Sábado, 29 de Agosto de 2009
publicado por JN em 29/8/09

Estudei-o de longe, à porta do hotel, esperando-me nervosinho como os namorados de Lisboa se esperavam em frente à Loja das Meias antes do advento do telemóvel, e murmurei: “É trafulha.” Testei-o pouco depois, pagando (sem resistência da parte dele) os dois gin tónicos com que seláramos o nosso encontro (realizado a pedido dele), e fiquei com a certeza absoluta: “Pois claro que é trafulha.”


E, no entanto, fiz tudo o que ele me pediu. Redigi memorandos, elaborei estratégias, cobrei favores, meti cunhas. No fim, ainda juntei duas dezenas de amigos , persuadindo-os a fazer tudo o que, entretanto, o trafulha lhes pedia a eles também. Há duas semanas, mandei-lhes um email: “Peço-vos desculpa, fui enganado e arrastei-vos comigo. O dito ‘projecto’, afinal, era só para sacar subsídios e deixar-nos a todos mal.”

Envergonhado, prontifiquei-me para o óbvio: preparar um processo colectivo, contratar um advogado, pagar as despesas. Apenas seis meses depois daquele encontro num bar de hotel, cheio de planos para a conquista sumária deste mundo e do outro, estou mais pobre, mais envergonhado, mais descredibilizado e mais ressentido para com a espécie. E, no entanto, algo que me diz que faria tudo outra vez: que ouviria aquele homem rabino e de olhar desconcentrado, que acreditaria na sua descrição do paraíso, que lhe entregaria chave-na-mão tudo o que me pedisse – e que, inclusive, arrastaria os meus melhores contactos para o seu “projecto”.

Percebi-o através do burlão que a GNR de Santo Tirso apanhou aqui há dias a tentar sacar a um idoso mais algum dinheiro para além dos 400 euros que já lhe sacara na véspera. Eu explico. Um tipo de 39 anos, a quem nunca fora conhecida qualquer profissão mas também nunca haviam faltado os carros alemães e os sapatos italianos, foi detido na semana passada, na Vila das Aves, quando realizava um peditório fraudulento, usando como isco as corporações de bombeiros da região. O esquema era profissionalíssimo (até recibos para o IRS envolvia). E, contudo, não era essa a sua principal arma.

A segunda mais importante das suas armas era a disponibilidade das pessoas para oferecerem dinheiro, hábito que em alguns casos é solidariedade e noutros tantos culpa. “Se fosse para os bombeiros, dava. Dou sempre. Tenho dinheiro”, dizia o idoso das Aves, atónito perante o aparato de polícias em torno daquele rapaz tão simpático que ainda na véspera lhe levara os 400 euros que apodreciam na caixa dos biscoitos. A mais importante arma de todas, porém, não era o voluntarismo: era a credulidade. Mais do que isso: o desejo da credulidade. “As pessoas acreditam em tudo. É fácil enganá-las”, explicou o burlão aos jornais, já algemado pela guarda.

O mesmo, de alguma forma, se passou comigo. Comigo e com vários dos outros enganados, nomeadamente os nados ilhéus. Prometeram-nos uma coisa em grande, sediada na terra-mãe, pujante o suficiente para colocar em breve as ilhas no mapa das coisas grandes – e nós quisemos acreditar, embora tudo naquele homem nervosinho e naquela rapariga tonta de que ele se fazia acompanhar nos aconselhasse o contrário. No fundo, comprámos o sonho – e, no dia em que os virmos a ambos esticar os pulsos, deixando-se finalmente algemar, não é de excluir que tenhamos pena deles.

Afinal, é mais ou menos assim que funciona a pequena economia portuguesa, não é? Pedem-nos para pagar a 30 dias e ao fim de 120 ainda estão ao telefone: “Não recebeu?! Já pus esse cheque no correio há que tempos…” Nem sequer é burla: é como as coisas funcionam. Não há dinheiro, mas há stocks. Não há stocks, mas há crédito. Não há crédito, mas há perspectivas. E, portanto, encomenda-se. Matérias-primas, mão-de-obra, serviços: não falta nada a ninguém – nem mesmo os carros alemães ou os sapatos italianos. No fim se verá se é altura de fechar a porta e quem vem, afinal, atrás do cortejo.

