Sábado, 11 de Julho de 2009
publicado por JN em 11/7/09

Aos nudistas, vi-os sempre como suburbanos tristes e empoeirados, confusos sobre o seu lugar no mundo e saudosos de um tempo em que tanto podiam proclamar-se hippies como soixante-huitards, que metia estilo na mesma. Mas encontrei-os em acção no Algarve, há umas semanas – e algo nos seus olhares provocou a minha inveja. Podia ser a “fusão com os elementos”, chiché com que alguns não desdenhariam de evangelizar-me. Não era. Seria, mais provavelmente, a pertença. E, como a angústia da pertença me comove sempre, mesmo em casos extremos como os dos adoradores de Marx, dos leitores de Paulo Coelho ou (até) dos benfiquistas, decidi ir experimentar.

Tenho um problema com a praia: não gosto daquilo. No sítio de onde venho, esparramamo-nos em cima da pedra e saltamos dali para a água – e aqui há sempre a areia que se me mete entre os dedos, nos fundilhos dos calções, no meio do jornal. Além disso, não percebo a euforia de um dia de praia em Lisboa. Uma pessoa acorda cansada, faz a trouxa a correr, apanha duas horas de trânsito, senta-se na areia a ouvir conversas tontas e pregões brejeiros e música cretina – e, depois do “descanso”, percorre outros três quilómetros ao sol, à procura do carro, só para apanhar nova fila de duas horas, ao longo das quais discorre sobre a vontade de repetir tudo no dia seguinte?

Não é entretém para mim. Mas este que aqui está, já sabem, raramente se nega a um sacrifício pelos seus leitores – e, se quer um dia ganhar o EuroMilhões, viajar até à Lua ou jantar com a Beyoncé na melhor mesa do Top Of The World (só para poder contar-vos como foi, o espírito de missão é assim mesmo), também tem de estar preparado para ir dar um mergulho com nenhuma outra vestimenta que não aquela que a natureza lhe deu.

O meu primeiro problema, naturalmente, foi de ordem metódica. Como é que uma pessoa se despe na praia? Leva calções na mesma, para depois os despir? E despe-os de imediato ou disfarça, sentando-se com eles vestidos e, depois sim, extraindo-os distraidamente, enquanto assobia em volta? Nada que me ocupasse demasiado, porém. Dois minutos depois de estender a toalha já este vosso servo havia como que regressado ao ventre materno – e cinco minutos mais tarde tinha dado um salto até à adolescência, vendo-se obrigado a virar a barriga para baixo, de forma a  evitar escândalos.

Não é que abundasse a beleza entre a vizinhança. Bem vistas as coisas, quase todos os circunstantes estavam já naquela idade em que se é mais bonito vestido do que despido. Mas havia uma vertigem erótica naquilo tudo. Um homem nu no meio de um monte de gente nua – era como que voltar ao Éden já depois do pecado original, aventura que sobre todas as outras inspirou poetas, pintores e pianistas.

Não me lembro dos rostos. Tanto quanto pude aperceber-me, no momento em que cheguei havia quatro ou cinco pares de velhotes, um casal de lésbicas e um solitário de meia idade com intenções piores ainda do que as minhas. Mas lembro-me que uma das lésbicas dispunha de uma bonita silhueta. Que uma das velhotas tinha má irrigação na região pélvica. Que o solitário engatatão era ridículo quando se baixava ostensivamente para apanhar conchas. Que o rapaz que entretanto chegou, acompanhado por uma rapariga dada a entrar e a sair da água como a Ursula Andress (sem o biquíni bege nem o punhal à cintura), gostava demasiado de jogar beach tennis para quem estava ali apenas para fundir-se com os elementos. Que pelo menos uma das velhotas gostava demasiado de vê-lo jogar beach tennis para deixar-se distrair com a sua própria fusão. E que todos eles, dos velhos às lésbicas e do solitário ao casal de Adónis, se aperceberam também do meu corpo belo e escultural, cujos defeitos servem apenas para contar histórias, à maneira de Flaubert.

Quando fui dar umas braçadas, vesti os calções. Não quis ser surpreendido enregelado, claramente aquém, digamos, daquilo que valho. Depois, no entanto, voltei a despi-los. Ainda fiquei na dúvida sobre até onde deveria passar o protector – mas, mesmo assim, mantive-os despidos. Tive medo de encontrar um conhecido, igualmente nu, com quem tivesse de trocar um passou-bem, olá esta é a minha mulher, olá esta é a minha – mas mesmo assim, mais uma vez, despidos ficaram.

Hoje, segunda-feira, continuo sem saber se foi maior a vergonha ou a vontade. Mas, pela primeira vez em décadas, começo uma semana a pensar que no sábado talvez vá à praia – e a frescura dessa emoção devo-a mais à serpente que tentou Adão do que Àquele que o pôs nu no mundo.


CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 11 de Julho de 2009

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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