Sexta-feira, 7 de Maio de 2010
publicado por JN em 7/5/10



1.
Estou de acordo com boa parte do que diz Pedro Pinto Souto. José Eduardo Betencourt verificou-se efectivamente “um logro” – e, embora esta paronomásia em particular seja de modesta retórica, o mais provável é que se tenha revelado também pouco mais do que um “puto da Costa”. Por esta altura, estou seguro disto que digo: o Sporting, assim, não vai lá. Não só porque 2009-2010 provou amplamente o fracasso deste tipo de gestão como, ainda por cima, o seu presidente continua a achar que a gestão foi positiva, que a base da equipa “é boa” e que, portanto, “três ou quatro ajustes” chegam para tornar-nos competitivos em 2010-2011. É desconcertante. Até os caniches de Ivan Pavlov perceberam que, quando a campainha tocava, estava na hora de salivar. No Sporting, temos uma sirene aos berros há que tempos – e, no entanto, ninguém se alarma.


O problema é que Pinto Souto chegou a representar uma esperança para muitos sócios leoninos, mas nem por isso levou em frente essa promessa. Ora, para mandar bocas já cá estamos nós, colunistas e sócios anónimos – toda uma parafernália de sofredores que diariamente choram a desgraça, a miséria e o vazio em que este clube se tornou. Se Pinto Souto tinha um “compromisso de seriedade” (sic) com Soares Franco, razão pela qual acabou por não avançar no ano passado contra José Eduardo Bettencourt, foi porque estabeleceu um compromisso com a pessoa errada – e, aliás, porque esta decidiu validá-lo em favor de uma segunda pessoa errada também. Na verdade, Pinto Souto não tem razão sequer quando diz que esta direcção deve cumprir o seu mandato até ao fim. No fim deste mandato, pode já não sobrar nada (se é que ainda sobra grande coisa).


Por favor, dr. Souto: chegue-se à frente. Chegue-se à frente já. O Sporting não pode esperar mais – e muito menos pode esperar mais três anos sob a liderança de um presidente que, a acreditar no que o senhor diz, “mente aos sócios”.


2. Olho para os 50 pré-convocados de Queiroz e gela-se-me a espinha: o Sporting é o clube que mais jogadores coloca entre aqueles com possibilidades de chegarem ao Mundial. Daniel Carriço, João Moutinho, João Pereira, Liedson, Miguel Veloso, Pedro Mendes, Rui Patrício, Tonel e Yannick – todos eles estão na calha para representar a selecção na África do Sul. E, embora seja de crer que Yannick não tenha grandes hipóteses, que Tonel e Daniel Carriço nunca irão juntos e que João Pereira talvez não tenha conseguido mostrar num clube grande (e, portanto, em ambientes mais exigentes) a mesma utilidade exibida no Sporting de Braga, a verdade é que são muitos.


Eu tremo. Em princípio, e sendo sportinguista, teria todo o gosto em ver muitos jogadores do Sporting na selecção. Foi sempre isso que senti ao longo dos anos, aliás. Mas a questão é que a selecção, este ano, é a única coisa com que homens como eu podem vibrar – e mau será que aquilo com que ainda podemos vibrar volte a ficar nas mãos dos mesmos. Desenganemo-nos: o Sporting é efectivamente quem mais investe nos jogadores portugueses. Mas vários destes jogadores não servem sequer para o Sporting, quanto mais para a selecção.


3. A iniciativa “Queremos a Selecção de Bigode no Mundial”, em curso no FaceBook, é uma oportunidade de ouro para a equipa de Queiroz (e o próprio treinador) mostrar cumplicidade com os adeptos nacionais e, aliás, atenção às novas tendências sociais. Se andamos há seis meses a cantar o insuportável “I Gotta Feeling”, então, decididamente, os jogadores deixarem todos crescer os bigodes até seria um gesto pequeno. Para além de que seria mais português.


CRÓNICA DE FUTEBOL ("Futebol: Mesmo"). Jornal de Notícias, 7 de Maio de 2010

1 comentário:
De jorge espinha a 8 de Maio de 2010 às 13:19
caro joel


Bom fim de semana!
Em relação à selecção nacional, já tenho o problema resolvido há anos. Eu só tenho um clube , o Sporting. A selecção facilitou-me a tarefa , pois nem jogadores nacionais tem . para além do mais o verdadeiro futebol joga-se entre clubes, as selecções são hoje uma cópia manhosa do futebol.

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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