Sexta-feira, 11 de Setembro de 2009
publicado por JN em 11/9/09

Vejo um ranking internacional em que o Anderlecht aparece à frente do Manchester United e sei que chegou a altura de os benfiquistas celebrarem qualquer coisa. Ranking internacional em que o Anderlecht apareça à frente do Manchester United, suponho, é para isso mesmo: para abrir espaço a novas e inusitadas perspectivas sobre a realidade. Ou mesmo novas realidades. Realidades paralelas.


É claro que escrever o título “O Benfica É O Nono Maior Clube da Europa”, como todos os jornais deverão fazer hoje, não é uma nova e inusitada perspectiva. Há muito tempo que os benfiquistas reclamam o seu clube como o nono, o sétimo, o quinto, o terceiro, o primeiro maior clube da Europa – e há muito tempo que os jornais estimulam esse triunfalismo, convictos (talvez não sem alguma razão) de que mais vale a malta estar contente do que estar triste.

Mas escrever “O Benfica É O Nono Maior Clube da Europa” e poder, em defesa desse argumento utilizar o nome da Federação Internacional de História e Estatística do Futebol (IFFHS) já é uma nova e inusitada perspectiva. Bem vistas as coisas, parece quase verdade – e, se o Manchester United fica atrás do Anderlech (e de resto ambos atrás do Benfica), isso é só um pormenor.

Para a Federação Internacional de História e Estatística do Futebol, que aliás também me disse uma vez que o Sporting fora o maior clube do mundo durante um mês ou dois (já que se fala em realidades paralelas, isto é), o ranking dos maiores clubes da Europa define-se através da valoração das vitórias e empates nos jogos das competições Europeias, incluindo (por esta ordem de importância) a Taça/Liga dos Campeões, a Supertaça Europeia, a Taça das Feiras/UEFA, a Taça das Taças, a Taça Mitropa e a Taça Latina.

Constrangido com a presença da Taça Mitropa e da Taça Latina na lista? Então prepare-se para mais um constrangimento: ganhar uma final não conta nem mais nem menos um pontinho do que ganhar um jogo da primeira mão da respectiva taça. Uma vitória é uma vitória – eis uma espécie de novo marxismo aplicado aos domínios dos palmarés, dos rankings e dos debates de segunda-feira de manhã sobre quem tem um pénis maior (e quem tem um mais funcional).

Resultado: o Benfica foi o nono maior clube da Europa no século XX. O Anderlecht ficou à frente do Manchester United. E o Vitória de Setúbal ficou em 110º. Estão a ver todos os clubes da Europa? Todos os clubes de Espanha e de Itália e de Inglaterra e da Alemanha e da França e da Holanda e tudo o mais? Pois o Vitória de Setúbal foi o 110º entre todos eles.

Tanto quanto me diz respeito, esta Federação Internacional de História e Estatística do Futebol é mais ou menos como a nossa Entidade Reguladora da Comunicação Social: passa a vida fechada na sua torre de marfim, alheada da realidade, e depois tem de emitir uns comunicados, umas classificações e umas manifestações de preocupação óbvia para dar sinais de vida. Pois está completamente enganada – e, aliás, precisa de rever os seus critérios. Quer dizer: o Benfica até pode ter sido o nono melhor clube da Europa no século XX, mas foi seguramente um dos cinco melhores do mundo.


CRÓNICA DE FUTEBOL ("Futebol: Mesmo"). Jornal de Notícias, 11 de Setembro de 2009

3 comentários:
De Anónimo a 12 de Setembro de 2009 às 23:09
Exmo. Sr. Joel como deve calcular sou Benfiquista e embora saiba que defende outras cores fiquei perplexo ao ler esta crónica, pois não entendo o espanto do Glorioso ser o 9º clube europeu!! Caramba sempre são 100 anos de história. Pelo que sei poucos colossos europeus foram tantas vezes como o Benfica à final da liga/taça dos campeões europeus - Real Madrid, Milão e pouco mais. Infelizmente o indice de aproveitamento é escasso - duas em sete - mais uma final perdida na taça uefa e outras duas na intercontinental, para além de uma vitória na taça latina, e mais uma final perdida nesta prova, mas só perdemos porque estivemos lá; Pronto penso que por aqui estamos entendidos. Em relação ao United, grande clube europeu - talvez o mais rico - tem três taças dos campeões europeus, uma supertaça e uma taça das taças; ressurgiu a nivel interno a partir de 1992/93 conquistando 11 dos 18 campeonatos que detém, aliás nos anos 30 e 70 do sec XX andou pela 2ª divisão. No ranking IFFHS esta em 11º lugar logo atrás do Anderlecht, clube que atravessa uma fase menos boa mas que tem no seu palmarés internacional uma taça uefa duas supertaças europeias e duas taças das taças, também não é um clube qualquer. Aceito que ops critérios da IFFHS sejam subjectivos mas sinto orgulho em que o Benfica faça parte da elite , apesar do seu currículo menos conseguido ultimamente. Não será por esta e por outras que já escreveu que deixarei de ler o que escreve, em especial na "NS". Abraço
De SC a 17 de Setembro de 2009 às 00:23
Mais cambalhota, menos pontapé, mais cabeçada...tudo poderá ser desporto.
O Benfica em nono, ainda vá que não vá.... Agora o Anderlecht à frente do Manchester é que parece ser o busílis, a tal dor que dói sem doer...As tais realidades oblíquas e enviesadas...O tal novo trotsquismo de aviário...ou pénis disfuncional! Coisas da ERCS lá do sítio...
De jogos de luta a 3 de Maio de 2011 às 13:48
Gostei,Sara

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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