Terça-feira, 23 de Fevereiro de 2010
publicado por JN em 23/2/10

É talvez o melhor programa de culinária a que, por estes dias, temos acesso na televisão portuguesa – e é, muito provavelmente, a mulher mais sexy que nos entra diariamente em casa. Talvez essa sensualidade tenha a ver com o sotaque britânico de Nigella Lawson. Talvez tenha a ver também com as suas formas generosas. Mas tem seguramente muito mais a ver com a forma como ela prova os seus próprios cozinhados. Como ela os devora.


Nigella Bites, magazine da BBC que a SIC Mulher exibe todos os dias em diversos horários, é uma pequena pérola de simplicidade, de instrução e, já agora, de erotismo. Esteja num estúdio de televisão, esteja em viagem pelos Antípodas ou esteja apenas no seu apartamento de Londres, Nigella está sempre a experimentar e está sempre a sorrir. Tem 50 anos (ou 45, uma vez que os programas actualmente em exibição são de 2004/2005), mas parece uma rapariga de 30, talvez até menos do que isso.

O programa não tem um modelo definido. Há passeios, há entrevistas, há declarações em tom explicativo na direcção da câmara. No fim, porém, resta sempre a gula: aquele olhar que Nigella faz para a sua obra, o imenso desejo que sente por ela, o ardor com que se entrega à prova (eu ia dizer degustação, mas é palavra estilizada de mais) da iguaria que acaba de preparar. E, lá pelo meio, quase sempre, a mesma declaração, acompanhada de um sorriso: “Vocês já sabem que a minha preocupação com a higiene não é grande coisa…”

“Higiene”, ali, quer dizer “pompa” (a “pompa” dos gourmets, isto é). E quer dizer também “artificialidade”, “convenções sociais”, mesmo “saúde”. É hedonista, claro. E é perigoso, numa sociedade que engorda todos os dias. Mas sabe tão bem…


CRÍTICA DE TV ("Crónica TV"). Diário de Notícias, 23 de Fevereiro de 2010

2 comentários:
De Margarida a 24 de Fevereiro de 2010 às 13:20
Ena! Linda!
Nunca assisti, mas já outro cavalheiro se referiu a ela esta semana nestes meandros.
Será que - finalmente! - os infantes começam a apreciar uma mulher com curvas?!
Era bom.
Para todos.
De Susana Gaspar Gardete a 24 de Fevereiro de 2010 às 18:41
Este programa é maravilhoso!
Também gosto muito de vê-la. Tem um ar de quem se está nas tintas para o que nos é imposto pelas normas, quer da moda quer da sociedade ou até mesmo da saúde... Num desses programas assisti com perplexidade a coisas como exibir uma orelha de porco que diz comer sozinha, como uma guloseima, em dias de neura! E a justificar o facto de se oferecer para cozinhar para toda a gente, fazendo-se de mártir, quando na verdade o que pretende é esquivar-se de tomar conta das criancinhas!
A meio da noite assalta o seu frigorifico e come os restos com as mãos sem nunca perder a sensualidade.

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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