Sexta-feira, 14 de Agosto de 2009
publicado por JN em 14/8/09

Fracassada a experiência na TVI, ficamos à espera das manobras de Herman José para tentar apresentar um programa no AXN, na TV Record ou no Canal Benfica. Herman tinha toda a vantagem em refugiar-se agora na rádio, na Internet, mesmo nos espectáculos ao vivo – cinco anos nas margens da actualidade, até ser recuperado como um fenómeno de culto, primeiro com direito a programa (por exemplo) na SIC Radical, depois com convites para aparecer (pelo menos aparecer) em todo o lado. Mas não quer. Ainda agora, no momento em que se soube que Nasci P’ra Cantar acaba a 13 de Setembro, a primeira coisa que deixou clara foi que pretende dedicar-se aos espectáculos ao vivo, mas ainda na expectativa de ter um talk show.”

A persistência vai deixando de ser criticável para passar a ser penosa. Por esta altura, já é como se Herman não pudesse mesmo dispensar-se da televisão. E a única esperança que podemos ter, em seu favor, é que as suas motivações sejam financeiras. Trate-se de repisa (do tipo “Comeram-me a carne, agora roam-me os ossos”) e Herman valerá um livro. Trate-se de ego e solidão (do tipo “Que sentido tem agora a minha vida sem isto?”) e valerá uma enciclopédia. Em qualquer caso, é já, por esta altura, a nossa melhor história de ascensão e queda no domínio da televisão. Por acaso, não estamos mal: ainda levámos 50 anos a fazer a primeira grande vítima. A não ser que Zé Maria também conte – e, então, já nem esse título Herman poderá ostentar.


CRÓNICA DE TV ("Crónica TV"). Diário de Notícias, 16 de Agosto de 2009

1 comentário:
De ana celeste mendes a 15 de Agosto de 2009 às 16:32
Mesmo que o Zé Maria lhe arrebate o primeiro lugar (o que até me parece pouco provável, tendo em conta que o tempo de intervalo entre as galinhas que o levaram ao Olimpo e os gatos que lhe anunciaram a ruína, indica estarmos, sobretudo, perante uma realidade meteórica) a queda de Herman José parece incontestável. E tristonha. Para mim, que sempre me habituei a vê-lo como um rapaz fortalhaço , capaz de todas as contra-convenções , e que não me fazia sentir vergonha exactamente pelo seu humor fino e pela sua inteligência, esta insistência em aparecer, em tentar encontrar modelos de espectáculos alternativos mas que não funcionam, parece-me desespero de causa. Hoje Herman evoca-me aqueles casais que estão prestes a separarem-se mas em que um dos membros rasteja perante o outro, de modo a tentar salvar uma relação que sabe, desde já, acabada. Pensei que Herman não precisasse disto. Pelos vistos pensei mal.

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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