Sábado, 31 de Julho de 2010
publicado por JN em 31/7/10

1. Um caddie como o José Carlos Fagundes não é apenas um caddie: é também um amigo – e é, sobretudo, um jogador de handicap 4, habituadíssimo a igualar o par do campo (e cheio de memórias, aliás, sobre os muitos dias em que o superou). De forma que jogar com ele no meu saco não foi apenas não foi só uma maneira de ver-me livre do peso dos tacos, mesmo que as subidas do 6 e do 7 do campo de golfe da ilha Terceira cheguem para deixar sem fôlego o Michael Phelps. Foi uma verdadeira experiência de golfe – e foi magnífica.

Ao longo de seis dias, incluindo sete rondas de 18 buracos (há várias notícia sobre as competições em causa noutros locais desta edição, embora muito me agradasse que não fizessem comentários sobre o resultado de pelo menos uma delas), eu joguei golfe acompanhado de um caddie. Fi-lo durante uma ronda de treino, voltei a fazê-lo durante quatro rondas na Pinales Cup Presented by Golfe Magazine, fi-lo de novo ao longo do Campeonato Nacional de Clubes Mid-Amateur e filo, ainda mais uma vez, em nova ronda de treino. E a questão que me coloco é simples: como deixámos nós, afinal, morrer essa maravilhosa arte do caddying, hoje circunscrita ao Estoril, ao Oporto e a pouco mais?

Porque um caddie é de facto um investimento, principalmente se contratado de forma esporádica, para uma ronda ou outra apenas. Mas são tantas as vantagens que nem sei como me deixei chegar ao desespero antes de experimentá-lo. Um caddie que conheça o campo em que se está a jogar ajuda em rigorosamente tudo. Às vezes nem sequer ajuda: decide – e está quase sempre certo. O taco a jogar, o voo a escolher no ataque ao green, o contacto a aplicar num rough pesado, a linha a procurar num green difícil – um bom caddie sabe tudo. No fim, voltamos a jogar mal, mas apenas porque é assim que jogamos mesmo: mal. Pelo meio, tivemos com quem conversar, tivemos quem nos passasse uma água fresca após um mau shot e tivemos ainda quem nos falasse do tempo e do futebol e da crise internacional antes de uma pancada exigente, cheia de perigos.

Pode custar cinquenta euros, um caddie. Pode custar trinta e pode custar oitenta – e pode mesmo custar cem, duzentos, até trezentos, consoante o tempo que precisemos dele e as deslocações que ele tenha de fazer por nós. O facto é que, dando o passo à medida da perna, não há outra coisa senão benefícios em usar um caddie. Bater na bola e mais nada – eis o que sobra para nós. Sobra o golfe. Porque é que andamos todos aqui senão por isso?

 

2. De resto, e ao fim de uma semana de golfe nos Açores, a conclusão a que um homem chega é simples: ninguém joga golfe em Portugal como os açorianos, ninguém respira golfe como eles – e muito triste é esse homem lembrar-se que também é açoriano e, no entanto, não joga nem respira como os seus conterrâneos. Primeiro, na Taça Pinales, feita à imagem e semelhança da Ryder Cup (com a excepção de que metade dos matches eram jogados em net), um resultado esmagador: 22 pontos para o Grupo da Saca (da ilha Terceira) e escassos 6 para o 7Abaixo (da Aroeira). Depois, e no Interclubes Mid-Amateur, ao mesmo tempo um desagravo e uma recarga: Terceira em primeiro, São Miguel em segundo e doze equipas do continente nos restantes lugares da classificação.

É verdade que o golfe, nos Açores (sobretudo na Terceira e nas Furnas) tem as suas especificidades. É verdade que a relva é diferente, que os roughs húmidos implicam um touch completamente diferente, que a mais pequena variação na humidade relativa (e como as há nos Açores, de instante para instante…) não só condiciona as distâncias no fairway como, inclusive, muda radicalmente as velocidades no green. Mas não deixa de ser encantador assistir a um duelo daqueles. Primeiros a bater: os continentais, todos aprumadinhos, pólo da Ashworth, pantalona da Boss, um swing de ensaio prodigioso, todo cheio de estilo – e, no fim, como se fosse inevitável, o bogey da praxe. Últimos a subir ao tee, depois de terem dado a honra ao adversário: os açorianos, camisas um tanto garridas, tacos do tempo da Maria Caxuxa, grips invertidos, swings de ensaio todos tortos – e aí está o primeiro birdie do dia.

“É a diferença entre o golfe e o golf”, diz um amigo meu. E a maior mágoa que eu tenho é a de não ter sido eu a inventar a frase.

SCORECARD. Golfe Magazine, Julho de 2010.

Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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