Sábado, 8 de Maio de 2010
publicado por JN em 8/5/10

O já famigerado “acto irreflectido” de Ricardo Rodrigues, autor do inusitado “furto de gravador” que ofereceu à Sábado o furo da semana (o que seria inesperado até para a própria), não é um gesto serôdio apenas porque evoca esses tempos velhinhos em que eram os entrevistados a decidir qual o momento em que começa e qual o momento em que acaba uma entrevista. É um gesto serôdio também porque evoca esses tempos igualmente velhinhos em que uma entrevista era feita apenas com um gravador ou uma esferográfica em punho, sem que o olhar, o ouvido ou mesmo apenas uma câmara de vídeo servissem para contar algo mais do que as meras palavras trocadas entre jornalista e entrevistado.</p>

Na verdade, a gaffe de Ricardo Rodrigues é um alerta para todas as figuras públicas, inclusive de âmbito político (precisamente aquelas que, às vezes, mais demoram a aperceber-se da marcha do tempo). Uma entrevista, hoje, não é apenas uma entrevista. Os repórteres sabem que não pode sê-lo – e estão atentos. Entretanto, os editores pedem-lhes que tragam mais, incluído a narração das hesitações e dos risos, as fotos de bastidores e até imagens em vídeo para complementar o trabalho no site da publicação. E a uma figura pública só resta uma de duas coisas: ou ser natural em todos os seus gestos, na certeza de que não tem o que quer que seja a esconder; ou ponderar cada palavra, cada movimento e cada olhar, na certeza de que, tendo alguma coisa a esconder, ela facilmente será captada pela diversidade de técnicas e de meios que o repórter tem à sua disposição.


Talvez tudo isto seja irónico e cruel. Mas é suposto que os nossos servidores públicos não tenham perguntas tabu – ou não será?


CRÓNICA DE TV ("Crónica TV"). Diário de Notícias, 8 de Maio de 2010

1 comentário:
De Carlos Santos a 9 de Maio de 2010 às 16:19
Realmente, já um jornalista pode fazer o seu trabalho, que no fundo é fazer perguntas. Se ele não estava preparado para responder azar o dele. Espero que este senhor seja penalizado por este acto.

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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