Sábado, 15 de Agosto de 2009
publicado por JN em 15/8/09

Por acaso há algumas vantagens nesta coisa da gripe. Uma delas é a possibilidade de fugir a compromissos chatos. Só nos últimos dois meses, esquivei-me a três consultas no dentista, seis apresentações de livros e um jantar de antigos colegas de liceu, acamaradamento em que costumo passar metade do tempo a tentar lembrar-me do nome dos circunstantes e a outra à procura de mnemónicas para decorar os das crianças que eles vão mostrando no telemóvel. Por esta altura, já vou chamando “Santiago” a todos os rapazes e “Vitória” a todas as raparigas, o que me permite uma taxa de sucesso de cerca de sessenta por cento. Mas chateia. “Então, Joel, não vens outra vez?!” “Acordei cheio de tosse. Espero que não seja a gripe…” “Ah, então é melhor não vires!”

Outra vantagem é esta coisa da higiene das mãos.  Ainda no outro dia fui confrontado com um estudo do Conselho de Higiene, e os resultados eram desconcertantes. Segundo a sondagem, um quarto dos portugueses não lava as mãos antes de comer e um décimo não lava as mãos depois de urinar. Os desconcertos são dois. Primeiro: os portugueses efectivamente não lavam as mãos. Segundo: os portugueses são uns mentirosos, porque a percentagem dos que não lavam as mãos depois de urinar é muito maior do que isso.

Raramente vou a uma casa de banho pública. Não preciso dizer porquê: embora a coisa seja ainda pior em países para que olhamos com reverência, toda a gente sabe como são as casas de banho púbicas em Portugal. Ocasionalmente, porém, sou acometido de uma urgência. Se for apenas number one, arrisco. E, então, a estatística é sempre a mesma: nenhum português lava as mãos no fim. Nenhum. No shopping e no hospital, no restaurante e na biblioteca: urinam longamente (regra geral apoiando a mão direita sobre o urinol), sacodem-se num estertor, puxam o zíper e vão-se embora. Às vezes ainda se aproximam do lavatório, mas é para se pentearem. Alguns chegam a abrir a torneira, enchendo-me de esperanças – mas depois molham dois dedos, ajeitam um cabelinho que se evadiu pelo flanco da orelha e seguem caminho.

Eu imagino porquê: o pénis é sagrado – e, quando se toca numa coisa sagrada, o melhor é não lavar as mãos, para não desfazer o sortilégio. Para mim, que sou ateu, é mais complicado. Sempre me tossiram para cima e sempre me aguentei com isso. Sempre me mandaram perdigotos para a cara e sempre me esquivei com elegância. Urina é outra coisa. E, portanto, há muitos anos que vivo no pânico de encontrar um conhecido numa casa de banho pública, vê-lo urinar, detectar a minha presença e esticar-me um caloroso passou-bem. Pois agora sempre posso dizer “Olá!”, rejeitar o aperto de mão e ainda reclamar que foi no interesse dele. “Por causa da gripe, bem vê…”

Só ficam a faltar as maçanetas da porta. Passei anos a estudar a técnica ideal para livrar-me das maçanetas das portas das casas de banho públicas. Nos últimos tempos, vinha usando aquele a que gosto de chamar “O Golpe À Fred Astaire”: fazia chichi, lavava as mãos, dirigia-me à porta e estacava. Se entrasse a senhora da limpeza, com o seu carrinho de detergentes, era o diabo: tinha de fazer de conta que me tocara o telefone. Entretanto, ficava à espera de que mais alguém abrisse a porta. E, quando isso acontecia, simulava um súbito instante de constrangimento, passa Vossa Excelência ou passo eu e, ups, um passinho à Fred Astaire, passava eu – e lá estava de novo a passear-me pelos corredores, lampeiro, sem ter sequer precisado de abrir a porta do WC com as minhas próprias mãos.

Pois, agora, tudo isso acabou. Não é que os meus concidadãos tenham passado a lavar as mãos. No essencial, a sua rotina é a mesma: fazem chichi, compõem-se, penteiam-se e zarpam. A certa altura, ainda são assaltados pela consciência: “Eh, pá, e a gripe?” Mas rapidamente encolhem os ombros: “Oh, isto não passa de um alarmismo tonto…” Basicamente, continua tudo a passear-se pela rua (e a cumprimentar os amigos e a comer as pipocas no bar) com as mãos cheias de vírus e (sobretudo) de urina. Já se sabe: se alguém conspurcar alguém, são eles que conspurcam os outros, não o contrário. Entretanto, porém, já ninguém estranha que eu abra as portas da casa de banho com o papel higiénico que vou roubar à privada. E, quando for preciso recorrer ao plano B, o gel alcoólico de marca francesa que agora trago no porta-luvas, já ninguém mo levará a mal também.


CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 15 de Agosto de 2009

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2 comentários:
De Manuel da Silva Carvalho a 16 de Agosto de 2009 às 20:57
Pode-se estudar técnicas para se livrar das maçanetas, lavar as mãos até à exaustão, pôr máscaras ou fazer trinta-por-uma-linha . Se o vírus tiver de vir mesmo até nós temos de o aceitar de sorriso aberto, isolarmo-nos por apenas sete a oito dias e tratarmo-nos como de uma gripe normalíssima.
De filipa a 8 de Setembro de 2009 às 17:45
Descobri este blog há pouco tempo e gosto dos seus posts (não leio a NS).

E não resisto a comentar que talvez a estatística da lavagem das mãos depois de urinar seja da exclusiva responsabilidade das mulheres. Eu também evito as casas de banho públicas, mas acabo por lá aparecer de vez em quando, até porque tenho crianças com maiores urgências. E vejo praticamente toda a gente a lavar as mãos. Será que é porque, neste país tão pobremente machista, estão mais habituadas a lavar coisas e a lidar com a sujidade, e por isso têm mais a noção da importância da água e sabão, e da higiene em geral? Arriscaria que sim…:-)

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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