Sábado, 19 de Junho de 2010
publicado por JN em 19/6/10



De todos os choques emocionais vividos a pretexto deste Mundial, o mais divertido tem sido assistir ao empenho da benficagem em transformar cada pequena coisa que acontece em algo “sobre” eles próprios. Na verdade, eu já conhecia a mania: apesar de, no seu pior dia, Pauleta ter sido sete vezes melhor do que Nuno Gomes no seu melhor, passei cinco ou seis anos, durante os jogos da selecção, a ouvir gritos de apelo à entrada do jogador do Benfica para o ataque, que, ele sim, haveria de resolver aquilo tudo.


Este ano, com a vitória no campeonato, é pior ainda. No Portugal-Costa do Marfim, Fábio Coentrão foi o melhor titular e Rúben Amorim o melhor suplente. O melhor treinador, infelizmente, não foi português: foi Eriksson – mas Eriksson, como bem se recordam, aprendeu tudo o que sabe no Benfica. E, aliás, o mérito não foi só dele: como dissociar da boa prestação marfinense as dicas de Toni, benfiquista dos sete costados, sobre a forma de jogar da equipa portuguesa?


É, para mim, uma esquizofrenia indecifrável. Até hoje, só tive um cubismo na selecção: Pauleta, cuja existência foi a melhor coisa que aconteceu à auto-estima do meu povo em mais de trinta anos. De resto, nunca, por nunca ser, me recordo dos clubes em que joga cada um dos seleccionados. Mesmo Simão, que foi um autêntico sacana para os sportinguistas que haviam celebrado os seus primeiros passos no futebol – mesmo com Simão em vibro. E, se alguma coisa elogiei na convocatória de Queiroz, foi precisamente o facto de, embora havendo inicialmente posto de sobreaviso tantos jogadores do Sporting, ter acabado por deixá-los quase todos de férias.


Mas não deixo de sentir uma pontinha de inveja da benficagem. Em tempos como este, uma fé de tais dimensões deve ser melhor do que uma armadura. Está a economia de pantanas, o desemprego a alastrar como um maluco – “Não faz mal. Viva o Benfica! Hic.” Os políticos parecem agora de carácter duvidoso, a Justiça cada vez mais incapaz de desmascará-los – “Que se lixe. Viva o Benfica! Hic.” Portugal está aflito, as contas no grupo de repente estramalhadas – “Paciência. Viva o Benfica! Hic.” E vai de promover as entronizaçõezinhas do costume.


Que, após um jogo colectivo de tal forma desinspirado, se consiga ver brilhantismo em Fábio Coentrão, era uma tontice se não fosse encantador. Quem viu os jogos do Brasil, do Chile ou do México sabe bem como deve jogar um lateral, indo à linha e mesmo derivando para a área – e Coentrão jogou num escasso quadradinho, cumprindo apenas a metade mais fácil da sua missão. Mas desenganá-los para quê? Em tempos assim, vale a pena constatar que ao menos alguns portugueses estão felizes. Hic.


ESPECIAL MUNDIAL ("Missão: Arco-Íris"). Jornal de Notícias, 19 de Junho de 2010

1 comentário:
De Nuno a 4 de Julho de 2010 às 23:03
Foi também a benficagem na comunicação social estrangeira que considerou Fábio Coentrão um dos 5 melhores jogadores jovens do Mundial e dos melhores laterais-esquerdos deste Campeonato do Mundo ?
A cegueira quando aparece, é para muitos ...

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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