Sexta-feira, 9 de Outubro de 2009
publicado por JN em 9/10/09

É curiosa, a forma como as coisas se passam hoje em dia no Sporting. Medíocre na Europa, a equipa de Paulo Bento está quase definitivamente enterrada (à sétima jornada, note-se) em Portugal. Antigamente, naqueles 17 anos de sufoco e tristeza, ainda chegávamos ao Natal. Agora nem isso. E, no entanto, aí anda José Eduardo Bettencourt, pelos jornais fora, dando o rosto ou falando por intermédio de “fontes próximas”: primeiro um momento de contrição (talvez o plantel não seja o ideal, coisa que de facto toda a gente já havia dito em Junho, mas no caso de forma claramente mal-intencionada), depois um momento de determinação (Paulo Bento é o treinador deste presidente, que há-de estar com ele “até ao fim”, apesar de não se sentir refém da palavra “forever”, proferida “em contexto eleitoral”), finalmente um momento de diversão, este em jeito de manobra (já agora, é interessante dar uma olhadela a esse absurdo fundo de investimento em que o Benfica está a basear a sua temporada).


Nada mais do que retórica, no fundo – como se, na verdade, fosse tudo a brincar. E, no entanto, de pouco nos serve desmontar as entrevistas, as conferências de imprensa e os relatos de como as coisas verdadeiramente se discutem nas torres de marfim do Lumiar. No momento em esboçamos fazê-lo, já aí está a segunda parte da sempre brilhante estratégia de comunicação leonina: o recurso ao “jornalismo de investigação”. Segundo a maior parte dos elementos do Conselho Directivo, sabe o nosso jornal, são as lesões e as arbitragens a explicar estas derrotas e estes empates todos. De acordo com o que conseguimos apurar, Paulo Bento continua a gozar de óptimo acolhimento por parte dos jogadores, que o apoiam em massa. Ao que garantem vários elementos do Conselho Leonino inquiridos pelo nosso jornal, o que é preciso é dar tranquilidade à equipa, porque a solução para esta crise está no balneário. E, de novo, fica por explicar o essencial: quantas mais vezes é preciso o Sporting partir a cabeça, as pernas e as costelas até considerarmos que, enfim, ele bateu no fundo?

Pois, mais uma vez, não é preciso explicá-lo. Entretanto, já os mesmos jornais nos puseram a pensar noutra coisa ainda: as estatísticas. Por exemplo: sabiam os sportinguistas que, das onze trocas de treinador operadas a meio da época desde 1989, só uma (Giuseppe Materazzi por Augusto Inácio) resultou de forma ótima? Sabiam os sportinguistas que o projeto da formação leonina já rendeu 62 milhões de euros? E sabiam os sportinguistas que, apesar do afeto de que ainda hoje (já depois da sua morte) goza entre os adeptos leoninos, Bobby Robson começou a época de 1992-1993 com resultados ainda piores do que os de Paulo Bento? Claro: uma pessoa podia passar o dia online, nos sites dos jornais, a responder-lhes à letra. Do tipo: “Por outro lado, o Sporting só ganhou o campeonato duas vezes desde 1989, pelo que 50 por cento das vezes que ganhou foi após trocar de treinador.” Ou: “Certo, certo. Mas quantos desses 62 milhões foram investidos em jogadores? Quantos desses 62 milhões tocaram ao nosso bem comum? Quantos campeonatos ganhámos com base nesses 62 milhões?” Ou ainda: “Tudo bem. E isso é bom, é?”

Não vale a pena. Dali a pouco já estamos todos a discutir outra matéria ainda, agora em forma de notícia: a tremenda disputa entre o Chelsea e o Manchester United pelo passe de Daniel Carriço. Por acaso, não me admira: nós também já vendemos Nani ao Manchester – a partir daí, de facto, tudo é possível. Mas a certeza absoluta com que se fica é que este Sporting se joga cada vez mais nas páginas dos jornais e cada vez menos dentro de campo, no balneário, sequer nos gabinetes de administração. É uma ficção, no fundo. Tornou-se num clube de ficção. E, a certa altura, um homem perde o alento: já só lhe apetece baixar os braços e entrar na novela também.


CRÓNICA DE FUTEBOL ("Futebol: Mesmo"). Jornal de Notícias, 9 de Outubro de 2009

6 comentários:
De Pedro Rui a 9 de Outubro de 2009 às 22:26
Rejubilaria se o ouvisse da boca de um Portista.
Entristece-me, escrito pela pena de um Sportinguista.
Mesmo que seja a mais cristalina verdade...
De Jota a 10 de Outubro de 2009 às 10:27
Uma das coisas que mais me custa é ouvir a ladainha das diferenças de orçamentos. Como se fosse tudo uma questão de sorte. Ou seja, como se ao Porto tivesse saído o Euromilhões e ao Sporting, que também joga todas as semanas, não. Como se o facto de o Sporting ser um clube pobre não tivesse nada a ver com a gestão que a dinastia que governa o clube há 14 anos tem promovido. Nós vendemos o melhor produto de sempre das nossas escolas por 17,5 milhões. O Porto vende defesas centrais por 30 milhões e defesas laterais por 20 milhões. No dia em que os cartolas perceberem que a nossa indigência se deve à incompetência deles talvez possamos começar a reverter a situação. Mas sou homem de pouca fé.
De Tite a 11 de Outubro de 2009 às 16:18
E porque não devem os Sportinguistas ajudar a corrigir os erros do seu próprio clube em vez de perder tempo a dizer mal dos outros clubes só porque são adversários?
De Tite a 11 de Outubro de 2009 às 16:25
Agora, depois de ouvir JEB dizer que tem uma boa proposta para ajudar a resolver todos os males do Sporting, percebi onde é que eles querem chegar.
À alteração dos estatutos que levou FSF a convocar a AG e que por duas vezes o contrariou.
Devagar, devagarinho, vamos cá tentar de novo com outra capa e com outro Presidente a ver se resulta.
Quem está por detrás de tudo isto. Os verdadeiros donos do Sporting. Os adeptos são apenas joguetes nas suas mãos até alterarem os famigerados estatutos.
Qualquer dia só falta dizer... Ou estatutos são alterados ou o Paulo Bento vai continuar no Sporting "forever ". Isto será para rir ou para chorar?
De Pedro Rui a 11 de Outubro de 2009 às 17:37
Sou Benfiquista. Tripeiro.
Mas tenho um carinho especial pelo rival da 2ª circular...
De jorge espinha a 18 de Outubro de 2009 às 12:42
Eu confesso que quando JEB ascendeu à presidência do clube , eu fiquei esperançoso. Na altura sacudi o facto de saber que JEB tinha sido o homem que vendera o Ronaldo. Não o deveria ter feito , assim como os sócios não o deveriam ter feito. JEB é um homem sem ambição, e sem visão. Justifica a presente situação com o diferencial dos orçamentos. A desonestidade intelectual é imensa. Estamos só na 7º jornada, a nível doméstico só jogámos com um clube que nos supera a nível de orçamento, o FCP . Perdemos pontos com o Braga cujo diferencial orçamental é de facto imenso mas a nosso favor. Empatámos com o Belenenses que é um clube que luta pela manutenção. Jogo após jogo, as exibições foram desastrosas , mas nunca justificadas pelo diferencial orçamental. Afinal de contas o Braga ainda não perdeu, e já jogou com o FCP .
Desde o primeiro dia que os discursos de JEB foram sempre negativos e castrativos . O que se poderá esperar de um clube que o próprio presidente é o primeiro a dizer que é uma merda ?

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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