Sábado, 26 de Janeiro de 2008
publicado por JN em 26/1/08

Ana Drago. Vejo-a erguer-se da sua cadeirinha no Parlamento, ajeitando o microfone como que para sussurrar-lhe palavras de amor, e não posso imaginar nada mais bonito. Ouço-a abrir a boca, pigarreando sumidinha antes de soltar a sua voz crispada e as suas certezas absolutas sobre o que é justo e o que não tem lugar neste mundo, e não posso imaginar nada menos sexy. Sempre que penso em política e me sinto um pouco mais esquerdista, tento lembrar-me dela. É mais ou menos como pensar no Eusébio quando se faz amor com uma bela mulher: retarda o orgasmo. Estou ansioso por ler a sua tese sobre a necessidade de uma “outra globalização”. Infelizmente, já não vou a tempo de acompanhá-la nas viagens à China ou ao Nepal, de lutar a seu lado pela Associação Académica de Coimbra ou de escrever sob as suas ordens no jornal “A Cabra”. Mas, a seu conselho, já comprei todos os livros de Virginia Woolf e Marguerite Yourcenar, já gravei todos os filmes de Larry Clark e Gus Van Sant e já ouvi todos os discos de Chico e Caetano (assim mesmo, sem sobrenome), preparando-me agora para mergulhar nos jovens cantautores americanos que falam mal da América. Na minha relação com Ana Drago deposito todas as esperanças de vir um dia a tornar-me num verdadeiro homem do século XXI. Um homem sem desejo, que é como são os homens e as mulheres deste século.


No outro dia, ao ler sobre o projecto Lebensborn, de Himmler, dei por mim a perguntar-me: “Como seria se um maluco se lembrasse um dia de armar uma trafulhice destas em Portugal? Onde poderia ele ir buscar a sua fonte da vida?” Resposta imediata: a Ana Drago. Porque ela própria já é uma espécie de produto eugénico, embora mais benigno. Filha de uma médica e de um jornalista, combinação de ADN ideal para os tempos que correm, tudo na sua biografia a trouxe até onde ela está hoje. Nascida no Verão Quente, Ana Drago cresceu Lisboa, onde frequentou a Voz do Operário, viveu no Algarve, onde tomou contacto com os alvores do capitalismo luso, mudou-se para Almodôvar, onde pôde “conhecer” os operários rurais, passou por Macau, onde se cruzou com a esquerda de sucesso, e acabou a estudar em Coimbra, onde foi aluna do professor Boaventura. Aí, tendo primeiro optado pela Psicologia, decidiu depois, com muita sabedoria, mudar-se para Sociologia, segura de que nenhum de nós precisa de tratamento – a sociedade é que precisa, a ver se deixa de corromper-nos. Digam lá que não é o orgulho de qualquer pai. É claro que nunca deu uma gargalhada – mas, que diabo, um país que discrimina os deficientes, os negros e as pessoas incapazes de rir não é país nem é nada. Se o que querem é pândega, olhem bem para Ana. Ninguém pode dizer que não é bem mais gira do que Louçã, embora tenha o mesmo ‘sex-appeal’ que ele.

Leio sobre o projecto do BE para promover Ana Drago a líder parlamentar e não tenho dúvidas: é a escolha certa. Um partido que defende a cannabis e praticamente se remete ao silêncio sobre o frango de cabidela é um partido que sabe colocar a necessidade acima da fruição. E a necessidade, numa altura em que o ritmo do debate é marcado por um homem como José Sócrates, ‘jogger’ imputrescível, é ter à frente de cada bancada o que de mais parecido houver com uma ‘Stepford wife’ dos tempos em que as esposas já venceram a sua condição de esposas. Quanto ao resto, digam-me vocês se não vos inquieta o nível de assepsia a que chegaram a nossa classe política e os seus dirigentes. Digam-me vocês se não vos inquieta que os líderes dos cinco partidos com assento parlamentar (esqueço-me sempre dos Verdes, acho que é de propósito) seja gente tão plúmbea como Sócrates ou Menezes, Jerónimo, Louçã ou mesmo este novo Portas. Digam-me vocês se não vos inquieta que, depois de Pires de Lima ou Miguel Portas, já de si produtos menores da idiossincrasia, o tipo mais carismático da política portuguesa seja agora o ministro Manuel Pinho. Digam-me vocês se não vos custa ouvir Pedro Silva Pereira, Isabel Pires de Lima e Nunes Correia falarem todos com aquelas sincopizaçõezinhas artificiais do chefe, vincando as sílabas átonas com dois dedinhos esticados, em forma de alicate, como se assim conseguissem beliscar o coração do povo.

Na semana passada, de passagem por Sintra, conheci uma jardineira que me contou sobre o “intigamente” e outras coisas “muit’antigas”. Tinha um sotaque da Beira Baixa e não me falou uma só vez sobre partidos. Tenho a certeza de que sabe onde fica o seu ponto G.


CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 26 de Janeiro de 2009

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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