Quinta-feira, 3 de Setembro de 2009
publicado por JN em 3/9/09

Conta-me Como Foi, nem seria preciso reforçá-lo, é uma excelente série, do melhor que temos na televisão nacional. Encanta-nos e enfurece-nos, devolve-nos memórias e ilumina-nos sobre coisas que não chegáramos a perceber. No fim, deixa-nos invariavelmente com uma doce sensação de perda: a sensação de que é assim que a televisão deveria ter continuado a ser – e, claro, a imensa pena pela certeza de que jamais voltará a sê-lo.


Mas Conta-me Como Foi encanta-nos e enfurece-nos a todos. Juntos. Encanta-nos e enfurece-nos com as mesmas coisas, no fundo – e muito difícil será continuar a fazê-lo se, como admite a RTP, vier efectivamente a ter, lá para 2011, uma sexta temporada centrada no pós-25 de Abril. Porque, quanto ao salazarismo e ao marcelismo, não há problema nenhum: estamos quase todos de acordo. Quanto ao que se tornou Portugal – e nomeadamente quanto ao que se tornaram as famílias portuguesas – em tempos de democracia, já não é assim. De todo.

Em 2011, Conta-me Como Foi não será consensual: será polémico, o que aliás representará o remate perfeito para a saga. Inevitavelmente, seremos ideológicos, seremos clubistas, seremos guerrilheiros. E então, sim, se esclarecerá a dúvida: “este” Conta-me Como Foi é como nós gostávamos que a televisão ainda fosse ou como nós, embora inconfessadamente, adoraríamos que o país tivesse continuado a ser?


CRÍTICA DE TV ("Crónica TV"). Diário de Notícias, 3 de Setembro de 2009

1 comentário:
De belinha a 11 de Setembro de 2009 às 14:38
É muito difícil fazer ficção sobre o que é contemporâneo ou quase!A unanimidade do aplauso a esta série será,de facto, complicada de alcançar se o período histórico for mais recente, tem razão!A não ser que façam algo amorfo,que agrade a gregos e troianos, nem carne nem peixe...e isso seria um desastre!As pessoas podem ser poetas e desejar um país utópico,ou serem práticas e aceitarem um país real,em desenvolvimento,com dores de crescimento,desvios e fracassos à mistura com histórias de sucesso.A democracia é imperfeita mas oferece-nos mais escolhas.Eu prefiro a imperfeição ao consenso...e a realidade à ficção.

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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