Domingo, 7 de Fevereiro de 2010
publicado por JN em 7/2/10

Quando Y.E. Yang ergueu o saco sobre a própria cabeça, escassos minutos depois de se tornar no primeiro asiático a vencer um major (o PGA Championship de 2009, disputado no Hazeltine National Golf Club, no Minnesota, EUA), muitos olharam para os ferros que estavam lá dentro, contaram as cabeças mais gordas e as cabeças mais estreitinhas e chegaram a uma conclusão: Yang não se limitara a bater Tiger Woods em circunstâncias épicas, mas fizera-o personificando também a transformação em curso no paradigma do velho saco de golfe. Basicamente, a notícia era esta: o jogador coreano tinha como ferro mais comprido um 5 – e, quanto ao resto, trazia apenas cinco ferros médios ou curtos, três wedges, um putter e nada mais, nada menos do que dois híbridos e três madeiras, das quais uma o driver. Explicação do próprio: “Comecei a jogar golfe tarde e tornei-me profissional de topo mais tarde ainda. No fundo, já sou um jogador de um tempo novo.”

Nuno Campino, ex-campeão nacional e um dos professores de golfe mais activos da área da Grande Lisboa, explica a situação. “É preciso ver que o torneio se disputava nos Estados Unidos. Se se disputasse em Inglaterra, por exemplo, o Y.E. Yang teria seguramente trazido os seus ferros 3 e 4, pois precisaria de manter a bola mais baixa e mais tensa, para fazer frente ao vento”, diz. “Agora, o facto é que a globalização do golfe tem sido promovida muito mais à medida das tradições americanas, incluindo campos mais largos, com greens mais duros e construídos em regiões menos ventosas. É claro que os campos europeus, clássicos e românticos, existirão sempre. Mesmo os designers americanos, quando fazem campos na Europa, respeitam essas tradições. Mas na Ásia, em África ou na Austrália está tudo a evoluir à maneira americana. E, aí, faz muito mais sentido jogar híbridos.”

Objectivo: bater a bola com mais segurança, beneficiando de uma distribuição diferente do peso da cabeça do taco (mais em baixo e mais atrás), e fazê-la subir mais, planar (e, portanto ganhar mais distância) e aterrar na vertical (e, portanto, evitando ser cuspida do green. A mudança de paradigma é de tal ordem que, segundo dados da revista “Golf Digest”, o número de jogadores americanos de topo cujo ferro mais longo no saco é um 4 subiu 1500 % (mil e quinhentos por cento, note-se) ao longo dos últimos sete anos. Em 2002, e no PGA Tour, havia, em cada cem, apenas dois jogadores sem ferro 3. Hoje, há 30. E a tendência é para que esse número se reforce. “Os roughs estão cada vez mais altos. Nenhum ferro 2, ou mesmo 3, entra ali. E só os híbridos conseguem ir lá buscar a bola com um mínimo de eficácia” , diz Rui Coelho, representante da Nike em Portugal e, de resto, ele próprio one-digit handicap.

Vantagem adicional: a nova regra dos grooves em V, que tanta celeuma tem causado entre os jogadores, deixa de fora os híbridos (embora também os ferros longos), uma vez que se aplica apenas a tacos com lofts até 25º. Resultado: cada vez mais jogadores se vão habituando ao seu conforto – inclusive os jogadores mais insuspeitos. “Até o Pádraig Harrington, quando joga nos Estados Unidos, dispensa o ferro 3, optando em vez dele por um híbrido. Com aqueles campos e aquela meteorologia, ainda por cima disputando-se os torneios mais importantes da época no Verão, tira muito mais partido do saco assim”, sublinha Nuno Campino. Na gestão semanal que fazem do saco, muitos jogadores de topo optam mesmo por um só híbrido em vez de dois ferros, ganhando com isso a oportunidade de acrescentar um wedge às suas soluções de jogo. Hoje em dia, o gap wedge (ou approach wedge, regra geral com loft entre os 50º e os 52º) são muito populares, cobrindo parte da enorme distância que separa o pitching wedge do sand wedge (ou mesmo do lob wedge, consoante as opções de cada um).

Inevitavelmente, a tendência espalha-se também pelos amadores. Nos Estados Unidos, e de acordo novamente com as estatísticas da “Golf Digest”, apenas 34 por cento dos sets de ferros vendidos hoje, em todo o país, incluem um ferro 3. E, em Portugal, os números são provavelmente ainda mais significativos. “A maior parte das linhas, à excepção das da Titleist e da Mizuno (que se vocacionam, de facto, para um golfe de nível mais alto), já vem sem ferro 3, em alguns casos mesmo sem ferro 4”, diz Pedro Silva, proprietário da cadeia de lojas MyGolf. “Marcas como a Callaway, a Taylor Made, a Adams ou mesmo a Ping – enfim, todas as marcas de grande consumo: vem tudo sem os ferros mais longos, chegando agora mesmo a trazer já incorporados um ou dois híbridos”, acrescenta. “Na Nike é assim”, corrobora Rui Coelho. “Já não me lembro da última vez que um jogador de handicap médio ou alto me comprou um ferro 3. A maior parte dos sets que vendo têm ferros do 5 ao sand wedge, incluindo depois um híbrido. E, para as senhoras, o que mais vendo agora são sets com ferros apenas a partir do 6, incluindo dois híbridos.”

“Os híbridos são o futuro”, diz António Sobrinho, dez vezes campeão nacional. “Eu sempre os usei. Ainda tenho um ferro 3 no saco, mas porque as nossas distâncias, aqui em Portugal, são relativamente curtas. De resto, gosto dos híbridos, que nos oferecem muito mais soluções de jogo”, acrescenta, explicando que é também com wedges que acaba por completar os 14 tacos do saco, de forma a cobrir um maior leque de distâncias no jogo curto. “Mas atenção: é preciso saber escolhê-los. Hoje em dia, compram-se muitos híbridos sem fazer um fitting decente. É muito importante ter os lofts e os lies certos. Muita gente com swing mais upright compra híbridos pouco upright e, depois, nada daquilo funciona. Os híbridos também podem ser um mau investimento, se o jogador não for devidamente aconselhado e testado.”

Para além de tudo, as bolas vêm contribuindo para uma alteração substancial no perfil do jogo dos greens e dos fairways. “Hoje em dia, as bolas voam muito mais. E deixam-se trabalhar muito mais também. Isso beneficia tacos que a ponham no ar durante mais tempo e prejudica aqueles que sirvam sobretudo para, cobrindo ma mesma longas distâncias, lhe incutirem também algum spin”, diz Pedro Silva. “E, se alguns bons jogadores ainda fazem questão de ter o seu ferro 3, as tendências quanto ao ferro 2 explicam tudo. Há uns anos, não havia one-digit handicap que não quisesse ter um no saco. Hoje, vendo um ou dois por ano, não mais. As próprias marcas já deixaram de fabricá-los, em muitos casos. E o mesmo, mais cedo ou mais tarde, acontecerá com o ferro 3, ou mesmo com o ferro 4. São produtos que começam a deixar de fazer sentido do ponto de vista comercial.”


FEATURE. J, 7 de FEVEREIRO de 2010

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1 comentário:
De Alvarino a 23 de Fevereiro de 2010 às 13:21
Ler este artigo é quase como estar a jogar golfe.
Apesar de ter um handicap alto, não dispenso o meu ferro 3, mx 17 da mizuno, também começo a usar o hibrido, mas um bom ferro 3 é um shot magnífico!

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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