Domingo, 21 de Agosto de 2011
publicado por JN em 21/8/11

Aos onze anos, o meu pai apascentava ovelhas em Porto de Mós. Levantava-se de madrugada, era destratado por patrões abrutalhados, alimentava-se desadequadamente, levava coices de mulas neuróticas e, em geral, tinha uma vida semelhante à de uma personagem de Steinbeck.

O serviço militar, a guerra colonial e, em particular, as Tropas Pára-Quedistas Portuguesas abriram-lhe horizontes e deram-lhe oportunidades, que na verdade foram as minhas oportunidades também. Mas a sua pré-história de sobrevivência, tal como a vontade indómita de que teve de socorrer-se para superar a sua condição, incrustaram-se-me no carácter.

Tenho de deixar de julgar as pessoas em função apenas da sua ética de trabalho, que me ponho velho. Mas a questão é que, quando olho para a malta de hoje (por favor, deixem-me usar a expressão “a malta de hoje”), sinto-me bem mais próximo do meu pai do que dela. E não falo apenas do ponto de vista moral (pobre daquele que, aos trinta, não chegar à conclusão de que, afinal, o pai é o melhor homem que já encontrou). Falo também do ponto de vista prático.

Há quinze ou vinte anos, apesar de tudo, ainda se fazia um esforço. A ideia que tenho é que, hoje em dia, já ninguém faz um esforço – e, se tenta, não sabe como fazê-lo, porque a tenacidade se diluiu no tempo, porque algures um elo se quebrou, provavelmente com a prosperidade. Nós não somos um povo ao qual a prosperidade assente bem, ou sequer faça bem.

Adiante. Na semana passada, precisei de comprar um estrado para uma cama. Está bem, está bem: bastava-me ir ao Ikea, à Moviflor ou a qualquer outra mega loja de mobiliário formatado, que tinha dezenas de opções a todos os preços, incluindo estrados quase dados. Agora já sei isso, mas na altura não sabia (vocês talvez ficassem surpreendidos com a quantidade coisas que eu não sei, nomeadamente sobre a vida real).

De maneira que liguei para seis carpintarias de Lisboa diferentes, a encomendar uma prancha de tabopan com 2,00 m por 2,20 m. Está bem, está bem: os estrados das camas já não podem ser feitos em tabopan, porque os colchões precisam de respirar, caso contrário vêem reduzida a sua vida útil. Agora já sei isso, mas na altura não sabia (vocês talvez ficassem surpreendidos com a quantidade coisas que eu não sei sobre a dimensão animal dos objectos, embora também orgulhosos do que tenho aprendido sobre a dimensão humana dos animais).

O facto é que, das seis carpintarias em causa, uma não atendeu, outra disse-me para deixar nome e número de telefone, que o marceneiro logo me ligava (não ligou), outra tinha o operador de máquinas de férias, outra precisava primeiro de confirmar se havia tabopan em stock e as restantes duas lamentavam muito, mas só se dedicavam a trabalhos industriais para empresas.

A nenhuma interessou a minha obra de cinquenta euros – são trabalhos pequenos, dão mais despesa do que lucro. A nenhuma interessou sequer despistar a possibilidade de, atrás desse trabalho, virem outros – um gajo que quer uma prancha de tabopan nunca vai pedir mais do que uma reparação nas persianas ou um afagamento no soalho. E a nenhuma, naturalmente, o sentido de missão se impôs sobre o interesse contabilístico – que diabo é isso, afinal, “sentido de missão”?

E eu, que já fui um gastador, fico a pensar que a crise ainda não chegou, a não ser àqueles que perderam os empregos. E mesmo a alguns desses, aliás, não chegou, caso contrário não pegavam tantos deles nas indemnizações para irem comprar carros novos, que os antigos, coitados, já estavam a ficar um bocadinho descaídos.

De resto, os taxistas continuam a chatear-nos a molécula de cada vez que a corrida é inferior a cinco euros, o que significa que o negócio ainda não vai tão mal quanto isso. Os festivais de Verão tornaram este ano a bater recordes de afluência, o que nos demonstra que muitos orçamentos familiares ainda não levaram a pancada. E qualquer contestação que vá havendo ao estado de coisas ainda se resume ao protesto puro e simples, feito quase por desporto, sem subversão criativa, sem malícia, sem cultura.

Tudo bem: por mim, fui ao Ikea e ainda trouxe de lá um candeeiro. Mas, se isso resolveu o meu problema, não resolve o problema da economia portuguesa. Continuamos a viver, tenho a impressão, como se estivéssemos em 1998. E, quando isto bater, já será tarde de mais.

CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós")

NS', 20 de Agosto de 2011

(imagem: © www.leigosnanet.blogspot.com)

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1 comentário:
De Isa a 22 de Agosto de 2011 às 20:50
putz, acho que é crónico. e fico louca com isso, fico louca comigo qd penso assim. quem diabo pensamos que somos, não é? Que coisa...

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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