Quinta-feira, 14 de Outubro de 2010
publicado por JN em 14/10/10

No futuro, talvez se torne regra dizer aquilo que ontem pensei, ao jogar ao lado de Matteo Manassero: “Este miúdo é um ball striker incrível, mas tem um jogo curto quase tão mau como o meu.” E, no entanto, estou muito mais inclinado para outra hipótese: a de eu poder vender um dia por um milhão de euros a fotografia em que estamos juntos, de resto na companhia dos restantes dois elementos da nossa formação do pro-am, Orlando Macedo e Diogo Louro – e que hoje mesmo, ao arrepio de um princípio que estabeleci logo na adolescência, lhe pedirei que me autografe.

Há um velho aforismo de golfe, criado por Leon Griffiths que vale para quase tudo. “O golfe é como um caso de amor. Se não o levas a sério, não tem piada nenhuma. Se levas, parte-te o coração”, dizia Griffiths. Pois o princípio aplica-se a qualquer jogo ou competição, menos a um pro-am. Num pro-am, os amadores procuram obter tantos birdies net quanto consigam, mas sobretudo não querem ser eles a provocar o declínio da equipa. Já os profissionais tentam oferecer aos seus amadores o melhor de si, mas em nenhum caso deixar de tentar sobretudo concatenar o campo para as quatro rondas competitivas que começam no dia seguinte.

No fim, dá-se esse contra-senso: perder não nos parte o coração (o que não deixa de ter o seu constrangimento), mas em todo o caso foi um dia com piada. E jogar ao lado de Matteo Manassero tem efectivamente piada. Porque, primeiro, olhamos para ele, com a sua carinha bochechuda de bebé pontilhada por uma miríade de borbulhas de acne, e sentimo-nos na presença de um adolescente. E porque, depois, é ele quem sai das marcas de campeonato, dois quilómetros lá atrás – e somos nós, homens de barba rija, quem sai dali das amarelinhas, com o coração nas mãos, em esforço perante a necessidade de um carry de 190 metros, aflitos porque há um lago à esquerda.

A Matteo Manassero, apetece levá-lo para casa, dar-lhe livros para ler, explicar-lhe como se faz a barba, ajudá-lo com o TPC, contar-lhe o pouco que sabemos sobre as mulheres. E apetece também dar-lhe um par de palmadas quando falha um putt que até nós metíamos, quando deixa um chip-and-run comprido e num downslope – e, ainda assim, continua a sorrir, ignorante de que num putt desses estará um dia, para ele, a diferença entre o Céu e o Inferno. Não vale a pena: é deixá-lo sorrir enquanto pode. Algures, também ele aprenderá o medo – e, então, há-de haver momentos em que trocaria dez anos de vida pela oportunidade de sair das amarelas. Será essa a nossa vingança. Modesta, mesmo assim.

CRÓNICA (Especial Portugal Masters)

O Jogo, 14 de Outubro de 2010

(imagem: © www.dn.pt)

Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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