Domingo, 18 de Julho de 2010
publicado por JN em 18/7/10



É inglesa, tem 36 anos e especializou-se em
Psicologia Desportiva Aplicada e Programação Neurolinguística. Na sua rotina, e para além das consultas em Londres, estão uma série de viagens à volta do mundo, acompanhando golfistas de todas as categorias e vocações. Um deles é Filipe Lima, o jogador português mais bem cotado no ranking mundial (e, de resto, novamente em dificuldades para segurar o seu cartão do European Tour).


 


“Apaixonada por desporto” e “altamente determinada  a ajudar os desportistas de elite a atingir performances sustentadas que lhes permitam pôr em prática o seu verdadeiro potencial”. Assim se define, no seu próprio curriculum vitae, Zoe Chamberlain, a psicóloga de Filipe Lima (e agora também de Ricardo Santos). Começou como proprietária de uma loja de alimentação natural, com a qual começou a receber prémios nacionais logo aos 18 anos, mas encantou-se com o golfe, começou a jogar e a ganhar torneios – e em breve estava a percorrer a via sacra académica em direcção ao estatuto de consultora psicológica desportiva que hoje o European Tour lhe reconhece. Nesta entrevista à J, resguarda-se no sigilo profissional e não explica se Filipe Lima está psicologicamente melhor ou pior do que quando começou a trabalhar com ela, no ano passado. Mas insiste que, depois da garantia de capacidade física e técnica, o maior desafio de um golfista é ser capaz de replicar em condições de torneio aquilo que faz no driving range. E que, para isso, a psicologia é fundamental.


Filipe Lima tem-se colocado este ano, durante as primeiras rondas de diferentes torneios, em posição de discutir a vitória, mas se chega a passar o cut acaba quase sempre por afundar-se no fim-de-semana. É um problema psicológico?


Infelizmente, não posso responder a questões específicas sobre o Filipe. A confidencialidade profissional é extremamente importante para um consultor psicológico desportivo. Sigo-me pelo código da British Association of Sport and Exercise Sciences, que é rigoroso.


Certo. De qualquer forma, muitos defendem que, do ponto de vista técnico, Filipe Lima é capaz de muito mais do que aquilo que tem produzido. O que é que lhe falta? Confiança?


Não posso mesmo comentar. Mas sei que ele é um jogador de classe mundial e que está a trabalhar duro para melhorar todos os dias.


Há quem argumente que a rotina dele, viajando frequentemente com a família e deixando-se seguir por ela ao longo de algumas rondas, prejudica a sua concentração. É justo dizer isso?


Insisto: não posso comentar.


Muito bem. Como chama aos jogadores com que trabalha: “clientes” ou “pacientes”?


Chamo-lhes “clientes”. Chamo-lhes “jogadores que escolhem, por auto-recreação, trabalhar comigo no sentido de melhorar a sua abordagem psicológica ao jogo”. Um paciente é alguém a receber tratamento médico. Não administro tratamento médico. Nem sequer estou qualificada para isso.


Bobby Jones costumava dizer que “o golfe é um jogo disputado num campo de dez centímetros: a distância entre as nossas duas orelhas.” É verdade? Quão importante é, no fundo, a psicologia no golfe?


O golfe é uma modalidade extremamente técnica e, sem uma boa técnica, nenhum jogador tem possibilidades de ser bem sucedido. Por outro lado, ter uma boa técnica no driving range é irrelevante se não se conseguir replicá-la depois em condições de torneio, sob pressão. É aqui que muitos golfistas falham. Todos os desportistas de topo enfrentam problemas psicológicos com relativa regularidade. No golfe, porém, é pior, porque há muito tempo para pensar entre shots. E é precisamente na forma como se usa esse tempo que pode residir a solução. Porque, ao contrário de uma série de outros desportos, como o futebol ou o ténis (que têm uma grande componente de reacção), no golfe é sempre o jogador a decidir exactamente quando vai executar o seu shot. É fundamental escolher o momento certo, o momento em que a mente e o corpo estão preparados para entrar em acção.


