Domingo, 9 de Maio de 2010
publicado por JN em 9/5/10



Foi a maior golfista universitária de sempre e desde 2007 que ocupava o primeiro lugar do ranking mundial de profissionais, roubado então à sueca Annika Sorenstam. Levou o golfe às populações mais carenciadas do México e ganhou por três vezes o prémio anual para o desportista mais bem-sucedido daquele país, homem ou mulher. Lorena Ochoa deixou de jogar regularmente no último fim-de-semana, com apenas 28 anos e a dois de poder reclamar o seu lugar no Golf Hall of Fame. Que seja feliz.


 


“Pensei muito bem nisto e digo-vos sinceramente: estou em paz”, explicou Lorena Ochoa, há dias, na recta final da preparação para o Tres Marias Championship, torneio do LPGA Tour realizado no último fim-de-semana em Morelia, no México. “Vou manter a porta aberta para o caso de, dentro de um ou dois anos, querer jogar o Kraft Nabisco Championship ou o US Open – e mesmo para, entretanto, poder continuar a jogar torneios de modelo Invitational, até porque sou anfitriã de um. Mas, no essencial, vou parar depois do Tres Marias. E nunca na minha vida estive tão feliz, até porque atingi tudo aquilo que pretendia atingir. Na verdade, nunca quis ser mais do que a primeira classificada do ranking mundial.”


Foi com estas palavras que Lorena Ochoa enfrentou os jornalistas – e foi através destas palavras que, atónitos ainda com a notícia, os responsáveis pelo golfe feminino de todo o mundo viram confirmado o abandono da competição por parte do seu mais importante activo: aquela a quem já chamavam “o equivalente feminino de Tiger Woods”. Depois de, em 2002, ter começado a vencer fasquias entre as senhoras, ameaçando desde logo pulverizar todos os recordes estabelecidos por Anika Sorenstam, Ochoa abandona a prática regular da modalidade, a nível profissional, para dedicar-se à procura de “uma vida normal” na companhia Andrés Conesa Labastida, CEO da Aeromexico e seu marido desde o passado mês de Dezembro (ver caixa).


“Estamos todos emocionados”, disse Ochoa, com a voz embargada e os olhos em água. “Sentimo-nos tristes nestas alturas. Ouço as pessoas dizerem que terão pena de não poderem continuar a ver-me jogar todos os fins-de-semana e fico comovida. Mas, afinal, trata-se de uma boa notícia e algo que me enche de alegria. Aqui há umas semanas, fui jogar à Ásia e tornou-se facílimo tomar esta decisão. Ficou claro para mim que já não queria estar ali. Só pensava noutras coisas. Queria ir para casa. Queria trabalhar na minha fundação Queria estar ao pé da minha família.”


O mundo do golfe não tardou a reagir. “Obviamente, quando se perde um número 1, a notícia não é boa. Na verdade, é um comprimido muito difícil de engolir”, comentou Charlie Rymer, analista do Golf Channel para as transmissões televisivas do circuito americano feminino, o LPGA Tour. Embora Lorena tenha surgido na conferência de imprensa acompanhada da generalidade dos seus patrocinadores, muitos temem que o abandono venha a prejudicar ainda mais um circuito que perdeu seis torneios nos últimos dois anos e cujo prize money total declinou cerca de vinte por cento de 2009 para 2010. Para além do que há o exemplo de Tiger, cujas retiradas temporárias (oito meses entre 2008 e 2009, devido a lesão, e outros cinco entre 2009 e 2010, em resultado do escândalo sexual em que se envolveu) fizeram cair as audiências do PGA Tour em cerca de quarenta por cento, com todas as desvantagens que daí resultam em termos de publicidade, patrocínios e prize funds.


De resto, há ainda a resistência das feministas americanas. “O abandono de Lorena Ochoa envia a mensagem errada. As mulheres atletas podem ter filhos e continuar a jogar golfe, basquetebol, ténis ou qualquer outra coisa. Não é preciso deixar uma modalidade para ter crianças, acrescentou Jill Painter, colunista do jornal “Daily News”, de Los Angeles. E, porém, não é em crianças que, aparentemente, Lorena Ochoa está a pensar. “Quero muito ter filhos”, explicou entretanto, numa entrevista exclusiva à ESPN. “É uma experiência que desejo muito ter, de facto. Mas não para já. Tenho muito tempo. E há muita coisa que quero fazer antes disso, na companhia do Andrés. Uma delas é dedicar-me à fundação. Das outras hei-de ir falando entretanto.”


Nascida em 1981 na cidade de Guadalajara, na região Oeste do México, Lorena Ochoa começou a jogar golfe aos cinco anos, venceu o seu primeiro torneio local aos seis e conquistou pela primeira vez um campeonato nacional aos sete. Teve sorte: filha de empresários, cresceu numa casa situada junto ao tee do buraco 10 do Guadalajara Golf Club – e em breve estaria aos cuidados de Rafael Alarcon, o golf-pro local que dez anos antes se distinguira, ainda como amador, ao obter o segundo lugar no Canadian Amateur Championship de 1976. “Quero ser a melhor jogadora do mundo”, disse-lhe então Lorena – e Alarcon não só se encantou com a determinação daquela moreninha frágil como em breve se convenceria de que estava, efectivamente, na presença de um verdadeiro diamante.


Quando em 1999, aos 18 anos, Lorena se inscreveu Universidade do Arizona, já tinha atrás de si um currículo com largas dezenas de títulos como amadora. Nos Estados Unidos, veio a tornar-se simplesmente na maior golfista feminina da história do desporto universitário. Em apenas três anos, venceu por duas vezes o troféu NCAA Player of the Year, destinado ao melhor desportista universitário americano de todas as modalidades,  e conquistou um lugar tanto na National Golf Coaches Association como na principal formação da All-American, equipa honorária que distingue anualmente os melhores desportistas amadores dos Estados Unidos. Em 2002, concluída a universidade, tornou-se então profissional – e as conquistas seriam ainda mais relevantes.


