Sábado, 31 de Julho de 2010
publicado por JN em 31/7/10



A morte de António Feio é lamentável. António Feio era um actor talentoso e uma personalidade ternurenta – e, numa altura em que a arrogância é cada vez mais um disfarce para a falta de talento, torna-se duplamente triste vê-lo partir. Mas tão lamentável como a sua morte é constatar a forma como a TV e a imprensa escrita, a rádio e até o cinema se aproveitaram da sua fragilidade neste ano e meio, persuadindo-a uma recta final de vida especialmente conspícua, que será útil à sua memória imediata, mas em nada favorecerá a sua memória futura.


Dirão muitos que esta morte em público “ajudou a consciencializar-nos” quanto ao cancro no pâncreas. Mentira. Se de alguma coisa sempre estivemos conscientes, foi da existência do cancro – e, quanto ao cancro pancretárico propriamente dito, ficámos todos na mesma, ignorantes ainda quanto a causas e sintomas (embora talvez mais cientes de que mata quase sempre). Dirão outros que, se António Feio viveu a sua doença em público, foi porque quis. Concedo: ele qui-lo. Mas não quis tudo o que aconteceu – e, aliás, mesmo querendo, várias coisas não deviam ter chegado sequer a ser-lhe propostas.


Ao longo de um ano e meio, António Feio foi entrevistado, condecorado e até ouvido para um trailer cinematográfico inédito. Mas também foi convidado para programas tontos, questionado sobre como se sentiu perante a morte de Patrick Swayze e usado para quase tudo o que foi dossier e caixinha sobre “famosos aflitos”. Aceitou quase sempre, suponho, porque estava desesperado, o que é o mais humano de tudo. Já nós, profissionais dos media, fomos oportunistas, mesmo obscenos – e devíamos todos ter vergonha de ter feito dele uma mascote.


CRÓNICA DE TV ("Crónica TV"). Diário de Notícias, 31 de Julho de 2010

1 comentário:
De Margarida a 23 de Agosto de 2010 às 18:42
É bonito incluíres-te, com o 'nós'. Mas, que me tenha apercebido, não contribuíste para nada do que apontas. Mas fizeste bem - usar o plural de classe, quero dizer.
O resto..., assistiu aos programas quem quis (eu não), comprou e leu as revistas com as peças quem entendeu fazê-lo (nope, not me).
Ele procedeu como entendeu, como todos, por certo, e sempre com as melhores intenções, não duvido.
Quem passa por mágoas destas, sobretudo sem regresso, sem possibilidade de cura, não se atreve a desenhar já de nada. Mesmo quem só 'acompanha' esse trajecto denso, pesado, macerado.
Quem sabe não foi uma forma dele se 'ligar' à vida, de deixar ainda mais raízes; quem sabe se não ganhámos (mesmo quem não 'cedeu' a tanta exposição) outro sentimento sobre tudo o que nos rodeia...
São os exemplos, os testemunhos, que às vezes nos salvam.
Há muitas formas de se amar o próximo.
Ele 'ficou', vês? Mais do que quereria (pela razão) e, creio, menos do que mereceria (pelo valor e bravura).
A vida é breve.
E confusa.
Abraço.
M.

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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