Quinta-feira, 13 de Agosto de 2009
publicado por JN em 13/8/09

O FC Porto e o Benfica estão muito mais fortes do que o Sporting, e eu posso dizê-lo à vontade. O presidente do Sporting não pode. Se o fez porque efectivamente acredita que o Sporting é de longe o mais frágil dos três supostos candidatos ao título, é mau sinal: significa que o plantel está suficientemente fraco para que o argumento colha. Se o fez para retirar pressão sobre a equipa, é pior ainda: significa que ainda não percebeu que, se há uma coisa de que Paulo Bento e os seus jogadores bem precisam, é de alguma pressão.

Neste momento, a exigência a que o Sporting é submetido é igual a zero. Os adversários não esperam muito dele. Os jornais esperam pouco mesmo. Os adeptos não esperam nada. E este não é apenas o maior problema que o clube vive neste momento: é verdadeiramente o mais estrutural dos seus muitos problemas. Há quinze anos, o Sporting estava falido, desactualizado e sem rumo. Agora, não está nenhuma das três coisas: actualizou-se, começa a dominar a sua situação financeira e, aparentemente, encontrou um rumo. Mas esse rumo leva-o para longe da realidade. O Sporting, neste momento, não é um clube de futebol: é uma empresa. Uma fábrica. A laborar lá longe, em Alcochete, onde treinador e jogadores têm cada um o seu próprio quarto, com internet wireless, minibar e televisão por cabo – e onde nenhum adepto pode entrar para chamar-lhes nomes.

Eu acho que João Moutinho e Liedson e Rochemback e Polga  e Paulo Bento precisam que se lhes chame nomes. Precisam de conhecer os rostos daqueles que lhes chamam nomes. E precisam de saber os nomes daqueles que lhes chamam nomes. Manuel Rodrigues, pedreiro de Montalegre. Paulo Jorge Fonseca, técnico de informática de Armação de Pêra. Dalila Pereira, profissional de seguros do Porto. André Corte Real, gerente bancário de Lisboa. As pessoas que se angustiam todos os dias com isto têm nomes. As pessoas que aos sábados à noite se sentam ao frio do estádio têm nomes. Na última meia década, foram ostensivamente ignoradas: nem discurso havia. Este ano, são tratados como massa informe, o que é exactamente a mesma coisa: há discurso, mas não há acção.

O problema é este: o Sporting está igualzinho. E o mais cómico é que ninguém tenha percebido que era isso que a palavra “continuidade” queria dizer: que ia ficar igualzinho.


CRÓNICA DE FUTEBOL. Jornal de Notícias, 13 de Agosto de 2009

1 comentário:
De SC a 14 de Agosto de 2009 às 00:20
Eu cá p`ra mim a reza daquele supra sportinguista vai dar certo! Tudo irá ser muito diferente!

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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