Quinta-feira, 31 de Dezembro de 2009
publicado por JN em 31/12/09

A televisão portuguesa está em modo “pausa”, à espera de melhores dias. Basta olhar para aquilo que nos propõem os canais generalistas para o Réveillon: Dança Comigo no Gelo Especial na RTP1, Ídolos Especial na SIC, Uma Canção Para Ti Especial na TVI – exactamente o mesmo de sempre, como se nem sequer fosse dia de festa (apenas um dia em que há mais gente em frente à TV).


Para o telespectador, é deprimente. Dias de festa não são apenas dias de festa: são também balizas para a passagem do tempo, marcos para delimitar os acontecimentos de uma vida e de uma sociedade. Acontece que não há dinheiro. E, aparentemente, no século XXI é assim: a falta de dinheiro não inspira a criatividade, mas a repetição de fórmulas.

Nem sequer é coisa só nossa, muito menos só da televisão. No próprio cinema, os projectos ousados estão praticamente votados ao esquecimento, com as grandes produtoras (e as grandes distribuidoras) a promoverem quase em exclusivo os filmes de bilheteira garantida, esquecendo, por exemplo, os pré-candidatos aos Óscares.

Acontece que a TV generalista vive os seus últimos dias. Mudou tudo nos últimos três anos – e, dentro de outros três, já poucos estarão na disposição de ver “isto” (ou sequer “assim”). Pois o meu receio é de que os canais abertos passem demasiado tempo em modo “pausa”, negligenciando a necessidade de reconverter-se – e reduzindo definitivamente o seu público, muito em breve, aos reformados, às donas de casa e aos doentes nos hospitais.


CRÓNICA DE TV ("Crónica TV"). Diário de Notícias, 31 de Dezembro de 2009

Terça-feira, 29 de Dezembro de 2009
publicado por JN em 29/12/09

Assiste-se a O Destino do Senhor Sousa (RTP2, sábado à noite), de resto apenas mais um filme português feito veículo para o overacting de Luís Miguel Cintra, e torna-se a constatar como Rita Blanco é uma das nossas melhores actrizes de audiovisual, se não mesmo a melhor. A concorrência, já se sabe, é limitadíssima. Mas há algo em Rita (como o há, entre os homens, em Nicolau Breyner) que simplesmente ilumina o ecrã.


E eu, correndo o risco de voltar a ser acusado de ignorância – é sempre acusado de ignorância quem denuncie os actores como a classe mais persistentemente medíocre do nosso panorama artístico, o que de alguma maneira eu torno a fazer aqui –, não consigo dissociar esse brilho da própria atitude diária de Rita Blanco enquanto persona televisiva. Encontramo-la numa entrevista, no júri de um concurso ou numa participação especial, e ela é sempre “uma de nós”: uma mulher do mundo, com as idiossincrasias e as obsessões e mesmo as ignorâncias que todos os dias nos rodeiam.

Resultado: uma delicada combinação entre a absoluta naturalidade com que qualquer papel lhe assenta (no teatro, no cinema ou na TV, telenovelas incluídas) e o magnetismo que qualquer das suas personagens exerce sobre nós (e trate-se de drama ou de comédia, de entretenimento ou de manifestos pejados de compromisso sociológico). Tudo isso, de resto, está em O Destino do Senhor Sousa – e é filme de apenas alguns minutos, quase todos centrados em Luís Miguel Cintra.


CRÍTICA DE TV ("Crónica TV"). Diário de Notícias, 29 de Dezembro de 2009

Domingo, 27 de Dezembro de 2009
publicado por JN em 27/12/09

Há talvez uma década, quando os jornais e as revistas perceberam que os “famosos” podiam ser um catalisador do interesse dos leitores, eles tinham uma utilidade. Fazia-se uma daquelas reportagens sobre “pessoas que” (pessoas que criaram doze filhos, pessoas que escalaram o Evereste, pessoas que têm um olho de cada cor) e bastava incluir o exemplo de um famoso “que também” para conseguir chamar a atenção para as dificuldades de uma família grande, os desafios de uma escalada épica ou o potencial de sedução de um par de olhos fruta-cores.


Hoje, os jornais vão abandonando o truque – e não foram nem as histórias, nem os leitores que mudaram: foram os “famosos”. Porque, hoje em dia, toda a gente é famosa: figurantes armados em “actores”, queques ociosas que a si mesmo chamam “relações públicas”, cabides da La Redoute a quem alguém convenceu que são “manequins” – milhares de inúteis que nem têm histórias para contar nem são sequer reconhecíveis para a generalidade do público, perdido ele próprio no meio das supostas celebridades que vão saltando de dentro dos caixotes de lixo, escorrendo dos bebedouros ou espreitando por detrás das bocas de incêndio.

Toda a gente o sabe: já não há famosos – e, se os há, não se misturam. “Toda a gente”, não: os programadores da TV portuguesa não o sabem. Basta conferir o número de programas que, ao longo desta quadra, têm aparecido com o subtítulo Especial Famosos – e depois ver de que “famosos” se trata, afinal. Um grupelho deprimente, no fundo.


CRÓNICA DE TV ("Crónica TV"). Diário de Notícias, 27 de Dezembro de 2009

Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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"Os Sítios Sem Resposta",
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