Em que medida um golfista é diferente de outro desportista qualquer?


Um golfista é parecido com qualquer outro desportista. O jogo é que é diferente.


Tem clientes de outros desportos?


Sim. Trabalho com desportistas de várias outras modalidades, incluindo o futebol, o cricket, o ténis e  o tiro. Muitos dos princípios que uso no golfe também se aplicam a essas modalidades. A minha base de trabalho é ajudar os atletas a perceber o que fazem quando jogam bem e o que devem fazer para conseguir repetir esse momento. Está tudo na consciência: quando mais altos os níveis de consciência, melhor. E o segredo reside quase sempre na rotina pré-performance, no golfe tanto quanto nos outros desportos. Agora, é claro que é muito importante que eu perceba as exigências individuais de cada modalidade e de cada atleta, tanto a nível físico como psicológico. O caso do golfe, por exemplo, é excepcional no que diz respeito à longevidade de uma carreira. Na maior parte dos outros desportos, um jogador já está retirado quando chega a meio da casa dos 30 anos. Se estiver bem fisicamente, um golfista pode jogar muito mais tempo. Isso é uma questão muito importante.


Receita medicamentos? Ou limita-se a falar com os seus clientes?


Falo um pouco, mas sobretudo ouço. Faço perguntas que os ajudam a perceber o que fizeram bem e como ainda podem melhorar isso que fizeram bem.


Tem havido algum debate sobre que tipo de drogas devem ser consideradas doping no golfe. Aparentemente, aquilo de que um golfista podia precisar é diferente daquilo de que tantos outros desportistas precisam. No fundo, drogas para relaxar, não para excitar. Quais são exactamente, na sua opinião, as substâncias que podem potenciar a performance no golfe?


Não é a minha área de especialidade. O ideal, quanto a isso, é falar com um médico ou um nutricionista.


Qual é a sua rotina? Viaja muito com os jogadores ou eles vão visitá-la a Londres?


Viajo com frequência para torneios do European Tour e do Challenge Tour, de forma a poder corresponder às necessidades dos mes clientes e de poder assistir ao seu trabalho de forma regular. Estou com eles no putting green, no driving range, na clubhouse, nas voltas de treino…Mas também os recebo em Londres, claro. Encontrarmo-nos longe dos torneios também é muito importante, sobretudo na hora de fazer balanços.


Como se interessou por esta área? Jogava golfe? O que estudou, exactamente?


Comecei a jogar golfe pouco depois dos 20 anos e fiquei logo “agarrada”. A certa altura, pensei em mudar alguma coisa na minha carreira e decidi que queria tornar-me consultora psicológica desportiva. Fui para a universidade e fiz uma licenciatura em Performance Desportiva, o que me deu uma boa noção do que é a ciência desportiva, incluindo a Psicologia. Depois continuei a estudar Psicologia Desportiva Aplicada, incluindo um mestrado em Programação Neurolinguística. Para além disso, fiz alguns estudos suplementares de hipnoterapia e aconselhamento.


Que tipo de exercícios põe os jogadores a fazer?


Para além das perguntas que faço, destinadas a incrementar a consciência, recomendo uma série de estratégicas e técnicas destinadas a ajudá-los a chegar ao ponto certo – aquilo a que chamamos, em inglês, “to get into the zone”. Às vezes é preciso relaxar, outras é fundamental endurecer. Regra geral, o mais importante é ajudá-los a obrigarem-se a si próprios a jogar um shot de cada vez. Quando um golfista está verdadeiramente no presente, não é afectado nem por maus shots do passado nem pela ansiedade de uma vitória futura.


Quais são as diferenças entre um golfista profissional e um gofista amador? Os seus ensinamentos podem ser úteis a um amador também?


Não há muita diferença. Inclusive, também trabalho com amadores. A única distinção importante é que, para além das viagens e da atenção dos media, os profissionais estão a tentar ganhar a sua vida com o golfe. Isso é relevante também.


Quem são exactamente os seus clientes no golfe?


