Domingo, 27 de Setembro de 2009
publicado por JN em 27/9/09

Para a esmagadora maioria das mulheres envolvidas no mundo do golfe, não há dúvidas. “Com todo o respeito por Tom Watson, que quase ganhou o seu sexto British Open aos 59 anos (e depois de substituir uma anca), este, sim, é um dos mais admiráveis feitos da história do jogo”, escreveu a editorialista Stina Stenberg na “Golf Digest Woman”. Tema: a vitória da escocesa Catriona Matthew no Ricoh Women’s British Open do início de Agosto – e que, no meio de dois majors masculinos, dos playoffs da FedEx Cup e da própria Solheim Cup feminina, passou quase despercebida à generalidade dos adeptos.


Terceira mulher, desde 1960 (e a seguir de Nancy Lopez e Julie Inkster), a conquistar um torneio do Grand Slam depois de ser mãe, Catriona conseguiu-o, no entanto, escassa onze semanas após dar à luz a sua segunda criança, Sophie. E, por esta altura, já nem são só as mulheres que exigem o reconhecimento da sua façanha como a maior de 2009. “Eu já escolhi o meu Golfista do Ano, e nada me fará mudar de opinião”, escreveu Lawrence Donegan na “Golf World”. “[A vitória de Catriona Matthew é] A melhor coisa que aconteceu ao golfe feminino deste país [o Reino Unido] desde que Laura Davies declinou. É a melhor coisa que aconteceu ao golfe escocês – feminino ou masculino – desde que Sandy Lyle ganhou o The Masters. E é a melhor história de golfe desde que Tiger venceu o US Open com uma perna partida.”


“Isto é absolutamente extraordinário”, comentou Catriona Matthew, de 39 anos, após o putt que lhe deu o triunfo na 37ª edição do campeonato britânico, disputado este ano no campo do Royal Lytham & St Annes Golf Club, no condado do Lancashire, em Inglaterra. Na segunda jornada da competição, portanto dez semanas e seis dias após o parto de Sophie, Catriona conseguiu aqueles que considera simplesmente os melhores nove buracos da sua vida: 29 pancadas (-7) no back nine, incluindo uma sequência eagle/hole-in-one/birdie. À partida para a última ronda, realizada portanto onze semanas e um dia depois de Sophie nascer, a jogadora escocesa tinha três pancadas de vantagem sobre toda a concorrência. Ainda acabou o dia com 73 (+2), apenas salvando o resultado com três birdies consecutivos (buracos 13, 14 e 15) – mas, então, beneficiou do facto de quase toda a gente ter jogado pior do que nos dias anteriores, em resultado das dificuldades apresentadas pelas condições meteorológicas e pelo complicado setup do campo.

Resultado final: 285 pancadas (-3), três à frente da australiana Karrie Webb, segunda classificada, e quatro da sua companheira de formação, a ultra-irritante norte-americana Christina Kim, que terminou no grupo das terceiras. “Nunca pensei que conseguisse regressar, jogar bem e vencer, tudo de uma vez. Apenas esperava fazer o cut”, comentou a jogadora escocesa, exultante, num momento em que a imprensa lhe atribuía a alcunha de “Supermãe”. Isto foi a 2 de Agosto. A 16 de Maio, Catriona estava uma cama de hospital, gritando de dor, com o corpo deformado e uma criança a sair-lhe das entranhas.

“Um parto pode afectar seriamente as tuas hipóteses de conquistar um lugar nos livros de história do golfe”, diz Lawrence Donegan, que recorreu à experiência da própria esposa (handicap 18) para dedicar a Catriona a sua coluna mensal. “Por um lado, o teu corpo está traumatizado. Por outro, há tanta coisa para fazer quando um bebé chega que tudo o que antes parecia vitalmente importante (…) perde todo o significado.” Na verdade, Catriona tem razões para queixar-se: Sophie teve cólicas durante seis semanas – e durante outras tantas ninguém dormiu lá em casa. Por outro lado, toda a família está concentrada na carreira dela. Incluindo o marido, Graeme, que é o seu caddie – e que, entre o tratamento dos seus tacos e as notas tiradas sobre os diferentes campos que é preciso conhecer para as competições, encontrou sempre forma de conciliar os treinos com a presença de Sophie (e, aliás, também de Katie, a irmã mais velha).

