Sábado, 10 de Abril de 2010
publicado por JN em 10/4/10

Não sei exactamente em que buraco Filipe Lima puxou ontem do primeiro cigarro. Assisti apenas a uma parte da ronda realizada pelo jogador português e, tenha isso sido por virtude de concentração ou por defeito de vício próprio, nem sequer me apercebi de que o jogador fumara. Mas alguns espectadores reunidos em frente à club-house do Porto Santo mostravam-se, ao final da tarde, um tanto chocados com o facto de terem avistado Lima puxando uma fumaça algures junto ao fairway do buraco 10 – e eu só posso imaginar que seja por desconhecimento da modalidade.

O Madeira Islands Open não é apenas mais um torneio do European Tour. Do prize money que oferece ao field que reúne, tem uma série de especificidades que o tornam, simultânea e um tanto paradoxalmente, mais modesto e mais competitivo do que uma série de outros torneios europeus. Mas, sobretudo, o golfe não é apenas mais uma modalidade desportiva. Jogado a cada dia durante (pelo menos) quatro longuíssimas horas, exige uma concentração inatacável, tentando-a entretanto com uma série de períodos mortos durante os quais o cérebro humano sente o quase incontrolável impulso de visitar os seus fantasmas.


Fumar não é a melhor solução, naturalmente. Fumar – reconhece-o sem reticências um daqueles fumadores que, como os alcoólicos, permanecerão fumadores mesmo quando conseguirem vencer a intermitência da decisão de parar – faz mal, mesmo muito mal. Mas na ausência de um psicólogo, como costuma sublinhar o multi-campeão argentino Ángel Cabrera, pode ajudar (e, nalguns casos, ajuda) no combate à ansiedade. De resto, e se foi no 10 que Lima efectivamente fumou, talvez se deva bendizer esse cigarro. Porque foi precisamente no buraco a seguir que o português começou a conter a hemorragia que chegou a ameaçar levá-lo do primeiro lugar à exclusão para as jornadas do fim-de-semana.


Há momentos na vida em que, como diz Wooy Allen, o importante é encontrar “o que quer que funcione” (ou “whatever works”). Passar um cut no European Tour pode muito bem ser um desses momentos. E agora, por favor, Filipe, macinho guardado até ao buraco 10 de amanhã.


COMENTÁRIO (especial Madeira Islands Open). O Jogo, 10 de Abril de 2009

Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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