Sábado, 18 de Julho de 2009
publicado por JN em 18/7/09

“Saber esperar é uma virtude”, dizem-me – e portanto lá fui, como quem parte em safari. Não ia cedo: há dois anos e nove meses que tinha as palavras “Fazer Cartão Único” a piscar no computador – e há dois anos e nove meses que adiava sistematicamente a nota, o coração num desalinho só de pensar na sala de espera. Mas dias ocorrem em que um homem acorda com vontade de fazer-se um homem – e havia já para aí um mês que eu me vinha preparando para o embate, limpando a agenda, reunindo documentos, procurando ocupações para aquelas sete ou oito horas sentado numa cadeira a olhar para ontem. E então, na quinta-feira, lá parti para a minha expedição: mochila às costas, garrafa de água, sapatos confortáveis, sandes de queijo, três jornais, seis revistas, telemóvel carregado, um romance de Hawthorne para o caso de tudo o mais falhar – e aí vai ele, virtuoso agora, com a particularidade de ter começado pela mais chata das virtudes.

Tirei a senha 151, capicua que me pareceu de bom augúrio (a superstição é o primeiro refúgio do homem desesperado), e juntei-lhe, numa regra três simples, o tempo decorrido desde a abertura dos serviços e os números que já tinham sido atendidos. Havendo “sistema”, restavam razões para ter esperança em ainda ir passar o Natal a casa – e, além disso, os Serviços Sociais da Câmara de Lisboa (assim se chamava o lugar), com o seu barzinho e o seu quiosque e a sua caixa multibanco, não eram tão maus como eu pensara. Ademais, quarenta e cinco minutos depois de chegar já eu tinha conseguido sacar a melhor coluna da sala para me encostar. Pensei “Ah, qualidade de vida…” – e mergulhei nas minhas tarefas. Li dois jornais de enfiada – e, ao descobrir num deles que Megan Fox apenas aceita namorar com homens tatuados, ainda tomei uma importante decisão para a minha vida. Telefonei ao Arlindo, que fazia anos – e, ao conversar demoradamente, quando na verdade quinze segundos ao telefone costumam causar-me urticária (para natural incómodo do interlocutor), ainda subi uns pontos na consideração dele.

Duas horas e meia depois, com os jornais lidos e os telefonemas feitos e a sandes comida, começaram a falhar-me as pernas. Mas vagou de repente uma cadeira – uma cadeira meio bamba, mas de onde eu podia ver o ecrã com os números em atendimento, assim conseguisse torcer o dorso sobre o cóccix como as contorcionistas chinesas – e senti-me melhor outra vez. Até que a funcionária do fundo, mergulhada no caos de cartões e guias e declarações atirados sobre a mesa por um cidadão tão relapso como eu (se não mais), soltou um espirro violento – e a sala fez silêncio. Dois segundos apenas, talvez – mas silêncio. E, quando alguém libertou a palavra “gripe”, distinguindo-se no burburinho que recomeçava, a mulher ergueu os papéis ao alto, deixou-os cair com o estrépito possível, compôs os óculos e gritou em redor: “Gripe? Quem me dera! Quem me dera!” – e o último “e” prolongou-se um nadinha, em sinal de ênfase.

Só ali me dei conta das pessoas que ali estavam – e, curiosamente, o resto do dia foi uma delícia. Eu vi duas mulheres que discutiam aos gritos, uma cidadã e uma funcionária, porque uma era mal educada e a outra também. Eu vi as crianças que traziam os seus Magalhães, abrindo-os e fechando-os apenas pelo prazer de abrir e fechá-los. Vi o homem gordo, mulato e gay, cheirando tão mal das axilas que obrigou várias pessoas a ir respirar ao corredor. Vi as mães adolescentes que iam, orgulhosas, registar o seu nenuco. Vi a funcionária que se chateava quando os cidadãos chamavam “Cartão Único” ao Cartão do Cidadão, medrosa de nunca mais poder abreviar o nome com uma sigla. Vi as senhoras que se riam como crianças perante o sistema electrónico de fotografia e medição. Vi os homens que hesitavam na hora de assinar, conscientes de que aquela caligrafia ainda podia vir a ser o seu último cartão de visita. Vi os estilosos que conversavam alto e se esforçavam por mostrar-se acima daquilo tudo. E vi uma funcionária jovem e bonita (juro que vi) interromper uma colega com a seguinte pergunta: “Está ali um senhor a dizer que nasceu na União Soviética. Que raio de país é esse?!”

Estive lá quatro horas e vinte e cinco minutos – e hoje, se pudesse, repetia tudo. Fechado entre as quatro paredes de onde costumo escrever-vos, tenho muitas vezes a impressão de que, num mundo a sério, nem sequer andaria à solta. O Cartão do Cidadão devolveu-me um lugar neste manicómio – e pena tenho eu de não precisar agora de ir renovar cartões todas as semanas.


CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 18 de Julho de 2009

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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