Ao longo de oito anos e meio como profissional, o primeiro dos quais no Futures Tour (espécie de segunda divisão do principal circuito feminino americano) e desde 2003 no LPGA Tour, Lorena conquistou 30 vitórias, entre as quais duas em majors. O seu triunfo no Women’s British Open de 2007 ficou na História: era a primeira vez que o circunspecto Royal Golf Club of St. Andrews permitia a realização de um torneio feminino no seu mítico Old Course – e a verdade é que Lorena não se limitou a vencê-lo, mas fê-lo, inclusive, em modelo wire-to-wire (ou seja: liderando do primeiro ao último dia). Para além de ter sido a única golfista mexicana a atingir o primeiro lugar do ranking mundial (“única” e “único”, pois nenhum homem mexicano o conseguiu), Ochoa tem ainda, de resto, outro recorde absolutamente histórico: a ronda mais baixa de sempre, entre homens e mulheres, num major championship de golfe, com 62 pancadas no primeiro dia do Kraft Nabisco de 2006. E até há duas semanas, altura em que pela primeira vez se ouviu falar do seu abandono, era convicção generalizada que seria ela a ultrapassar Annika Sorenstam, a sueca a quem já roubara o primeiro lugar do ranking mundial em 2007 (e que se reformou em 2008, aos 37 anos, igualmente para dedicar-se à família), no papel de melhor golfista feminina da história.


Afinal, não. Diz Lorena que, na verdade, nunca pretendeu jogar golfe como profissional por mais de dez anos – e, agora, é sem um gesto de arrependimento que deixa os fairways. Em cima da mesa fica, naturalmente, a oportunidade de voltar a tentar uma vitória no US Open, que nunca ganhou (apesar de várias vezes ter estado à beira de consegui-lo). Mas o facto é que, embora ainda a vejamos ocasionalmente pelos campos (inclusive no Lorena Ochoa Invitational, de que é anfitriã desde 2008 e que se realiza anualmente no México, a contar para o LPGA Tour), a competição regular simplesmente acabou. “Não me fica qualquer mágoa por nunca ter vencido o Open. As oportunidades que tive e que perdi foram experiências que me deram força para tornar-me naquilo que sou hoje”, explica.


Segue-se o trabalho na Lorena Ochoa Foundation, que se dedica à educação e gere uma escola primária e um liceu em Guadalajara, na Ochoa Sports Management, destinada à gestão de carreiras, e mesmo no Ochoa Group, holding familiar gerida pelo seu irmão, Alejandro Ochoa. Inspiração para todo um país, que até ao seu surgimento não só não jogava golfe como nem sequer parava dois minutos em frente a um torneio transmitido pela televisão, Lorena chegou a ganhar quatro milhões de dólares só em prize money (fora publicidade e contratos anexos, isto é) numa temporada. Agora, quer retribuir – e quer fazê-lo enquanto se encontra na flor da idade e no topo da fama. Quem pode repreendê-la por isso (e mesmo se o abandono acontece a apenas dois anos de validar a sua entrada para o Golf Hall of Fame, onde ganhou um lugar em 2006 mas para cuja ocupação precisava de dez anos de carreira regular)?


 


LORENA OCHOA


Nascimento: 15 de Novembro de 1981, em Guadalajara (México)


Profissional desde: 2002


Vitórias como profissional: 30


Vitórias em torneios do Grand Slam: 2 (Women’s British Open 2007 e Kraft Nabisco Championship 2008)


Posição no ranking mundial:


Prize money acumulado: 14,2 milhões de dólares


Distinções: LPGA Rolex Player of the Year (4 vezes); LPGA Vare Trophy (4); LPGA Tour Money Winner (3); Golf Writers Association of America Female Player of the Year (3); Mexico National Sports Award (3); AP Female Athlete of the Year 2007; Best International Athlete ESPY Award 2008; outras 12 distinções de primeira categoria



 



ANDRÉS CONESA: O HOMEM QUE NOS LEVOU LORENA


Chama-se Andrés Conesa Labastida, tem 40 anos e é actualmente presidente do conselho de administração da Aeromexico, principal companhia aérea mexicana. Conheceu Lorena em 2005, mas os destinos de ambos separaram-se ainda por mais dois anos, até porque Conesa era casado (e, de resto, pai de três filhos). Até que, em 2007, os dois reencontraram-se, já com o gestor divorciado – e rapidamente o casamento foi decidido, acabando por concretizar-se no passado mês de Dezembro.


Formado no Instituto Tecnologico Autónomo de México, onde entretanto também leccionou, Andrés Conesa Labastida tem um doutoramento em Economia pelo Massachusetts Institute of Technology, de Boston, e está desde há muito tempo vinculado à administração pública mexicana, ao abrigo da qual foi coordenador dos assessores do subsecretário da Fazenda e Crédito Público, director geral dos Assuntos Financeiros Internacionais e director geral do Plano Orçamental.


Em 2007, quando se comprometeu com Ochoa, já tinha ganhou o Prémio Nacional de Economia do México, no segmento de Investigação, e integrava a lista dos 60 mais poderosos líderes mexicanos. É desde 2007 CEO da Aeromexico, depois de antes já ter ocupado a presidência do Conselho de Administração da Cintra, a empresa que entretanto vendeu a participação maioritária que detinha na companhia aérea.


FEATURE. J (O Jogo), 9 de Maio de 2010

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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