Sexta-feira, 19 de Fevereiro de 2010
publicado por JN em 19/2/10

Quando estreou em França, em 2007, Segredos (Cada Mulher Tem Um Segredo) (Suspectes: Chaque Femme A Un Secret, no original), produzida pela M6, foi quase um happening: uma importante declaração de vitalidade por parte da ficção televisiva francesa. Daí que haja algo de interessante em vê-la agora exibida diariamente na RTP1, ainda por cima num horário que, sendo late night (01:00), não deixa de torná-la acessível ainda a muita gente, até porque o padrão dos horários laborais se alterou nos últimos anos.


E, no entanto, são muitos os defeitos. A realização é relativamente ágil, a banda sonora resulta bastante bem, o ritmo funciona. Mas as actrizes são fracas, os diálogos são pobres, o dilema é demasiado batido, as personagens também – e, sobretudo, a intriga é mal gerida, lançando pistas nos momentos errados, atando nós que depois se esquece de desatar e acorrendo a demasiados clichés do género para conseguir conservar o interesse do início ao fim de um só episódio.

“Deus está nos pormenores”, diz a velha frase de van der Rohe – e o facto é que, quando se trata de ficção policial, está mesmo. Pois o que a equipa da M6 mostra aqui é que não sabe manipulá-los. Ora, por muito que nos seja agradável escutar a língua francesa na nossa televisão generalista, tão ela cheia de inglês e das suas muitas variantes, é difícil dissociar esse fracasso da tentativa de fazer “à americana”, misturando Desperate Howsewives, 24, Nip Tuck e sabe-se lá mais o quê num seriado apenas.

Mas porque é que a ficção francesa precisa de fazer “à americana”, se ainda há pouco tempo era o mais sólido e respeitado contraponto ao império audiovisual de Hollywood?


CRÍTICA DE TV ("Crónica TV"). Diário de Notícias, 19 de Fevereiro de 2010

Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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