Sexta-feira, 23 de Abril de 2010
publicado por JN em 23/4/10



1.
Não esperem daqui críticas prévias ao trabalho de Paulo Sérgio. Desde os tempos do Santa Clara que o vinha seguindo e pelo menos desde os tempos do Paços de Ferreira que estava convencido de que chegaria a um grande. Quando falhámos a contratação do “novo José Mourinho”, convenci-me de imediato de que a escolha passaria pelo “novo Jorge Jesus”. Em muitos aspectos, Paulo Sérgio é efectivamente parecido com o treinador do Benfica: joga ao ataque, é um pouco truculento no discurso e, principalmente, nunca fez parte das elites do futebol português. Falta-lhe arrogância, é certo – mas também não me parece que Jesus tire grande partido da que lhe sobra.


Do ponto de vista técnico, e nomeadamente depois de ficar claro que não teríamos um monstro sagrado, Paulo Sérgio não é uma má solução. O problema é que o sucesso da sua passagem pelo Sporting dependerá da sua dimensão humana, muito mais do que das suas qualidades técnicas. A Paulo Sérgio, o que se exige agora é que chegue a Alvalade e se faça temer por pessoas que até em admirá-lo terão dificuldades. Que se faça temer pelos jogadores, habituados muitos deles à inércia e ao desmazelo. Que se faça temer pelo presidente, um homem um tanto às aranhas e ainda sem uma linha clara de actuação. E, sobretudo, que se faça temer pelo director desportivo, esse canhão perdido que cedo farejou a fragilidade da estrutura e a tomou de assalto, complicando a equação.


Que plantel Paulo Sérgio exigirá e que plantel o Sporting lhe dará – eis o chamado cerne da questão. No fundo, que força reivindicativa terá Paulo Sérgio, que verdadeira vontade de mudar terá a administração do clube e que grupo de jogadores sairá dessa tensão. Mais um ano como os últimos quatro simplesmente significará o fim do Sporting tal-como-o-conhecemos. Que não é o Sporting dos dois títulos em 28 anos, note-se. Apesar de tudo, ainda vivem sportinguistas recordados de outros tempos. Não por muitas mais gerações, infelizmente.


 


2. “Eu tenho uma suspeita/ Que hoje vai ser uma boa noite/ Que hoje vai ser uma boa noite/ Que hoje vai ser uma boa, boa noite”. Assim reza, numa tradução esforçada, o tema dos Black Eyes Peas que Carlos Queiroz escolheu para animar o balneário de Portugal, que os media escolheram para nos atazanar a cabeça até ao Mundial e que, aliás, o BES escolheu para vender mais uns produtos milagrosos em tempos de crise. E eu, sinceramente, já não posso ouvi-la. Antes a Nelly cantando o “Como uma força”, que ao menos sempre podia ser utilizado pelas raparigas mais levianas para tirar o juízo aos fanáticos da bola.


Tanto quanto sabemos, a canção surgiu em ambiente de selecção levada por um jogador de que não conhecemos a identidade, mas apenas a estatura intelectual e, aliás, o grau de bom-gosto. Por alguma razão absurda, a coisa pegou. Por alguma razão mais absurda ainda, Queiroz decidiu honrar esses deuses do hip hop que dão pelo sintomático nome de “ervilhas de olho preto” (que sempre é uma forma mais gira de dizer “feijão frade”) com a avocação do tema como canção oficial da campanha, numa série de intervenções públicas que a TSF, louvado seja Deus, não se cansa de recordar-nos (“Ái gáis, téncs sao mâtch fór iôr sapôrt…”). E, pela mais absurda de todas as razões absurdas, alguém conseguiu convencer toda a gente de que a cançoneta efectivamente nos mobilizará.


“Vamos fazê-lo/ Vamos fazê-lo/ Vamos fazê-lo/ Vamos fazê-lo/ E fazê-lo e fazê-lo/ Vamos vivê-lo/ E fazê-lo e fazê-lo/ E fazê-lo, fazê-lo, fazê-lo/ Vamos fazê-lo, vamos fazê-lo/ Vamos fazê-lo.” Isto vai ser um belo Verão sim senhor…


CRÓNICA DE FUTEBOL ("Futebol: Mesmo"). Jornal de Notícias, 23 de Abril de 2010

Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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