Quarta-feira, 1 de Julho de 2009
publicado por JN em 1/7/09

Não vale a pena contestá-lo: os handicaps foram essenciais ao desenvolvimento do golfe. Esta modalidade não é apenas um jogo, é também um palco privilegiado para a sociabilização – e de resto ainda hoje constitui um desporto fundamentalmente amador, por muito que entre os profissionais estejam alguns dos desportistas mais bem pagos do mundo. Portanto, o golfe precisa das classificações net, sem as quais uma boa parte dos jogadores de fim-de-semana simplesmente desertariam. Mas precisará das classificações stableford?

No essencial, o que a classificação stableford nos diz é que se pode dar uma ronda de golfe por concluída sem se ter necessariamente jogado todos os 18 buracos do campo. Não apenas isso, aliás: diz-nos que até se pode ganhar um torneio de 18 buracos sem efectivamente ter concluído esses 18 buracos. É como o Michael Phelps ganhar os 200 metros bruços, mas sem nadar a terceira piscina. Ou o Jenson Button ganhar uma corrida de fórmula 1 fazendo apenas 58 ou 59 das 61 voltas previstas. Ou como eu andar a gabar-me de que levei a Beyoncé Knowles a jantar, quando no fundo apenas fui ver um concerto dela (mas, pronto, saímos juntos, só faltou comermos qualquer coisa).

Mais: com o sistema stableford, um jogador não só pode ganhar um torneio sem efectivamente jogar o campo todo, como pode mesmo ganhar um torneio fazendo incomparavelmente mais pancadas do que o segundo classificado (em net e mesmo em gross). Um faz o campo todo mais ou menos certinho, par ali, bogey ali, duplo acolá; outro faz dois bogeys e um colossal 12 num par 3 em que não consegue sequer passar a bola por cima do lago – e quem ganha? Ganha, muitas vezes, aquele que não passa o lago. E eu acho que um jogador que não passa o lago não pode ganhar o torneio em causa.

Sempre que estou nos Açores, sou desclassificado do primeiro torneio em que participo. Não atino com a saída do buraco 4, onde nem sequer tenho shot de abono – e, quando dou por mim, já levantei a bola. Fico de imediato fora, claro: os torneios são todos em Medal Net. O que nunca me impressionou demasiado, a não ser quando, recentemente, disputei a etapa inaugural do primeiro FedEx Golf Challenge. Estávamos na Penha Longa, ao mesmo tempo o meu campo preferido e aquele em que jogo pior. Efectivamente não joguei nada, com bogey atrás de bogey, e mais bogey ainda, até ao bogey final. Por outro lado, classifiquei-me para a final nacional. Porque o torneio era Medal, claro: havia que completar o campo todo – e, portanto, fazer o parzinho da ordem nos buracos curtos, acumulando pontos stableford, não chegava.

Talvez o stableford seja importante como sistema de referência para o controlo do handicap EGA, mas não é seguramente promotor da excelência. Por mim, acabava já: se não nos torneios sociais, ao menos nas competições a contar para as Ordens de Mérito dos clubes oficiais. Ou isso ou eu fui jantar aqui há dias com a Kylie Minogue, no Pavilhão Atlântico. Se estamos todos autorizados a contar a história cada um à sua maneira, aliás, devo dizer-vos que nem sequer foi só jantar: houve uma festinha no camarim – e depois, com os copos, já se sabe, a Kylie não conseguiu resistir-me.


CRÓNICA DE GOLFE ("Tee Time"). Jornal do Golfe, Julho de 2009

1 comentário:
De Armindo Jorge a 7 de Agosto de 2009 às 20:04
Estou à vontade porque também não gosto disso e só jogo nesse sistema quando sou obrigado.

Todavia, é bom ter presente que a duração média dos torneios de amadores poderia passar das 5:30h, ou 6, actuais para mais de 7, se o stabbleford fosse abandonado. Além do tempo necessário para as pancadas adicionais haveria ainda a considerar que os jogadores se tornariam mais lentos por saberem que todas as pancadas seriam reflectidas no resultado final.

Handicaps superiores a 36, para senhoras, e 30, para homens, é que me parecem uma autêntica barbaridade e uma fonte de atropelos porque, mesmo sem batota, há sempre uma probabilidade muito grande de um jogador desses "engatar" e fazer um resultado que mata toda a concorrência.

Boas férias.

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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