Para além de alguns amadores ingleses, trabalho com profissionais do European Tour e do Challenge Tour e com algumas senhoras do Ladies European Tour e do Asian Tour. Graças às novas tecnologias, consigo manter contacto regular com todos. O Skype é-me particularmente útil.


Já foi contactada por outros golfistas portugueses, para além de Filipe Lima?


Sim. Desde Maio que estou a trabalhar também com Ricardo Santos.


Como articula o seu trabalho com os restantes treinadores e consultores de cada golfista? Com que frequência fala com os treinadores de swing, os preparadores físicos, os nutricionistas…?


Sempre que visito um torneio, tento encontrar-me com todos eles. Incluindo o caddie, que também é muito importante. Para além disso, o meu marido é nutricionista e também trabalha com vários golfistas. Tenho a vantagem de vê-lo com bastante frequência. (risos)


Diz Bob Rotella, um decano da psicologia aplicada ao golfe, que este jogo se resume “à forma como aceitamos, respondemos e potenciamos os nossos falhanços”. O golfe é sobretudo a capacidade de gerir a frustração?


A aceitação é essencial no golfe – e ela assenta na forma como cada golfista responde às diferentes situações de desafio. Um jogador pode escolher ficar chateado e frustrado ou, pelo contrário, seguir em frente. Essa escolha é totalmente da sua responsabilidade. Mas, quanto mais ele for capaz de aceitar, melhor vai responder ao shot seguinte. Quando se é afectado negativamente por eventos já passado, é muito mais difícil manter o foco.


É uma seguidora da escola de Bob Rotella? Quais são as principais correntes existentes nesta área?


Li alguns dos seus livros e acho que os seus ensinamentos são bastante humanistas. A minha visão é sobretudo holística. Tento ver também o homem por detrás do golfista. Tento saber o que acontece em casa, o que acontece nas outras áreas da vida dele. Tudo isso fará parte da abordagem que ele vier a fazer ao jogo. Se um golfista não estiver feliz, o mais provável é que isso se reflicta na sua performance. Até nessas áreas posso trabalhar. Há metodologias para isso.


O que acha de “O Segredo” e de outros grandes sucessos editoriais na área da auto-ajuda? Os livros de auto-ajuda favorecem ou prejudicam o trabalho de um psicólogo desportivo?


Alguns livros de auto-auda que li reforçam, de facto, qualidades chave para o sucesso. Mas só quando um golfista verdadeiramente vive de acordo com os princípios mais importantes é que isso vai produzir efeitos práticos e duradouros na sua área de actividade profissional. Embora alguns livros de auto-ajuda possam colaborar, estou convicta de que os seus efeitos são fugazes. Podem é, claro, ser potenciados depois, com a ajuda do psicólogo.


O que faria com Tiger Woods? Como lidaria com o caso dele?


Bom, eu não faço nada “aos” golfistas. Eles é que têm de querer atravessar um processo comigo. Mas, no caso de Tiger, eu tentaria saber tudo o que se passou, tanto na sua vida como na sua carreira, e a forma como isso está a afectá-lo, tanto dentro como fora do campo. Depois tentaria perceber quais são as suas necessidades individuais e como poderia eu ajudá-lo, tanto no golfe como do ponto de vista pessoal.


Segundo se tem apercebido, até que ponto a experiência de Tiger tem sido importante para outros golfistas? De que maneira a situação está a afectá-los? Que preocupações têm eles demonstrado – e de que forma isso está a afectar as suas rotinas?


De início, muitos ficaram chocados por o golfista perfeito ter cometido um erro ético. Agora que a poeira assentou, o golfe já seguiu em frente. Acho que a situação de Tiger, na verdade, tem muito pouca influência entre a maioria dos golfistas profissionais. Quanto a ele, porém, penso que a questão essencial é: “Será que ele ainda vai conseguir bater o recorde de Jack Nicklaus?” E eu acho que, se ele se conseguir aceitar como pessoa, conseguir fazer o luto do seu passado e conseguir manter o desejo e a motivação, vai.


ENTREVISTA. J (O Jogo), 18 de Julho de 2010

Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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