Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2012
publicado por JN em 4/1/12

O Cantinho do Avillez não é bem um cantinho: é uma montra. E não é bem uma casa de petiscos: tem petiscos. Mas, se é tão artificial, tão construído, porque é que nos apetece voltar lá logo no dia seguinte?

 

Por alguma razão que desconheço, mas a que gosto de chamar absurda, os chefs transformaram-se nas supremas estrelas pop do nosso tempo – e este chef em particular, José Avillez de sua graça, complica-me desde o início com os nervos. É jovem, é bonito, aparece nas revistas, apara a barba com uma precisão com que não posso sequer sonhar e, ainda por cima, tem dupla consoante no sobrenome. Basicamente, está mesmo à morte para uma pequena exibição de desdém classista e desonestidade intelectual, missão a que um cronista rural que se preze, quando posto perante o mais moderninho dos moderninhos, não deve furtar-se nunca. E o facto de eu vir das compras natalícias, afogueado pela subida da Rua Garrett com sacos de plástico às costas e louco ainda por voltar ao balcão da FNAC e dizer umas verdades à rapariga que me embrulhou mal um livro após quarenta minutos numa fila, só vem apimentar o cocktail.

Para mais, entro e sou logo posto no meu lugar: “Tinha marcado para as 13.00, não era? E disseram-lhe que tem de libertar a mesa até às 13:45?” É tudo o que quero ouvir. Faço cara de mau, ergo o nariz e vou sentar-me, cheio de fel. Ao lado, três balzaquianas demasiado bem vestidas para a ocasião, e sem qualquer intimidade entre si, trocam sorrisos e presentes de Natal (máximo de dez euros, proibido ultrapassar), num esforço para fazer amigas na empresa. À volta fala-se alto, com um sotaque muito afectado – e, quando eu pergunto se há vinho a copo e o empregado musculoso me diz que sim, mas que tenho de escolher entre “25 referências” (“25 referências”, meu Deus, pode-se ser mais armadinho do que isso?), já estou a afiar a faca, todo eu em Anton Ego (esse mesmo: o crítico do Ratatui). Decididamente, ou me servem a comida mais caseira do mundo, evocativa da que a minha mãe e a minha avó e as mulheres da minha família até há pelo menos cinco gerações serviam aos seus mancebos, ou isto não vai acabar bem.

Quando bebo o primeiro gole do vinho da casa, JA, um Sirah de 2007 feito a meias entre o próprio chef  e José Bento dos Santos, sou acometido da primeira hesitação. Os fígados de aves salteados com uvas e Porto, que escolho para entrada, ainda me trazem de volta a esperança: comi e babei por mais, mas sempre pude dizer a mim próprio que a versão do Café do Chiado, meia dúzia de portas acima, é melhor, com os fígados cortadinhos e o foie gras demarcando território. Mas, no momento em que provo o hamburguer com cebola caramelizada, um belíssimo bife picado de carne barrosã, com umas tão generosas 300 g que quase não consigo comê-lo até ao fim (e logo eu!), baixo as últimas defesas. E, tão depressa saboreio a minha Avelã3 (lê-se Avelã Ao Cubo), com gelado de avelã, espuma de avelã e avelã ralada, para que apesar de tudo ainda arranjo um cantinho – é um trabalho duro, mas alguém tem de fazê-lo –, estou pronto a juntar-me ao coro dos que, de Norte a Sul do País e até lá fora, incluindo Nova Iorque, vão endeusando José Avillez.

Bem vistas as coisas, € 36 por um simples almoço de quarta-feira pode ser uma pechincha. Como é que o chef aparará aquela barbinha, afinal?

 

RESTAURANTE CANTINHO DO AVILLEZ

Rua dos Duques de Bragança, nº 7, 1200-162 Lisboa

Tel: 211992369

 

Cozinha tradicional e de autor. Estilo/atmosfera: informal chiq. Vinho a copo. Não fumadores. Reserva aconselhável. Aberto à segunda-feira das 19.30 às 24.00; de terça a quinta-feira das 12.30 às 15.30 e das 19.30 às 24.00; e à sexta-feira e sábado das 12.30 às 15.30 e das 19.30 às 01.00. Fecha aos domingos. Preço médio: € 30

O LUGAR

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Redondezas {#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}

Vista {#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}

Decoração {#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}

O SERVIÇO

Atmosfera {#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}

Know-how {#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}

Carta de vinhos {#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}

Aperitivos e digestivos {#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}

A COMIDA

Produtos {#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}

Confecção {#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}

Quantidade {#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}

Qualidade/preço {#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}

 

Crónica gastronómica ("Restaurantes"), Notícias Magazine, 1 de Janeiro de 2012

Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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