Sexta-feira, 2 de Abril de 2010
publicado por JN em 2/4/10

A mudança de André Villas Boas para Alvalade não pode ser recebida de outra forma senão com esperança. Sim, é verdade: o que está por detrás dessa esperança é ainda o fantasma de José Mourinho, génio que dificilmente alguma vez será igualado pelos seus sucedâneos. Sim, é verdade também: Villas Boas é colocado em Alvalade pelo empresário Jorge Mendes, que já lá colocara Costinha, começando por isso a ter uma influência cada vez maior na estrutura do clube. Mas não tenhamos dúvidas: se temos mesmo de ficar na mão de um empresário (e é provável que o tenhamos, vista a incompetência dos profissionais do clube no recrutamento de bons jogadores), então mais vale que estejamos na mão do melhor. Para além do que é essencial mudar por completo a filosofia que rege aquele balneário, aquele departamento de futebol, aqueles gabinetes de administração – e contratar um treinador de 32 anos, principalmente tendo em conta que o treinador será para sempre a figura mais importante de um clube de futebol (menos no FC Porto, menos no FC Porto), talvez seja de facto a melhor forma de fazê-lo.


Quanto a André Villas Boas ele próprio, pois o que conhecemos é sobretudo o seu curriculum vitae e os seus dados estatísticos. Pois, embora seja ainda bastante jovem, Villas Boas trabalhou uma série de anos com os melhores do mundo, ao lado dos quais compreendeu o que é um grande campeonato, como se lida com as vedetas e de que maneira se abordam os grandes momentos. Já na Académica, e embora a sua equipa esteja ainda (teoricamente) envolvida na luta pela manutenção, conseguiu pegar num grupo de jogadores bastante modesto e fazê-lo enfrentar qualquer adversário de peito aberto. É verdade que não obteve os mesmos resultados que Mourinho obteve na União de Leiria, mas também é preciso não esquecer que não herdou o trabalho que, em Leiria, Mourinho herdou de Manuel José. De resto, Villas Boas é um pouco truculento na comunicação, sim – mas, que diabo, também Mourinho o era (e é). E, de qualquer maneira, por esta altura, nenhum de nós tem já expectativas quanto a que alguém faça no Sporting o que o Special One fez no Porto. Recuperar alguma dignidade já não será nada mau.


Mas há mistério nisso, claro. Porque, para recuperar alguma dignidade, é preciso mudar mesmo tudo. E ainda no outro dia um amigo, de resto ex-jogador do Sporting, me dizia que são absolutamente quiméricas quaisquer exigências para que pelo menos metade do plantel seja substituído. “Estás um bocado desfasado do futebol moderno”, sublinhou. Ora, embora a minha resposta seja sempre com as palavras do próprio José Eduardo Bettencourt (“O Sporting não se adaptou aos tempos modernos”, sendo portanto o clube que está desfasado), não deixo de ficar expectante quanto a duas coisas. A primeira é se, em Alvalade, se percebe que mudar radicalmente o perfil do treinador não é ainda mudança suficiente. A segunda é se André Villas Boas, na natural ânsia de chegar depressa a um grande, percebe que, para o Sporting ser verdadeiramente um ponto de partida para uma carreira internacional, é fundamental atacar a própria visão que jogadores e ex-jogadores leoninos têm do clube. Carlos Carvalhal, por exemplo, pareceu de início percebê-lo, mas depressa se deixou atolar no imobilismo.


CRÓNICA DE FUTEBOL ("Futebol: Mesmo"). Jornal de Notícias, 2 de Abril de 2010

1 comentário:
De jorge espinha a 6 de Abril de 2010 às 18:28
caro joel

No momento em que eu lhe escrevo a Académica de Coimbra tem seis vitórias, 6 vitórias!!! Como disse , a Académica ainda não está livre da despromoção. Um bom treinador (já não falo dum treinador fora de série) é um treinador que faz a equipa transcender as suas limitações. Perder em casa 2-3 com o Rio Ave não me parece nada transcendente.
De onde vem a reputação de Vilas Boas? O que fez vilas Boas de extraordinário? Carvalhal fez bem mais quando passou pelo Setúbal.
Quer-me convencer que é um fedelho que vai pôr as coisas na ordem em Alvalade?
Como é que se constroem reputações , assim, a partir do nada ?

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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