Sábado, 25 de Julho de 2009
publicado por JN em 25/7/09

Interpelado durante a madrugada por Cristiano Ronaldo, que lhe terá partido o vidro do carro ao pontapé, Hugo Martins tornou-se de repente o homem a conhecer. Pequeno e franzino, sem formação ou pretensões artísticas como fotógrafo, ele vem construindo fortuna como paparazzo. Pode ganhar até três mil euros por fotografia e até dez mil por semana, verbas tão altas para empregados de mesa como para repórteres ou massagistas brasileiras – e a sua eficácia é tal que os restantes paparazzi portugueses há muito começaram a chamar-lhe “O Talibã” (o que talvez não represente grande cartão de visita quanto à respectiva competência em matérias de actualidade internacional, mas isso é o menos). Há umas semanas, quando perseguia Ronaldo por Lisboa na companhia de uma menor de 17 anos (o papel da rapariga na história não ficou claro, mas cada hipótese é pior do que a outra), Hugo foi apanhado pelo jogador. A miúda terá sido assistida no hospital, ele desapareceu de circulação. A “Sábado” andou à sua procura, mas não o encontrou. A “Sábado” costuma encontrar quem procura. O Talibã simplesmente não quer aparecer.

E eu acho a sua decisão inteligente. Ele sabe que o segredo, muitas vezes, é a alma do negócio – e que, no seu negócio em particular, o anonimato é o melhor segredo de todos. Mais do que isso, porém, ele sabe que a única forma de pôr-se a salvo dos paparazzi é evitar todo e qualquer contacto com o que quer que tenha a ver com paparazzi: fotógrafos armados em paparazzi, revistas que publiquem materiais de paparazzi ou mesmo (como é o caso) publicações sérias em reportagem sobre o mundo dos paparazzi. Só ainda não o percebeu quem não o quis: no dia em que pela primeira vez abrir a porta de casa a um “jornalista” interessado em entrevistá-lo a propósito apenas da linda cor dos seus olhos, o homem do século XXI passa de imediato a fazer parte do mundo onde a linda cor de um par de olhos é notícia digna de registo. Nesse primeiro dia, vai lucrar com o encontro: torna-se famoso, ganha mercado, põe-se no mapa da publicidade, talvez até promova a carreira (depende da carreira). A partir daí, é sempre a descer. Ao segundo encontro, a entrevista já serve tanto ao “jornalista” como a ele. Ao terceiro, a entrevista serve apenas ao “jornalista” – e, de então até andar aos pontapés de madrugada, tudo depende da paciência de cada um.

São reles, os paparazzi? Ah, são. Se eu lhes partia o vidro do carro (e os dentes também)? Ah, pois partia. Acontece que um almoço nunca é de graça. É a segunda frase feita que uso hoje, não é? Pois então cá vai a terceira: ajoelhou, vai ter que rezar. Cristiano Ronaldo não seria pior jogador de futebol sem os paparazzi, mas venderia menos camisolas sem eles. É triste, mas é assim que se constroem os mitos deste século. Os ícones pop. As estrelas de rock. Querem que vos diga mesmo? Há fotos de paparazzi, em Portugal, que até são combinadas. A Pipi e a Cacá e a Totó telefonam elas próprias para os fotógrafos, a informar que a determinada hora vão sair das Amoreiras cheias de compras; o paparazzo diz que vai estar atrás de certo vaso de plantas, agachado para poder apanhar a ramagem como se estivesse mesmo escondido, e que portanto a “relações públicas”, a “DJ” e a “ex-mulher de futebolista” devem trazer os sacos pendurados no braço esquerdo; feita a foto, o paparazzo vai vendê-las às revistas – e, entretanto, não se esquece de guardar quinhentos euros para a “mãe do menino doente”, a “activista dos direitos dos animais” e a “esposa extremosa que o futebolista famoso [o sacana] abandonou”.

Às vezes não são quinhentos euros: são trezentos. E às vezes não são trezentos: são cento e cinquenta. É desses cento e cinquenta euros que esta gente vive. E foi perante aqueles que alimentam esta gente a doses de cento e cinquenta euros que Cristiano Ronaldo andou a pavonear-se com a Nereida na Sardenha, com claras vantagens para a actual venda de camisolas. Portanto, chegou a altura de pagar. De resto, o mundo é assim mesmo: onde há procura também há oferta. Alguém está interessado em ver o rabo de Cristiano Ronaldo? Pois o melhor é Cristiano Ronaldo inspeccionar bem a casa de banho – não tarda há um paparazzo que lhe instala uma câmara ao lado do WC Pato. Tanto quanto me diz respeito, tudo isto não é outra coisa senão divertido. Assim como assim, eu já sei que não vou poder contar com os jornalistas sérios para me trazerem as imagens da próxima ida da Megan Fox às praias de Malibu. A procura, bem vistas as coisas, sou eu. Somos nós. Não o somos sempre?


CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 25 de Julho de 2009

tags:
Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
pesquisar neste blog
 
arquivos
livros de ficção

"Os Sítios Sem Resposta",
ROMANCE,
Porto Editora,
2012
Saber mais


"O Citroën Que Escrevia
Novelas Mexicanas",
CONTOS,
Editorial Presença,
2002
Saber mais
Comprar aqui


"O Terceiro Servo"
ROMANCE,
Editorial Presença,
2002
Saber mais
Comprar aqui
outros livros

Bíblia do Golfe
DIVULGAÇÃO,
Prime Books
2011
Saber mais
Comprar aqui


"Banda Sonora Para
Um Regresso a Casa
CRÓNICAS,
Porto Editora,
2011
Saber mais
Comprar aqui


"Crónica de Ouro
do Futebol Português",
OBRA COLECTIVA,
Círculo de Leitores,
2008
Saber mais
Comprar aqui


"Todos Nascemos Benfiquistas
(Mas Depois Alguns Crescem)",
CRÓNICAS,
Esfera dos Livros,
2007
Saber mais
Comprar aqui


"José Mourinho, O Vencedor",
BIOGRAFIA,
Publicações Dom Quixote,
2004
Saber mais
Comprar aqui


"Al-Jazeera, Meu Amor",
CRÓNICAS,
Editorial Prefácio
2003
Saber mais
Comprar aqui