“Não me chamem ‘Supermãe’, que eu não mereço”, diz Catriona. “Na verdade, tenho muita sorte em que o meu marido seja o meu caddie, de forma que estamos ambos quase sempre perto das crianças. De resto, soubemos sempre revezar-nos nas tarefas lá de casa. Na verdade, e mais do que qualquer outra vitória na minha carreira, esta foi completamente resultado de um trabalho de equipa.”

Ouvidos pelas mais diversas publicações internacionais, médicos e fisioterapeutas apontam algumas razões por que uma jogadora de golfe pode tirar partido de uma gravidez, incluindo o rebaixamento do centro de gravidade, com vantagens sensíveis para o equilíbrio do swing, e a quase congestão hormonal, eventualmente vantajosa para a determinação e para a acutilância. Laura Diaz, que teve um filho em 2005, jogou até muito tarde na gravidez, dizendo que se sentia a bater a bola como nunca. Karen Stuples, que teve uma criança em 2007, garantia que ganhara 10 jardas de distância a partir do momento em que engravidara. E Julie Inkster, que ganhou 31 campeonatos em 27 anos, sublinhou sempre que o facto de ter criado duas filhas ao longo desses mesmos 27 anos só a ajudou a concentrar-se no essencial.

E, no entanto, não é à concentração que Catriona Matthew agradece a vitória. É, antes, à capacidade que a gravidez lhe deu para relativizar o jogo. Ainda antes do British Open, a escocesa já conseguira uma posição entre as 30 primeiras classificadas do Evian Masters – e, entretanto, a única coisa que fez foi agarrar-se à sensação de liberdade que a maternidade lhe permitia. “Basicamente, fiquei sem pressão. Ninguém esperava que eu ganhasse – e foi por isso que ganhei”, garante. “Por isso e porque, entre os shots, ia pensando nas minhas crianças, em vez de estar ali obcecada com o jogo. Ajudou-me muito não pensar em ganhar.”

“Foi uma vitória pessoal. Ou uma vitória familiar. Não foi apenas a natureza que a determinou”, reconheceu Andrea Provence, da LPGA, entrevistada pela revista “Women & Golf”. Um estudo recentemente publicado no “Journal Of Labor Research” por David E. Kalist, da Universidade de Shippensburg (Pensilvânia), confirma essa excepcionalidade. “Do ponto de vista estatístico, a produtividade das mulheres [no golfe] depois de elas se tornarem mães aumenta nos anos antes da gravidez e baixa a partir desta”, diz o académico norte-americano. “Mas isso não quer dizer que a baixa de produtividade tenha a ver com razões físicas. Na verdade, pode tratar-se apenas de desprendimento. Pode tratar-se apenas da existência de outras prioridades.”

“O facto é que esta vitória pode fazer muito pelo golfe feminino e pela desmistificação do impacte negativo que uma gravidez pode ter numa jogadora”, volta Andrea Provence. “E, aliás, tanto a nível amador como a nível profissional.” Na mente de todos, naturalmente, está o abandono da competição por parte da super-campeão sueca Annika Sörenstam, que realizou os últimos torneios em 2008, aos 39 anos, para entretanto se dedicar a tempo inteiro à tentativa de ser mãe.

Pois, agora, é precisamente em Catriona que o golfe feminino europeu, desapossado do seu grande ícone desde a reforma da sueca, mais aposta. Primeiro escocesa a conquistar um major, Catriona é também, por esta altura, uma das poucas europeias em grande nível no colossal circuito norte-americano, onde as armadas americana e sul-coreana dominam largamente. A jogadora foi mesmo uma das mais em foco na última Solheim Cup, disputada igualmente depois da sua gravidez. Infelizmente para ela (e para a equipa), os dois pontos que conquistou não foram suficientes para a vitória da Europa.




CATRIONA MATTHEW


NOME: Catriona Isobel Matthew

NASCIMENTO: 25 de Agosto de 1969, em Edimburgo, na Escócia

PROFISSIONAL DESDE: 1995

CIRCUITOS: LPGA Tour (preferencial) e Ladies European Tour

VITÓRIAS COMO PROFISSIONAL: 7

VITÓRIAS EM MAJORS: 1 (Ricoh Women’s British Open 2009)

DESEMPENHO NA SOLHEIM CUP: 6 participações, 2 vitórias


 


FEATURE. J, 27 de Setembro de 2009

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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