorante.Não que as coisas não me inquietem e entusiasmem...mas muitas vezes até parece que têm que vir ter comigo para me interessarem, no caso em apreço foi um documentário sobre o Poder da Terra.Isto não tem nada a ver com o que escreveu, ou talvez, se lido de trás para a frente.Desde que descobri que não sabia o que são estromatólitos, acho que tudo quanto escreva é sobre nada!Mas afinal eu só lhe queria dizer que quero ser a 501ª amizade no seu Facebook...(facebook/belinhafernandes...)e que para prenda de aniversário quero uma máquina fotográfica digital.O aniversário é só em Fevereiro,mas eu não me importo de a receber já.E pode ser 2ª mão...O Miguel Sousa Tavares,enfim,tem que encher as folhas com alguma coisinha.E lá chega o momento em que as superstar da cultura ou da política ou do futebol ou..ou..ou...acham que podem dizer tudo e que até cai bem se forem contra a corrente da boa educação ou do bom senso! O Facebook é igual à vida, nem mais nem menos,há de tudo...
De Blogadinha a 8 de Setembro de 2009 às 19:45
Há quem não perfile a obediência subtilmente imposta pelas parangonas atirando-se, de cabeça, à leitura da última página.

"Muito bons somos nós" é de uma síntese e mordacidade sem igual.

Que venham do texto todas as Cidálias deste mundo!
O seu brilhantismo e carácter destacam-se em qualquer página.

Parabéns pelo formato.
Cumprimentos.
De Anónimo a 8 de Setembro de 2009 às 19:52
Muito bem Joel!!! O Facebook é espontâneo, e é essa leveza, por vezes surpreendente , de amigos, conhecidos e de gostos (na minha opinião) que o torna numa ferramenta tão boa. Em que outro espaço podiam conviver as Mafiawars com notícias sobre a Gripe A, excertos de grandes filmes com o Farmville , fotos de férias com as galletas e os quizes mais risíveis, e etc... A vida real não é só intelectualidade, ou pretensa...
De serafim.guimaraes a 8 de Setembro de 2009 às 22:56
Caro Joel,
Se prometer que considera perder uns minutos a pensar na prenda que me daria no meu aniversário, então também quero ser seu face-amigo .
Parabéns pela prosa! O tipo estava a merecê-la!
cumprimentos
Serafim Guimarães
De Joel a 9 de Setembro de 2009 às 21:16
Para que servem afinal essas redes sociais?? Se as pessoas querem falar umas com as outras, que usem o telemóvel ou o telefone...
Desculpem lá mas não sou muito apologista destas "modernices" de expor a nossa vida privada a olhos e mentes alheias. E olhem que me considero uma pessoa bastante moderna, mas para tudo há limites!!
De Teresa a 9 de Setembro de 2009 às 23:05
Muito bem dito!
Gosto imenso do que escreve!

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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