Uma ficção? Claro. Mas uma ficção mobilizadora, como mostra o número de pategos que se deixam enganar todos os dias, entre pequenos artífices e grandes fornecedores, profissionais liberais e criativos das mais diferentes áreas. O que é importante é que cada fornecedor entalado tenha uma ideia sobre como passar o entalão ao seguinte. Assim como assim, o Estado faz parecido: é o primeiro a cobrar e o último a pagar – e, de resto, já se sabe, apenas se lixa quem cumpre.

Chamam-lhe “economia dinâmica”, mas é mais do que isso: é psicologia social pura. Bem precisavam os escandinavos, que nunca ficam a dever um tusto a ninguém, de descobri-la: matavam-se bem menos.


CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 29 de Agosto de 2009

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3 comentários:
De MC a 29 de Agosto de 2009 às 22:58
Não entendi bem todos os pormenores do esquema descrito .Segundo parece, haveria em vista arranjar comparsas para constituir um projecto fictício com o fim ilícito de sacar fundos da União Europeia. Quando a esmola é grande o pobre, normalmente, deve começar a desconfiar…
De ana celeste mendes a 31 de Agosto de 2009 às 01:40

A mais valia dos indivíduos de má índole sobre os outros reside, de facto, na credulidade através da qual as pessoas bem formadas tendem a acolher a palavra do outro. As pessoas, por norma, desconfiadas, oscilam entre o irritante e o insuportável, além de, grosso modo, revelarem uma astúcia débil e uma inteligência pouco robusta. São os chamados "poucachinhos". Contudo, parece-me de vital importância não menosprezar as primeiras impressões. Sendo condição essencial para o funcionamento da vida social, a confiança é, na vida contemporânea, uma questão estruturante. Só me dirijo para a estação de comboios porque confio que o comboio chegará e que o maquinista me transportará para o destino X; só bebo água da torneira porque confio que foi previamente tratada por entidades competentes; só vou ao médico porque, em último caso, confio nos médicos e na medicina, etc, etc, etc. Por em causa a questão da confiança significa abalar toda a estrutura social e semear o pânico por toda a parte. É isso que o terrorismo consegue: desmembrar a crença que os seres humanos tendem ( e tendem porque a confiança nos outros lhes é vital) a ter face aos outros seres humanos, bem como face às instituições das quais as suas vidas dependem. Nas sociedades urbanas deste tempo, em que os vizinhos tendem a ser desconhecidos e o quotidiano se passa, maioritariamente, entre caras anónimas, a desconfiança pode tornar-se coisa letal. Mas a confiança cega também. O equilíbrio parece pois ser difícil e precário. Ser astuto de modo a conseguir identificar os sinais de perigo que os trafulhas emanam é, pois, essencial. Ter faro apurado e confiar no instinto pode fazer toda a diferença. Se, à partida, um não desconfiado desconfia, então é porque é melhor ficar alerta. A tendência contudo é para se minimizar o perigo, pensar que talvez estejamos enganados, que podemos dar uma oportunidade, que pode não ser bem assim...Certo, é que tarde ou cedo nos desenganamos. Nos negócios, nos amores, nas amizades, na vida toda... O trafulha emite sinais de trafulhice. Tal como os gatos antes de atacarem, puxa as orelhas para trás, eriça o pêlo e estica as ganfias.Os sinais estão lá. Nós é que podemos não saber ou não querer vê-los.
De tresgues a 10 de Setembro de 2009 às 16:46
Gostei do que li. O problema é que, muitas vezes, quando o malandro é malandro daqueles mesmo bons, tipo bom "profissional", é difícil até para o mais desconfiado dos desconfiados não cair na esparrela. E é triste passar depois a vida a desconfiar - ainda mais - de tudo e de todos.
Deus nos livre de tais profissionais.
Mas Ele não pode estar em todo o lado. Dizem. :)
E anda meio Mundo a enganar o outro meio: http://tresgues.blogs.sapo.pt/2009/08/?page=3 (http://tresgues.blogs.sapo.pt/2009/08/?page=3)
(Pois também já me aconteceu:()

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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