Sexta-feira, 8 de Outubro de 2010
publicado por JN em 8/10/10

Não sei quem conseguiu convencer os jornalistas a publicarem notícias como aquelas ontem li na imprensa deste e do outro lado do Atlântico. Não sei, não quero saber – e, aliás, peço encarecidamente que ninguém mo diga, porque já estou desencantado que chegue com a minha classe. Sei que notícias sobre o suposto interesse de vários clubes brasileiros (Fluminense, Flamengo e Corinthians, para citar apenas alguns exemplos) na contratação de Liedson dá pessoalmente jeito a toda a gente a quem não interessa que dê: a José Eduardo Bettencourt, que coloca mais um jogador no mercado, angustiado que deve andar com a urgência de recuperar pelo menos algum do dinheiro investido em apostas tão ridículas como Sinama Pongolle (€ 6,5 milhões, tanto quanto me lembro); a Costinha, que assim se vê abrir a hipótese de esvaziar ainda mais a pouca massa crítica que resta ao Sporting, de forma a poder exercer livremente a sua inacreditável e medíocre ditadurazinha; e mesmo a Jorge Mendes, que desta forma pode começar a planear colocar mais um ou dois pernas-de-pau no plantel de Paulo Sérgio, independentemente da comprovada incompetência de quase todos os jogadores que já lá meteu.

E sei que, se o Sporting se desfizer agora de Liedson, por dois, por cinco, por dez ou mesmo por vinte milhões de euros, me penduro num mastro de Alvalade aos gritos, a ver se a CNN, a CMVM, o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem e o próprio Deus Pai abrem os olhos para o que de absurdo e de criminoso tem sido feito neste clube que movia o coração de dois ou três milhões de portugueses agora órfãos de dessa injecção de adrenalina e de camaradagem e de entretenimento que era o futebol (e, para eles em particular, o Sporting). Liedson é o único verdadeiro grande jogador de futebol que passou pelo Sporting desde a vitória no último campeonato, em 2002. Pelo contrário, estes senhores que agora dirigem o clube (e, aliás, os senhores que o geriam antes dele), não têm feito outra coisa senão despojá-lo de tudo aquilo em que lhe restava um mínimo de vitalidade. Quando hoje olho para José Eduardo Bettencourt, já não me surpreende apenas que tenha chegado a presidente do Sporting: surpreende-me mesmo que tenha chegado a administrador de um banco (embora isso possa ajudar-nos a perceber as preocupações que a nossa economia vai provocando em toda a gente menos em nós próprios). O Sporting como o conhecíamos já acabou há muito. E, por este andar, nem Sporting como o conhecíamos, nem novo Sporting de todo: não restará Sporting nenhum. Tenham vergonha, por favor. Liedson no mercado, não. É de mais.

CRÓNICA DE FUTEBOL ("Futebol: Mesmo").

Jornal de Notícias, 8 de Outubro de 2010

(imagem: © www.4.bp.blogspot.com)

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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