Sábado, 8 de Agosto de 2009
publicado por JN em 8/8/09

Quatro anos de pancada nos responsáveis do Sporting, incluindo Soares Franco e Paulo Bento, deixaram-me com medo de morder a própria língua. De maneira que foi de coração aberto que rumei na semana passada a Alvalade, para assistir ao Sporting-Twente. Sim: eu sabia que o miserabilismo das épocas anteriores se mantivera durante a elaboração do plantel para a nova temporada. Sim: eu já percebera que isso de José Eduardo Bettencourt ter começado a apelar à emoção representava apenas uma mudança de discurso, não de políticas. Sim: eu não tinha qualquer ilusão quanto à possibilidade de um grupo de jogadores que há dois ou três anos se vinha mostrando desprovido de génio e de força ter, entretanto, engolido a poção mágica de Astérix. Mas esperava, pelo menos, alguma ambição. Alguma vontade, algum empenho – algum, vá lá, do sonho cultivado pelos sócios que se deixaram encantar com a nova linguagem oficial. E não o encontrei.

Não o encontrei nem vou encontrá-lo. Escrevo antes de concluída a pré-eliminatória da Liga dos Campeões, mas sei que nem uma vitória esmagadora na Holanda mudaria o que quer que fosse. Eu li os jornais do defeso e vi os jogos da pré-época. Mais do que isso: eu tenho muitos defesos e muitas pré-épocas acumulados na memória. E sei duas coisas. A primeira é que o Sporting não tem jogadores: não tem um lateral que seja, precisa de pelo menos um central de categoria, não pode dispensar uma solução suplementar para cada uma das alas – e, de resto, quanto ao ataque, ainda vamos a ver o que vale Caicedo. A segunda, e muito mais importante, é que o Sporting não tem desejo. Tanto colectiva como individualmente, virou uma coisa penosa: um monte de gente a quem disseram que era preciso meter um golo, mas que não chega sequer a perceber porque é que isso de meter um golo é tão importante. Quem olha a partir daqui, início de Agosto, são mais nove meses iguaizinhos aos últimos anos: frustração atrás de frustração, um ou outro brilharete para disfarçar, mais frustração atrás de frustração. E, tanto quanto posso prever, ainda bem que Jorge Jesus já não está no Sp. Braga, que assim sempre temos a corrida ao terceiro lugar menos dificultada.

Obama pode anunciar o fim da crise quantas vezes quiser: a crise do Sporting, aquela que é sua e de mais ninguém, continuará. Porque não é económica, é estética. O Sporting que esta dinastia inventou apaixonou-se pela imagem do aristocrata falido. Acha-a charmosa, até elegante, seguramente superior. E cultiva-a. Não contrata jogadores nem se mistura com quem os contrate. Se pudesse, inventava mesmo um campeonato só para si: um campeonato em que seria sempre campeão e último classificado ao mesmo tempo – um campeonato, aliás, em que não haveria campeão nem último classificado, apenas um grupo de garbosos rapazes que dão sempre o seu melhor, mas que, de qualquer maneira, um dia destes vão ter de acabar com a brincadeira, pois há muitos negócios para gerir. Sim: José Roquette e Dias da Cunha e Filipe Soares Franco e José Eduardo Bettencourt e a maioria dos senadores que os acompanharam ao longo destes quinze anos não fizeram outra coisa senão transformar o Sporting naquilo que ele havia conseguido evitar ser durante décadas: um clube de queques. Um country club orgulhoso do seu ténis e do seu golfe e do seu bridge, mas persistentemente derrotado ao ténis, ao bridge e ao golfe por esses clubes arrivistas que nunca perceberam o que significam o ténis, o bridge e o golfe e se põem, tontos, a cultivar o mérito, essa estúpida mundanidade.

No meio, está Paulo Bento. Contente, talvez até orgulhoso, o que é o mais triste de tudo. No country club onde trabalha, não passa do professor de ténis – e ao professor de ténis de um country club, já se sabe, não resta outro destino senão ser desejado pelas senhoras e, no fim, exemplarmente castigado pelos homens. Cá em baixo, entretanto, espera-o a massa informe. Os sócios. A princípio, haviam-no visto como uma esperança: um de entre eles que, a certa altura, é chamado ao convívio do Olimpo. Mas foi ele o rosto da derrota e do desespero – e o seu corpo há-de ser arrastado pela vila, a reboque de uma carroça. E, então, os senadores voltarão a receber a aclamação do povo, que no fundo nunca perdeu a disponibilidade para dar a vida por ele. Na verdade, isto não é um sistema novo: funciona há milhares de anos em muitos lugares do mundo. E, embora ele quase nunca tenha trazido mais do que a fome e o ranger de dentes, sabe deus como à metade de cima desse sistema nunca faltou pão na mesa.


CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 8 de Agosto de 2009

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5 comentários:
De SC a 9 de Agosto de 2009 às 23:53
Apesar da visão catastrófica do cronista, reconheço o mérito das sucessivas políticas de dispensas e contratações de jogadores, e principalmente da manutenção do treinador, por parte dos dirigentes do Sporting nestes últimos anos em que, praticamente com a prata da casa, tem estendido o lençol à justa medida dos seus pés e tem conseguido melhores resultados do que o rival Benfica despesista inconsequente.
De mário a 11 de Agosto de 2009 às 16:04
Compreendo a contestação.
Esta operação de estética serviu para reduzir o passivo e ficar 4 vezes em 2º lugar, estar quase sempre na champions e não gastar muitos milhões como os rivais.
O que não se compreende é a falta de vontade e alegria de jogar futebol.
Não se percebe a falta de uma rotina, de hábitos .
já se deviam conhecer de olhos fechados...
Por outro lado , parece que P.Bento não tem autoridade, as rotinas são o comodismo ...
O que choca nisto tudo é a falta de alegria de terem o PRIVILÉGIO de jogar num clube como o SPORTING...
O futebol sem vontade é uma tristeza...isso nota-se em campo.

Será um grande feito este ano se o Sporting conseguir ficar, no mínimo , no 3º lugar...
De Joã0 Barroso a 18 de Agosto de 2009 às 14:28
Esta sua crónica, que li na revista NS, sinteza de forma brilhante o actual estado do Sporting. Mais do que os aspectos conjunturais desta pré temporada, é a faceta estrutural de Country Club onde não existem os valores do mérito, competitividade e ambição que estão a definhar o Sporting.
E pior que tudo, 90% dos sócios votantes das últimas eleições sufragaram esta estratégia, esta forma de estar.
Este não é o Sporting dos seus fundadores nem o meu.
De Rui Pereira a 19 de Agosto de 2009 às 22:50
Gostei da crónica e aprecio o autor pelo seu Sportinguismo e classe pessoal, sei que o Sporting esta doente mas as melhoras dependem de nós e da nossa atitude, e assobiar não é solução assim como o afastamento da equipa, pede-se raça de leão e essa já o PB não consegue introduzir, a ultima vez que o fez foi no fantástico jogo com o nosso rival para a taça onde demos a volta a 0-2 numa fantástica demonstração que o querer dos jogadores ganha à ambição do treinador.Sporting first !!!
De PB a 24 de Agosto de 2009 às 13:11
Não existe ATITUDE por parte da Equipa!

Não houve planeamento adequado para a pré-éopca (vários jogadores GORDOS para a sua profissão) e apenas 4 jogos de preparação !!!

Não existe um treinador com mente aberta:
- Que ponha os melhores a jogar, e no sitío onde o fazem melhor;
- Que aposte num guarda-redes mediano, nas melhores das hipóteses será bom lá para os 30. era preferível apostar no Ricardo Baptista que pelo menos tem margem de progressão;
- Que repita os mesmos erros vezes sem conta;
- Que não consegue perceber que é necessário ir à linha para criar desequilibrios;

Sim, estamos a fazer progressos na situação financeira ... de alguns, porque as dívidas aumentaram apesar da venda de património.

Não faço parte dos 90%, não porque não entenda que o JEB tenha perfil para ser o nosso presidente, mas porque manteve o Paulo Bento, o Pedro Barbosa e muitos dos que têm feito com que o SPORTING não faça aquilo que nós os adeptos mais queremos ... que jogue Futebol!!
!
JEB foi eleito e vai ser pago para gerir o nosso clube, devemos-lhe exigir que além dos discuros passe às acções e seja o primeiro a mostrar vontade de mudar a ATITUDE, neste caso a repô-la!!!

Saudações Leoninas

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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