Domingo, 14 de Agosto de 2011
publicado por JN em 14/8/11

Todos o sabemos: é uma época do ano com especial propensão para a idiotice, esta que atravessamos. Como se não bastassem a crise, a instabilidade da meteorologia e os setenta e seis reforços do Benfica, homens de barba rija passeiam-se de chinelos pelas ruas, televisões e jornais e revistas enchem-se de histórias sobre as férias dos “famosos” no Algarve, automóveis param nas estações de serviço e logo de dentro deles saltam quatro grunhos de trinta anos  para se porem a jogar à bola entre as bombas de gasolina.

Sempre tivemos jeito para a idiotice. Contudo, e por muito que abundem os exemplos de como sempre tivemos jeito para a idiotice, sobrevivemos bem no meio da idiotice e tantas vezes até nos superámos nos domínios da idiotice, creio que poucas vezes fomos tão escandalosamente idiotas como quando decidimos, ainda um dia destes, distribuir nas salas de cinema portuguesas o filme dos Estrumpfes com o nome inglês da série, “The Smurfs”.

Notem que pouco me une à coisa. Por acaso (não por acaso, está bem, não por acaso), “Estrumpfe Resmungão” até era uma das minhas alcunhas de infância. Mas, se vamos falar dos desenhos animados do meu tempo, eu lembro-me muito mais rapidamente do Tom Sawyer, sobre todos os outros inspirador para um rapaz do campo como eu, do Dartacão, que fez de mim o mais exímio espadachim da Terra Chã, ou do Conan, o rapaz do futuro, pelo qual, ao contrário do que alguma vez aconteceu com os Estrumpfes, ainda troquei algumas tardes a jogar à bola.

Mais: se há uma coisa que eu não sou, é um saudosista dos anos 80, a mais pirosa década da história da cultura pop, com os seus casacos de chumaços, os seus solos de guitarra eléctrica e a sua deificação de K.I.T.T., o carro de Michael Knight. E mais ainda: fosse o dito filme sobre os Estrumpfes ou o Capitão América, o Panda Taotao ou os Jovens Heróis de Shaolin, para mim era-me igual ao litro, porque, como já aqui disse, estou farto de cinema para bebés grandes até à mais fina pontinha dos meus cada vez mais escassos cabelos.

Não deixa de ser fascinante, porém, constatar como, quando queremos mesmo sê-lo, nós conseguimos com toda a facilidade ser superlativamente idiotas. E como, quando queremos mesmo sê-lo também, com maior facilidade ainda conseguimos ser espectacularmente provincianos. Chamar “The Smurfs” aos Estrumpfes, por acaso, é as duas coisas ao mesmo tempo: superlativamente idiota e espectacularmente provinciano.

Não duvido nada de que um estudo de mercado tenha aconselhado o título em inglês, note-se. Persistem entre as nossas gerações mais velhas uma falta de mundo e um analfabetismo tais que um adolescente com noções rudimentares da língua de Shakespeare se torna automaticamente na superestrela lá de casa, o raça do miúdo, que fala inglês como um papagaio, e mais ó camandro. Iletrados de todas as idades rendem-se de paixão a um livreco com histórias de feiticeiros e dragões e depois, sem mais o que dizerem sobre ele, dizem que “está brutal”, tirando “alguns problemas de tradução”, protesto com o qual, de novo, não pretendem outra coisa senão deixar claro que falam inglês como papagaios, os raças dos miúdos, e mais ó camandro.

Mesmo eu, confesso, sempre me orgulhei idiotamente do meu inglês. Nascido numa ilha que me permitia o contacto com militares americanos, cedo me familiarizei com o sotaque das Appalachians – e ainda hoje, passando uma boa parte da minha actividade pelo jornalismo de golfe, incluindo comentários na TV, dou por mim, pacóvio também, a armar-me aos cucos em directo com os greens in regulations e os scramblings e os up-and-downs, todos cantadinhos no mesmo tom em que os cantariam (e, aliás, cantam) Jim Nantz, David Feherty e Peter Kostis.

Pois acaba aqui. A partir de agora, e à maneira de Eça, hei-de falar orgulhosamente mal inglês – e, se me exigirem que chame aos Estrumpfes algum nome em língua estrangeira, então hei-de chamar-lhes “Les Schtroumpfs”, que ao menos é o seu nome original. Com tudo isto, não conseguiram os senhores da Columbia TriStar Warner outra coisa senão pôr-me a admirar espanhóis, franceses e italianos, com quem durante tanto tempo gozei por não conseguirem dizer uma palavra noutra língua que não a sua. Afinal, tão espertos, tão espertos, tão espertos que nós somos, e ainda fomos afundar-nos na crise primeiro do que eles.

CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós")

NS', 13 de Agosto de 2011

(imagem: © www.leigosnanet.blogspot.com)

5 comentários:
De Margarida a 15 de Agosto de 2011 às 14:45
"Rir é o melhor remédio" é mesmo verdade! O que me ri..., está giríssimo e 'na mouche'!
Se quisesse retirar um pedacinho, não podia escolher, está 'bóptimo' do princípio ao fim. Parabéns.
Cada vez mais faz falta o (bom) humor; é valor seguro, mas raro, logo, precioso.
Também acho a ideia uma idiotice, mas os bonequinhos são um mimo. E têm uma cor fantástica ;)
Eu cá gostei dos anos oitenta, mas por outras razões superlativas que não cabem aqui. É a tal diferença geracional, pronto.
:)
De Rui Beato a 16 de Agosto de 2011 às 23:37
Não há dúvida que o melhor tempo era o nosso, que vou a caminho dos 36 - o dos cromos. (Basta ouvir o Markl na Comercial...) Ainda continuo a lembrar-me saudosamente dos anos 80 e de todos os consumíeis televisíveis indicados na crónica e muitos outros. Duvido que esta geração de fedelhos venha dizer daqui a 20 anos " Eh pá na década de 2010 é que era curtido! O Jerónimo Stilton , os Digimon Frontier , os Mecanimais , o Code Lyoko , os Megaman ...", e o futebol japonês que tende em demorar uma eternidade a mostrar o porcaria do golo, blá blá blá . Com tanto estímulo visual e tecnológico, não vai haver memória que resista, já para não falar da fraca qualidade de conteúdos sem substância, muito artificiais e altamente sugestionáveis. E da epidemia "manga" que circula pelo Panda e faz a delícia das minhas filhas. Pelo menos a mais nova anda de amores pelo Ruca. Haja algo de educativo... Lá está, no Canadá Cayou - nome original) já foi criado há quase 20 anos.
Series de culto, cinema de culto...só as da velha guarda e chamem-me velho do Restelo ou um comic old fashion guy ".
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Não há dúvida que o melhor tempo era o nosso, que vou a caminho dos 36 - o dos cromos. (Basta ouvir o Markl na Comercial...) Ainda continuo a lembrar-me saudosamente dos anos 80 e de todos os consumíeis televisíveis indicados na crónica e muitos outros. Duvido que esta geração de fedelhos venha dizer daqui a 20 anos " Eh pá na década de 2010 é que era curtido! O Jerónimo Stilton , os Digimon Frontier , os Mecanimais , o Code Lyoko , os Megaman ...", e o futebol japonês que tende em demorar uma eternidade a mostrar o porcaria do golo, blá blá blá . Com tanto estímulo visual e tecnológico, não vai haver memória que resista, já para não falar da fraca qualidade de conteúdos sem substância, muito artificiais e altamente sugestionáveis. E da epidemia "manga" que circula pelo Panda e faz a delícia das minhas filhas. Pelo menos a mais nova anda de amores pelo Ruca. Haja algo de educativo... Lá está, no Canadá Cayou - nome original) já foi criado há quase 20 anos. <BR>Series de culto, cinema de culto...só as da velha guarda e chamem-me velho do Restelo ou um comic old fashion guy ". <BR class=incorrect <a name="incorrect">Estrumpfs</A> </A>!? Coleccionei-os todos em miniaturas de plástico duro. Agora saem nos Happy Meals ...mas fofinhos. Enfim!!
De Irina A. a 17 de Agosto de 2011 às 22:56
Em 1984, tinha eu 4 anos, fui à festa do Avante. O pai comprou-me um livro dos Estrumpfes, foi o meu primeiro livro dos Estrumpfes. Nesse dia estive ao colo do Álvaro Cunhal e recordo-me do Cunhal me ter perguntado se gostava dos Estrumpfes. Portanto, caro Joel, se até o Cunhal lhes chamava Estrumpfes, não sou eu que lhes vou chamar Smurfs.

Mas isso não interessa nada, o importante e a reter neste meu comentário é que eu não sou comunista e nem sei como é que fui parar ao Seixal naquele dia.
De Alexandre Gomes a 20 de Agosto de 2011 às 12:52
Os "espaços" de Joel Neto na revista J é, basicamente, a única razão que me faz ler a revista habitualmente. Isto vindo de um heterossexual, e olhando às capas e fotos da dita revista, pode parecer bizarro! Mas é a verdade.
De Anónimo a 21 de Agosto de 2011 às 09:19
Muito obrigado, Alexandre! JN

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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