Terça-feira, 1 de Setembro de 2009
publicado por JN em 1/9/09

Mark Twain, o grande escritor americano do século XIX, dizia que o golfe era “um belo passeio estragado”. Winston Churchill, o herói aliado da II Guerra Mundial, também o detestava, comparando-o ao exercício de “procurar uma pastilha de quinino numa pradaria”. Robin Williams, actor de Hollywood, é o primeiro a aparecer numa pesquisa com a palavra “golf” no YouTube: para dizer o quão ridículo é a modalidade – e, aliás, o quão ridículos são os escoceses malucos que a inventaram.


E, no entanto, poucas vezes o jogo dos greens e dos fairways se terá debatido com um inimigo desta magnitude (ou, pelo menos, com este grau de rancor). Auto-proclamado “refundador do socialismo”, o presidente da Venezuela decidiu transformar o golfe num ícone do seu combate à propriedade privada e à vida “burguesa” em geral. Só em Agosto, nacionalizou três campos com o objectivo de os transformar noutra coisa qualquer. E, entretanto, promete levar muito mais longe a ofensiva.

“Eu respeito todos os desportos. Mas há desportos e há desportos”, vociferou, como habitualmente costuma fazer, no seu programa televisivo Aló Presidente!. “Querem dizer-me que este é um desporto do povo? Não é. É um desporto burguês!”, acrescentou, satirizando o hábito de usar buggy e acusando a modalidade de não fazer outra coisa senão “promover a preguiça”.

Nos últimos três anos, o número de campos de golfe na Venezuela decresceu de 28 para 22. Quase todos os campos encerrados ao público ficam em regiões petrolíferas mais ou menos remotas (nos estados de Monagas, Zulia e Falcón, mais concretamente) e pretendiam proporcionar aos técnicos e aos operários mineiros a possibilidade de se distraírem antes ou depois de uma jornada de trabalho.

Agora, três outros campos foram nacionalizados e de imediato deixados ao abandono, depois de o governo de Caracas ter sublinhado que a sua manutenção estava “longe de ser uma prioridade”. Entretanto, Chávez já estuda projectos alternativos para os terrenos em causa: um mega parque infantil para o espaço do Caraballeda GC e um bairro social (ou uma universidade) para o do Maracay GC. Ao mesmo tempo, um mega-projecto planeado para a Ilha Margarita, com layout de Robert Trent Jones Jr. e aprovação imediata da USGA, foi adiado sine die, por falta de financiamento.

“Não tenho intenções de tornar o golfe proibido. Mas é importante que o sector privado venezuelano perceba que chegou uma revolução socialista”, diz Chávez. As nacionalizações da “República Bolivariana” expandiram-se nos últimos meses do petróleo para áreas de actividade tão diversas como o cultivo do café, a criação de gado, a transformação do tomate, a produção de arroz e a indústria de conservas.

Curiosamente, a perseguição de Chávez ao golfe surge em claro contra-ciclo com as tendência verificadas nos outros grandes países socialistas (ou cripto-socialistas, ou meta-socialistas, ou o que seja), uma vez que a China está a investir em força na modalidade e Cuba começa a reforçar a sua parca oferta turística no sector. Mais do que isso, aliás: na Havana dos anos 60, e instalada em Cuba a Revolução Castrista, jogar golfe era precisamente um dos passatempos preferidos de Fidel e Che Guevara, que adoravam exibir o seu tosco putting para os fotógrafos de todo o mundo.

Isso mesmo lembraram a Chávez, há três anos, uma série de “revolucionários” apaixonados pela modalidade. Em 2006, o então presidente da câmara municipal de Caracas, Juan Barreto, tentou expropriar o campo de golfe do Caracas Country Clube, mas o facto de diversos apoiantes de proa do presidente (incluindo vários membros e ex-membros do seu executivo) fazerem parte da lista de sócios acabou por levar à suspensão do processo por ordem do próprio Hugo Chávez.

O mesmo Chávez, aliás, quebrou o protocolo durante uma visita à Índia, em 2005, ao bater algumas bolas num campo de golfe em New Dehli. E, porém, é duríssima, a actual perseguição. Numa recente visita ao estado de Aragua, o presidente aproveitou a presença das câmaras de televisão para evidenciar o seu ódio. “Continuas a jogar golfe, Isea?”, perguntou ao governador local (e seu ex-ministro), Rafael Isea. “Joguei golfe durante algum tempo, meu comandante. Mas já não jogo!”, respondeu o governador, obediente. “E quem joga golfe aqui, hoje em dia?”, perguntou de novo Chávez, agora para a audiência toda. Ninguém respondeu.

“Se esta decisão não for revertida, teremos perdido nove campos em apenas três anos. Isto num universo de 28 campos”, lamentou Júlio L. Torres, presidente da Federação Venezuelana de Golfe. A Venezuela nunca produziu um golfista de topo, mas em 2010 pode finalmente ter um jogador no PGA Tour: o jovem Jhonattan Vegas é por esta altura um dos homens mais em foco no Nationwide Tour norte-americano, liderando a tabela de apostas quanto aos novos jogadores para a FedEx Cup de 2010.


FEATURE. Jornal do Golfe, Setembro de 2009

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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