Quinta-feira, 6 de Maio de 2010
publicado por JN em 6/5/10

O mínimo que se pode dizer dos relatos que o Canal Benfica faz dos jogos do clube lisboeta é que são desconcertantes. Ao longo de hora e meia, um narrador e um comentarista sentam-se com um televisor em frente e vão relatando para a câmara o que está a acontecer no campo onde joga o Benfica. Lá atrás, colocado de forma que os espectadores tenham uma ideia das imagens mas nem por isso o seja violada a exclusividade de direitos, outro ecrã está sintonizado no canal que efectivamente transmite o jogo. E, entretanto, narrador e comentarista vão descrevendo os acontecimentos em jeito de rádio local em dia de competições europeias: de forma perfeitamente amadora e gritando em delírio os golos do “Glorioso”, enquanto apenas sussurram os golos do adversário.


Se lhe chamo desconcertante, é porque não sei sequer dizer se o modelo é bom ou é mau. Quer dizer: é claramente mau. Por outro lado, é tão claramente mau que, no limite, pode ser também um interessante exercício sobre as potencialidades e as limitações da televisão, esse meio hoje tão heterogeneizado que dois terços dos seus fenómenos podem sempre ser abrigados sob o guarda-chuva do “experimentalismo”. Facto: os relatos do Canal Benfica podiam muito bem ser uma invenção de uma estação local transmitida pela Internet; e também podiam ser um programa da SIC Radical, caso em que teriam efectivamente muita graça.


De maneira que, antes de decidir, mais vale passar por lá este domingo. Se o Benfica ganhar 5-0, serão cinco as oportunidades de ver aqueles dois homens aos gritos delirantes. Se perder, então é provável que assistamos a uma sucessão de afrontamentos em directo. Em qualquer dos casos, far-se-á História.


CRÍTICA DE TV ("Crónica TV"). Diário de Notícias, 6 de Maio de 2010

Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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