Sexta-feira, 15 de Janeiro de 2010
publicado por JN em 15/1/10

A provável saída de Marcelo Rebelo de Sousa da RTP é lamentável, mas esperada. Lamentável porque, num contexto de empobrecimento do horário nobre da RTP1, os seus comentários representavam um dos raros momentos em que o espectador era instado a tomar consciência do mundo que o rodeia, fintando o alheamento proposto pelas “variedades”. E esperada porque, para além das manifestações de desagrado do próprio em relação aos horários que o canal lhe reservava, a verdade é que Marcelo nunca conseguiu reeditar, na estação pública, o impacte transversal que conseguira na TVI.


É pena ver desfazer-se a dupla com Maria Flor Pedroso, a sua melhor interlocutora nestes anos todos. De resto, Marcelo mantém os méritos dos melhores tempos. Tem excelente noção do ritmo televisivo, um perfeito sentido de timing na gestão da punchline e a sábia consciência de que as emoções do público devem ser geridas em ciclos, com altos e baixos, momentos para rir e momentos para pensar. É claro e é malicioso ao mesmo tempo, é assertivo e é sonso logo a seguir – e nunca se esquece de que, lá em casa, entre a massa informe que o acompanha, há gente de todos as sensibilidades e dimensões intelectuais. Mal faz a SIC se não o disputar à TVI, aliás.

E, no entanto, o seu novo interlocutor, qualquer que ele seja, terá de estar atento à carregadíssima agenda de interesses políticos que o professor tem para gerir nos próximos anos. Que Marcelo renderá audiências, não duvido. Mas, exposto neste momento ao stress de uma mudança de antena, fica provavelmente à beirinha de transformar-se naquilo a que os anglo-saxónicos chamam um loose cannon (ou um “canhão perdido”). Alguém tem de protegê-lo. A ele e a nós.


CRÓNICA DE TV ("Crónica TV"). Diário de Notícias, 14 de Janeiro de 2010

2 comentários:
De jorge espinha a 16 de Janeiro de 2010 às 15:19
Caro joel

É triste , porque é mais um exemplo de controleirismo do governo Sócrates. Para o partido socialista , liberdade é só e apenas uma palavra.
Mas nunca fui fã , nem tive alguma vez paciência para o professor Marcelo. Curiosamente , creio que o professor é infinitamente muito mais nocivo ao PSD do que ao PS, o que prova o nível de cretinismo intelectual a que o PS de sócrates chegou. O professor Marcelo foi sempre homem de recadinhos, apartes, facadinhas nas costas e pontapés por baixo da mesa. O comentário político quando proveniente de membros de partidos políticos (principalmente se nutrem aspirações a líder) , deixa quem o ouve intrigado em relação ás motivações do comentarista. Depois da sua passagem pela liderança do PSD , admira-me que o estimado Professor ainda queira influenciar a vida interna do partido. O seu desempenho foi um falhanço, e desculpem-me o recurso a uma comparação futebolística , se fosse um jogador de futebol Marcelo seria o Dominguez , futebol com muitas fintas , muito tecnicista mas sem efeitos práticos.
Goste-se ou não se goste de Vasco Pulido valente ou Miguel Sousa Tavares, as suas opiniões são deles , são independentes sem segundas ou terceiras intenções e não servem para enviar recados a clientelas.
Não posso ter saudades de quem não me faz falta nenhuma.


De SC a 17 de Janeiro de 2010 às 00:42
Descansem que o melhor e maior teórico da política aparecerá brevemente num qualquer outro ecrã muito perto de si.

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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