Sexta-feira, 22 de Abril de 2011
publicado por JN em 22/4/11

Mourinho conseguiu uma vitória enorme, Villas-Boas uma das grandes também. Foi uma semana em cheio para aqueles que um dia recordaremos como os dois maiores treinadores portugueses de sempre. Para nós, sportinguistas, é como se o fracasso continuasse a desfilar-nos à frente. Se desistir de Mourinho (obrigado, Juve Leo) marca o momento em que o Sporting decide deixar de ser grande, falhar a contratação de Villas-Boas (obrigado, Jorge Mendes) marca aquele em que o Sporting perde a oportunidade de voltar a tentar sê-lo.

E, no entanto, eu já não sei se Villas-Boas é de facto o segundo Mourinho, ou se Mourinho é que foi o primeiro Villas-Boas. Mourinho é um génio, mas Villas-Boas parece tocado pela graça divina. Mourinho joga um futebol de contenção, à procura da eficácia, Villas-Boas um futebol positivo, à procura da beleza (mas, ainda assim, eficaz). Onde Mourinho é agressivo e mesquinho, Villas-Boas é elegante e educado. Confrontados com uma pergunta difícil, Mourinho lança perdigotos e Villas-Boas articula ideias. É bem falante, Villas-Boas – ou estou errado?

Se Mourinho é Napoleão, Villas Boas é George Washington. Um é um cilindro compressor, o outro um Dona Elvira, belo e até um tanto dandy. Há entre Mourinho e Villas-Boas diferenças semelhantes às que separam a formiga da cigarra, com a ressalva de que, aqui, em ambos os casos o trabalho aparece feito (e bem feito). Parafraseando Arnaldo Jabor: Mourinho é sexo, Villas-Boas é poesia. Mourinho é o Special One? Então Villas-Boas não é o Special Two, não senhor: é o Really Special One. Ou talvez seja. O tempo não nos deixará na dúvida.

No fundo, o que parece é que Villas-Boas não tem de fazer um esforço tão grande. Ele dispõe da aura dos homens bem nascidos, muito mais do que do lastro das fortunas de oportunidade. É duro, mas ainda assim amável. É veemente, mas nunca truculento – e, aliás, nem sequer precisou de criar um estilo: uma gravata assenta-lhe bem. Ao pé de Villas-Boas, Mourinho parece Octávio Machado, rosnando. Demasiado datada, a analogia com Napoleão e Washington? Então cá vai: onde Mourinho é Putin, rabino e de dentes cerrados, Villas-Boas é Tony Blair, enorme e de sorriso aberto.

O FC Porto de Villas-Boas é mais forte do que o de Mourinho, e Villas-Boas tem extraído o melhor dele. O problema é que o Real Madrid de Mourinho é mais fraco do que o de Carlos Queiroz – e, ainda assim, parece uma equipa destinada a um lugar na história. Não me admiraria se Mourinho proferisse agora a frase: “Para o ano, tenho a certeza de que seremos campeões” – e depois efectivamente o fosse, apesar da Távola Redonda de Guardiola. Já Villas-Boas não dirá nada disso – e para o ano, de certeza, será campeão outra vez.

Para nós, na verdade, qualquer um servia e era um milagre. Tornámo-nos tão pequenos.

CRÓNICA DE FUTEBOL ("Futebol: Mesmo").

Jornal de Notícias, 22 de Abril de 2011

(imagem: © www.desporto.pt.msn.com)

6 comentários:
De SOUSINHA a 22 de Abril de 2011 às 21:36
Meu caro JOEL NETO.

A sua crónica no que se refere a AVB não tem o meu aval. Parece-me que quando Jose Mouirnho ganhou uma Champions pelo Porto, o senhor Pinto da Costa teria dito: "mas não ganhou sozinho" O mesmo se passa com AVB que no estáido da Luz não ganhou sozinho e no jogo com o Sporting idem aspas.
Ma so senhor ignora os factos e endeusa o homem, AVB.
É um mau serviço jornalístico.
Mas é o que temos, não é ?
Cumprimentos do

JBS
De Fernando Resende a 23 de Abril de 2011 às 17:35
Caro JBS, tal como o próprio nome indica isto é uma CRÓNICA.... sabe o que isso é????

Parece-me excelente o testo e pese embora uma ou outra coisa que não concordo tanto, está aqui uma excelente análise aos 2 grandes treinadores do FC Porto dos últimos anos....

Saliento neste texto uma ENORME verdade: "O porto de Villas-Boas é mais forte do que o de Mourinho..."
De SOUSINHA a 23 de Abril de 2011 às 18:17
CARO AMIGO.

Viva.
Foi bom ter respondido ao meu comentário, sobretudo pelo modo educado como o fez.
Obirgado.

Nesta coisa da bola e noutras coisas da vida, nós temos o dreito à nosssa opinião. Como tal li o que disse sobre Mourinho e o AVB e penso faltar tempo e provas a AVB. E há também por outras razões. Mas ...

Ab.
JBS
De Luiz a 24 de Abril de 2011 às 16:06
Interessante o post,

Tenho o seu livro Jose Mourinho, o Vencedor. Gosto muitissimo de Villas-Boas tambem. Impressao minha, ou eu senti voce um pouco receoso/irritado com Mourinho?

Soh nao posso concordar com algo. O Real Madrid de Mourinho eh MUITO mais forte do que o Real Madrid de Carlos Queiroz, e o Mourinho eh MUITO mais treinador do que Queiroz, muito embora eu entenda a adoracao dos portugueses por ele por causa do Titulo Mundial de 91.

Resta saber se Villas-Boas vencera tanto em tao pouco tempo quanto Mourinho e se tera o mesmo sucesso fora de Portugal. Mas tem potencial e eh brilhante, como voce disse, jogando ofensivamente. Belo post Joel.
De jorge espinha a 1 de Maio de 2011 às 14:08
caro Joel

Somos o clube do quase. Chegamos quase lá, não tirámos o rendimento nem desportivo nem económico de vários grandes jogadores (Futre,Figo,Ronaldo;Nani, Moutinho,...), falhámos sistematicamente o encontro com a história, não nos modernizamos depois dos 5 violinos , fomos péssimos a contratar treinadores e não preenchemos os lugares do futebol com quem entendesse do assunto. Eu não consigo encontrar neste momento um motivo para ser optimista em relação ao futuro do SCP.
De jogo futebol a 25 de Agosto de 2011 às 16:54
Desconheço se já andavas pelo mundo destes blogues a bastante pois só neste momento encontrei o seu, mas tens um bom jeito para blogar continua

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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